“Se os tradutores não lutassem por seus projetos, muitos escritores não seriam conhecidos”

Tradutor estadunidense conta ao Opção Cultural sobre seu interesse no Brasil e revela que tem muitos projetos profissionais envolvendo a literatura brasileira

Na foto Eric M.B. Becker

Eric M.B. Becker é editor da Words without Borders, revista de tradução dos EUA que já publicou textos de escritores como Svetlana Alexievich, Nobel de Literatura em 2015 | Foto: Renan Accioly

Marcos Nunes Carreiro

É comum ouvir que os escritores brasileiros têm dificuldade em se fazerem conhecidos no exterior, sendo dois os motivos principais para que isso ocorra. O primeiro é a falta de políticas públicas de incentivo à difusão da literatura e da língua do país; o segundo é linguístico, visto que a língua portuguesa ainda não tem uma grande propagação no mundo. Por isso, é fundamental o papel dos tradutores, sobretudo os de língua inglesa com atuação no Brasil.
E são muitos os tradutores com interesse na língua e na literatura brasileiras. Neste mês de julho, por exemplo, o Brasil é foco de dois trabalhos de difusão literária: uma coletânea de autoras brasileiras traduzidas para a língua inglesa, que será lançada nos Estados Unidos; e a edição mensal da estadunidense “Words without Boders”, que será dedicada à literatura do país.

“Words without Borders” é uma revista que só publica literatura em tradução e que, em 13 anos, já publicou mais de 2 mil textos, traduzidos de 112 línguas diferentes, de mais de 130 países. A edição de julho da revista diz respeito a um projeto denominado Brazil Beyond Rio e irá publicar um trecho da nova tradução para o inglês de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, feita pela australiana Alison Entrekin.

Também serão publicados trechos da obra do escritor goiano E­di­val Lourenço. A­liás, o editor da re­vista, Eric M. B. Be­cker está no Bra­sil para traduzir “Naqueles morros, depois da chuva”, livro de Edival que foi premiado com o Jabuti, em 2012. Nesta entrevista ao Opção Cultural, Eric conta como iniciou sua trajetória na tradução e de como é apaixonado pela língua portuguesa, sobretudo pela literatura feita por escritores que não sejam do Eixo Rio-São Paulo.

Eric, que é casado com uma brasileira, revela que aprendeu língua portuguesa por influência da esposa, mas que seu interesse pela língua foi o maior motivador para que se tornasse tradutor. Aos 32 anos, o tradutor estadunidense é mestre em escrita criativa e tradução literária pela Queens College-City University of New York e já recebeu alguns prêmios por seu trabalho, sendo o principal deles o prêmio PEN/Heim, em 2014, por sua tradução de uma coletânea de contos do escritor moçambicano Mia Couto.

“É engraçado”, conta Eric. “Ganhei o prêmio com a tradução de um moçambicano, mas imediatamente surgiu, nas editoras dos Estados Unidos, um interesse acerca da literatura em língua portuguesa, principalmente do Brasil. Mas tudo bem, pois meu interesse sempre foi, e continua sendo, a literatura brasileira.”

É verdade. Antes do prêmio, Eric já havia publicado outros trabalhos em revistas com a tradução de outros autores brasileiros; autores importantes, ressalte-se. “Eu já tinha outros textos publicados, como uma crônica do Carlos Drummond de Andrade e alguns textos de Lygia Fagundes Telles”, explica.

