Augusto Diniz
Augusto Diniz

Ganhe 24 minutos e 55 segundos de diversão no feriado com novo disco do Merda

Álbum da banda de Vila Velha (ES) foi gravado em março no Estúdio Tambor, no Rio de Janeiro, e traz 22 músicas recheadas de críticas à sociedade, punk e sarcasmo

Depois de cinco anos, banda capixaba Merda volta a lançar um disco completo | Imagem: Alex Vieira

Fábio Mozine (vocal e guitarra), Alex Vieira (vocal e bateria) e Rogério Araújo, o Japonês (vocal e baixo), talvez sejam hoje a banda mais divertida do punk rock brasileiro. Com letras contaminadas por alto teor de sarcasmo, críticas sociais em forma de deboche e muita podridão, o Conjunto de Música Jovem Merda, ou apenas Merda, lançou na última sexta-feira (21/4) o disco Descarga Adrenérgica.

O trio de Vila Velha (ES) lança um álbum de estúdio completo, com 24 minutos e 55 segundos divididos em 22 canções, depois de cinco anos do último lançamento apenas da banda. O disco Indio Cocalero (2012) foi sucedido pelo split com a banda Os Estudantes, que saiu em 2015. Sim. Eles tiveram essa audácia e fizeram mais um CD (Isso ainda existe?).

Se você conseguir se despir de muitos preconceitos e souber encarar a música como uma diversão, verá que o Merda é uma das melhores bandas ruins de nossos tempos. E eles não estão nem aí para o que você pensa também. Há também quem não goste de punk rock e hardcore, mas pode adorar as letras.

Descarga Adrenérgica

O agressivo e curto disco, com 22 músicas em 24 minutos e 55 segundos, começa com Bipolar, primeiro videoclipe do Descarga Adrenérgica, que é um pouco mais lenta do que o resto das outras canções. Mas deixa claro o estilo debochado presente no álbum. “Não vou, vou/Não vou, faço/Não vou, quero/Bipolar.”

O Descarga Adrenérgica foi gravado por Jorge Guerreiro no Estúdio Tambor, no Rio de Janeiro, em março deste ano, com produção de Rafael Ramos (Deck Disc), aquele que gostou da fita demo dos Mamonas Assassinas. Quase todas as letras foram escritas por Mozine e Japonês. A masterização foi feita por Fabio Roberto. A pré-produção do álbum ficou por conta de Leo Molini no Studio Level em Vila Velha (ES). O disco foi lançado pela Laja Records, mais conhecida como Laja Golpes, de Mozine.

Eu Não Frequento é uma declaração contra tudo que os integrantes da banda acham errado o incoerente com aquilo que acreditam: “Eu não frequento torcida organizada/Eu não frequento culto evangélico/Eu não frequento bancada de político/Eu não frequento festa de playboy“. Mais animada do que Bipolar, Eu Não Frequento começa a dar o tom adotado na sequência do álbum. “Eu não frequento rodeio de Barretos/Eu não frequento praça de alimentação/Eu não frequento a turma sexista/Eu não frequento local que tem fascista.”

Em Crise dos 40, o início calmo com nomes dos remédios Omeprazol, Rivotril e Tylenol se alternam em 35 segundos de música com uma sequência de espancamento de bateria em que  os efeitos são descritos como “piripaque, tremelique, doideira“. Outra rápida é Jamais, que dá espaço à Turbulência, que brinca que “ninguém é ateu na turbulência“, quando a coisa aperta e o avião parece que vai cair: “Até a foto do papa eu beijo de língua“. A letra de Turbulência foi escrita por Alcides Junior Capeta.

Participações

O deboche ganha tom máximo em Timeline, com letra de Mozine e Laura Paste, quando tudo que a pessoa sente ou pensa parece só existir se for postado nas redes sociais da internet. A primeira participação do disco é de Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish (ES), que assume o vocal em Virou Coxinha.