O sr. ganhou a bolsa Fulbright e está no Brasil para traduzir, entre outros autores, o goiano Edival Lourenço. Como foi isso?
Quando eu comecei a flertar com essa ideia de ser tradutor, em 2012, uma amiga minha trabalhava na Hedra [editora que publicou “Naqueles morros, depois da chu­va”, livro de Edival Lourenço premiado com o Jabuti, em 2012]. Ela sabia que eu estava interessado em tradução literária e me falou de um autor deles que tinha algo de Guimarães Rosa, com uma linguagem regional. Ela me perguntou se eu estava interessado em traduzir um trecho porque a editora queria publicar a tradução na Revista Machado de Assis, que é da Biblioteca Nacional, para levar à Feira do Livro de Frankfurt, o que de fato aconteceu.
Essa foi minha entrada. Quando o tradutor está começando, ele precisa sugerir projetos para as editoras, pois elas querem saber o que você está fazendo. A verdade é que as editoras ficam reticentes em publicar projetos de tradutores iniciantes. Depois de traduzir esse trecho do Edival, coloquei o projeto na gaveta para voltar a ele em algum momento. Isso aconteceu no outono de 2012 e a revista foi publicada na primavera de 2013.
Outro motivo pelo qual eu quis ser tradutor era essa coletânea do Mia Couto. Eu entrei no mestrado em 2012 e fui me dedicando a essa coletânea do Mia. Eu tive muita sorte em trabalhar, dentro e fora do mestrado, com alguns tradutores como Ammiel Alcalay e Esther Allen, que é uma das maiores tradutoras da língua espanhola. E eles não só se interessaram por meu trabalho, como estavam dispostos a me ajudar. Eles liam as minhas traduções e ajudavam a melhorar e me apresentavam a teorias da tradução.
No meio do mestrado, eu me can­didatei ao prêmio PEN, que é uma espécie de bolsa em que você entrega a sua tradução, de obras ainda não publicadas. Tive a sorte de ganhar com a coletânea do Mia. Já havia naquela época algumas editoras interessadas no projeto, mas isso abriu caminhos. Eu já tinha outros textos publicados, como uma crônica do Drummond [Carlos Drummond de Andrade] e da própria Lygia [Fagundes Telles], mas o prêmio foi um divisor de águas, pois as editoras olharam para mim como um recurso e as pessoas que não conheciam nada de literatura em língua portuguesa começaram a perguntar, principalmente do Brasil; o que é engraçado porque ganhei o prêmio com a tradução de um moçambicano. (risos) A coletânea do Mia, aliás, será publicada em janeiro de 2017. Mas meu interesse sempre foi, e continua sendo, a literatura brasileira.
Terminei o mestrado e eu queria arrumar um jeito de passar um bom tempo no Brasil. Eu vim pela primeira vez em 2005 e, desde então, venho todo ano. Mas eu queria passar mais tempo. Eu não estava nem pensando na Fulbright e alguém me indicou. Fiz a proposta para trabalhar no romance do Edival e em uma co­letânea de contos do Eric Ne­po­muceno, que conheci por saber que ele é tradutor, para o português, do [Gabriel] García Már­quez. É uma paixão minha trabalhar com essa literatura que é fora do eixo Rio-São Paulo, então surgiu a proposta, que foi aceita e aqui estou.

Nobel de Literatura em 2015, Svetlana Alexievich teve trechos de um livro seu traduzidos e publicados na “Words without Borders”, em 2004 | Foto: Divulgação

Nobel de Literatura em 2015, Svetlana Alexievich teve trechos de um livro seu traduzidos e publicados na “Words without Borders”, em 2004 | Foto: Divulgação

O sr. está traduzindo também algumas autoras brasileiras para uma coletânea. Quais são elas?
É uma coletânea só de escritoras brasileiras. A ideia surgiu para enfrentar esse problema, que é a baixa representatividade de escritoras. E esse não é um problema só da literatura brasileira, então a literatura em tradução está tentando solucionar isso. Nós, eu e Mirna Queiroz [editora da Revista Pessoa], tentamos mostrar vários gêneros literários, estilos e gerações. Na ficção, entre outras, temos: Lygia Fagundes Telles, Elvira Vigna, Noemi Jaffe, Ana Maria Gonçalves, Adriana Lisboa. Na poesia: Ana Mar­tins Marques, A­lice Sant’Anna, Mau­­ri­nete Li­ma, Marília Garcia. Em crônicas: Maria Esther Maciel e um relato do livro “Diários da Floresta”, de Betty Mindlin. Também tem E­liane Brum, que adaptou uma reportagem que fez para o “El País” sobre as comunidades que foram deslocadas por conta do projeto de Belo Monte [usina hidrelétrica]. Então, a ideia é mostrar como o Brasil tem escritoras de peso em vários gêneros literários e passando pelas gerações. Isso faz parte de um movimento que começou no Reino Unido e está ficando cada vez mais forte, que é o Read Women, um projeto criado para destacar a literatura escrita por mulheres.
Quando recebi o convite para editar essa coletânea do PEN American Center, logo depois de ganhar um prêmio do PEN por uma coletânea do Mia Couto, pensei em várias abordagens, pois esse é um ponto presente em vários festivais literários: como corrigir o fato de, ainda em 2016, termos uma literatura dominada por escritores, por homens. Eu já havia traduzido Lygia e também conhecia o trabalho de Noemi. Então, eu e Mirna conversamos e chegamos ao acordo de que queríamos apresentar não só escritoras, mas mostrar o desenvolvimento literário pelas gerações. Temos Lygia, com 93, que tem uma posição grande dentro da literatura do século 20 e também no século 21; por outro lado, temos a poesia de Alice Sant’Anna, que é mais jovem que eu. Talvez, isso também ajude a mostrar que existe uma tradição literária no Brasil muito forte e que merece atenção.

A revista na qual o sr. é editor, a “Words without Borders”, lançará um projeto de tradução relacionado ao Brasil. Qual o foco?
O núcleo da edição de julho da “Words without Borders” tem como tema o que chamamos de Brazil Beyond Rio, que é para mostrar os escritores brasileiros para além dos cariocas, que são os mais divulgados. Teremos um trecho da nova tradução do Gui­ma­rães Rosa, feita por Alison En­trekin; um trecho da tradução de um romance do Lúcio Cardoso, “Crônica da Casa Assassinada” — tradução, aliás, que já tem uma editora e vai sair no final do ano; teremos poesias do goiano Edival Lourenço; e também teremos Caio Fernando Abreu, Carlos Henrique Schroeder, Ronaldo Correia de Brito, entre outros.

A revista publica traduções da literatura de vários países e não apenas do Brasil. Como funciona?
A revista tem 13 anos. Estou lá desde o ano passado. É uma revista mensal que só publica literatura em tradução e a ideia é dar conta do mundo todo; como temos apenas 13 anos, ainda não demos conta de tudo. (risos) Nesse mês, estamos focando no Brasil, mas não é sempre assim. Às vezes, temos um tema e oito ou nove línguas dentro da mesma revista.

Goiano Edival Lourenço, cujo livro está sendo traduzido para a língua inglesa, faz parte da edição de julho da “Words without Borders” | Renan Accioly/Jornal Opção

Goiano Edival Lourenço, cujo livro está sendo traduzido para a língua
inglesa, faz parte da edição de julho da “Words without Borders” | Renan Accioly/Jornal Opção

A “Words without Borders” é apenas digital?
É digital, mas também publicamos antologias impressas, embora não seja todo ano que fazemos isso. Temos antologia só de poesia ou só de literatura do Oriente Médio. Teve uma, por exemplo, em que nós brincamos com a expressão do presidente Bush [George W.], que falou sobre o “Eixo do Mal” para se referir a Coreia do Norte, Irã e Iraque. Então, fizemos uma antologia só de literatura do “Eixo do Mal”. (risos) É um trabalho muito gratificante, pois acabamos descobrindo muitos escritores, inclusive ganhadores de prêmios importantes. Publicamos, por exemplo, a última Nobel de Literatura, a Svetla­na Alexievich. Aliás, vários escritores que estiveram na Flip já foram publicados por nós. Publicamos o mexicano Álvaro Enrigue, que na Flip conversou com Marcílio França Castro, e também publicamos Valeria Luiselli e Svetlana. Então, como eu também estive na Flip, chegamos a cogitar fazer uma festa da “Words without Borders”. (risos)

Vocês traduziram um texto de Svetlana Alexievich. Foi o “Vozes de Tchernóbil — A História Oral do Desastre Nuclear”, ganhador do Nobel?
A gente não tem colaboradores fixos, porque a ideia é realmente, a cada mês, mostrar uma literatura diferente. Mas há vários escritores que a gente publicou repetidamente. Agora, o trecho que publicamos traduzido da Svetlana não foi desse livro mais recente. Acho que a publicamos em 2004.

Falávamos, antes da entrevista, sobre a falta de iniciativas para difundir a literatura brasileira no exterior. O sr. citou uma importante iniciativa da Mirna Queiroz, da Revista Pessoa. Fale um pouco sobre isso.
Sim. Mirna lançou, no Festival de Boston, no ano passado, uma coletânea em inglês de escritores brasileiros e levou três deles para Boston. Foi muito bacana. Teve uma plateia muito boa e que estava interessada; as pessoas fizeram questionamentos interessantes. Acho esse trabalho importante.

Quem eram os escritores?
Nuno Ramos, Alexandre Vidal Porto e Luisa Geisler. Esses três foram a Boston. O Alexandre, inclusive, lançou um livro recentemente, publicado pela Europa Editions, chamado “Sergio Y.”. No Brasil, o livro foi publicado com o título “Sergio Y. vai à América”, mas nos Estados Unidos ficou apenas “Sergio Y.” e está tendo bastante sucesso lá. O livro foi bem resenhado e acho que eles venderam muitos exemplares. O Nuno ganhou o Grande Prêmio Portugal Telecom com seu livro “Ó”. É engraçado porque a revista em que eu trabalhava antes, a “Asymptote”, publicou um trecho traduzido dessa obra. Foi quando eu conheci o trabalho de Nuno e disse “ó”. (risos)