Mais melódica, a letra fala sobre um amigo que pede para que alguém que ele considera muito, que juntos pensavam em mudar o mundo, para não se tornar “massa de manobra”. “Por isso eu te peço, amigo/Repense e reflita/Não vire esse merda babaca/Coxinha e fascista.” A voz de Rodrigo foi gravada no Estúdio Rocha, em São Paulo.

7 X 1, com nome auto-explicativo, na qual Japonês compara sua vida diária à goleada sofrida pela seleção brasileira masculina de futebol na semifinal da Copa do Mundo de 2014, no Mineirão, em Belo Horizonte (MG), para a Alemanha. “A minha vida/É um 7 a 1/Todos os dias.”

Ficar incomodado ao ponto de falar sobre o assunto em uma letra. Quando alguém de fato não se importa em saber o que você comeu ou o que você pensa. Essa é Existência Desprezível, uma declaração de ódio à vida alheia.

Sonho ou pesadelo?

A música Armário do Merda começa com uma voz que fala: “Meu irmão, deixa eu te contar. Rapaz, tive um sonho muito doido. É. Sonhei que eu estava tocando com vocês no Merda, meu irmão”. Depois de contar isso, a pessoa cai na risada. Já a letra, escrita por Alcides Junior Capeta, mostra uma pessoa que passa a se sentir envergonhada por gostar de Merda. “Meu armário está horrível/Alguma coisa não está certa/Tenho muitos acessórios/Do Conjunto de Música Jovem Merda” é o refrão de Armário do Merda.

You’re Not a Man é a primeira canção em inglês do disco. Descarga Adrenérgica é bem o que o nome música que dá título ao álbum descreve. Pancadaria sem necessidade de ter muitas palavras além de duas. “Melhor que gente/Melhor que gente/Melhor que gente/Cachorro é massa.” Esses são os primeiros versos da rápida e direta Cachorro É Massa.

Se o recado já estava bem claro em Cachorro É Massa, com Roqueiro Reaça não resta muita dúvida: “Nunca mais usei tóxico/Nem faço arruaça/Eu sou reaça, reaça, reaça/Roqueiro reaça“. Seria um pesadelo pensar que a humanidade estaria regredindo. É o que teria acontecido com o mundo por culpa da Máquina do Tempo.

Hangover Depression virou o segundo videoclipe do disco, lançado também na última sexta-feira, que é cantada pelo baterista Alex Vieira. O Diabo Está Sempre ao Meu Lado, cantada por Sandro Juliati, vocalista do Mukeka Di Rato (ES), e fala, com muita descontração, sobre uma pessoa que aceitou ser amiga do capeta desde pequeno. Sandro gravou o vocal no Studio Level, em Vila Velha.

Odeia o Merda?

Odeio Tudo é uma ode raivosa e revoltada ao ódio. “Odeio escola/Odeio criança/Odeio padre/Odeio madre/Odeio bicho/Odeio bispo/Odeio tudo/Vai se foder.” E continua: “Odeio minha banda/Odeio sua banda” e “As músicas da minha banda/Odeio Merda/vai se foder“.

Menos agressiva, mas ainda rápida, A Bolha parece ser um lugar onde a pessoa se sente a salvo, mas “A bolha é você“. Uma Guerra é uma música que poderia ter sido facilmente inspirada no desejo incontrolável de guerra nutrido por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos: “Não precisa fazer sentido/Ódio tenho bastante/Quem devo matar?/Em quem devo atirar?“.

Sabe aquele seu amigo que tem tatuagem e você insiste em perguntar: “Mas e quando você ficar velho com esse monte de desenho espalhado pelo corpo?”. A música Velho, Bobo, Bêbado e Tatuado te responde da forma mais sarcástica possível. “Eu vou velho, bobo, bêbado e tatuado sim“, canta Paulista, guitarrista do Mukeka Di Rato, que gravou sua participação no álbum em Vila Velha.

O disco Descarga Adrenérgica acaba com a didática Observe Suas Fezes: “Observe suas fezes/Elas falam de você/Olhe-se no espelho/Leia os comentários/Pense um pouco mais/Antes de falar/Recolha as suas fezes/Recolha-se a você“.

Ouça o disco Descarga Adrenérgica:

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