Falta divulgação por parte dos países em relação a sua literatura. Então, como vocês descobrem novos escritores entre tantos países? É, de fato, um trabalho de descobrimento?
Geralmente, descobrimos de duas maneiras. O pesquisador tem muitas tarefas. Traduzir é a principal, mas também tem que divulgar e advogar por um autor ou um livro junto à editora. Então, como a gente tem uma rede de vários tradutores, às vezes, eles vêm com projeto pronto. Por exemplo, em junho, publicamos textos de autores canadenses, que são de origem latino-americana. Aí a tradutora que teve esse projeto veio e propôs isso para a gente. Trocamos figurinhas e, de seis escritores, escolhemos três. Então, essa é a principal forma.
A outra, menos comum, é fazermos, a gente mesmo, a pesquisa. Não temos, por exemplo, muitas publicações de autores da Ásia e da África. Tentamos mudar isso por meio da pesquisa. Aí vamos atrás de um tradutor que é conhecido por trabalhar com determinada língua ou país. Já publicamos traduções de línguas indígenas, para a qual é muito mais difícil de achar um tradutor. Agora, tenho dó dos tradutores brasileiros, que tem prazos muito apertados. Já ouvi casos de tradutores que tinham de entregar um projeto dentro de um mês. Eu disse: “Mas como você vai fazer isso? Com que qualidade?”. Acho injusto com o tradutor. Como en­tregar algo com qualidade assim? Mas é isso. O tradutor em língua in­glesa deve se dispor a ter um papel muito mais amplo do que só traduzir; tem que lutar por seus autores. Se não fosse isso, muitos escritores não iriam sair traduzidos.

Drummond e Lygia Fagundes Telles são dois escritores brasileiros já foram traduzidos por Eric M. B. Becker | Fotos: divulgação

Drummond e Lygia Fagundes Telles são dois escritores brasileiros já foram traduzidos por Eric M. B. Becker | Fotos: divulgação

Mas acontece de surgirem propostas de revistas ou editoras solicitando tradução?
Sim, acontece. Meus próximos dois projetos, por exemplo, não foram propostos por mim. Mas o comum é que o tradutor corra atrás e faça muito trabalho braçal. (risos) Além disso, acho que o maior problema da tradução é não ter um modelo viável financeiramente. Nós somos uma organização sem fins lucrativos, então, a gente ganha fundos de algumas instituições e fundações e doadores individuais. Se não fosse isso, acho que a gente não existia. É algo que, realmente, não dá lucro para ninguém. Talvez à editora, se vender bem, mas para o tradutor… só dureza.

Como é a recepção literária nos Estados Unidos?
Os Estados Unidos não é uma sociedade que valoriza tanto a literatura. E é um país que tem uma forte corrente anti-intelectual, como no Brasil. As pessoas olham para a literatura como se ela não tivesse a maior importância. Mas, para não ser pessimista, quando a “Words without Boders” começou há 13 anos, ela era uma das únicas revistas que se focavam em literatura em tradução. Tinha também a “World Literature Today”, que tem 90 anos e é ligada a uma universidade e, por isso, sobrevive tanto.

Qual universidade?
University of Oklahoma. Atu­al­mente, posso pensar em várias revistas, claro, de diversos tamanhos. Tem a “Asymptote”, a “Mu­sic & Literature”, “Buenos Aires Review”, que se foca obviamente na literatura da América Latina, e mesmo outras como “The White Review”, que publicam muita coisa em tradução. Ou seja, agora há muito mais interesse. Mas é difícil também dizer, porque eu moro Nova York e estou ciente do fato de que isso não é representativo em relação ao país como um todo, mas existe mais interesse. E isso tem a ver também com a nossa geração, que é mais aberta e curiosa pelo mundo. Certamente em Nova York, posso dizer, as pessoas com quem eu ando têm um forte interesse em literatura internacional. E acho que isso vai aumentar.

Yago Rodrigues Alvim – E qual é o suporte mais procurado, o virtual ou o impresso?
A cultura do livro está bem forte nos Estados Unidos. Teve uma época, como creio que aconteceu aqui, a gente achou que o livro impresso ia acabar. Só que agora a gente vê que as pessoas gostam do livro objeto. Nesses últimos anos, do começo do milênio até cinco atrás, tivemos muitas livrarias independentes fechando; agora, a gente está vendo algo no sentido oposto. Aliás, essas livrarias são muito importantes para a literatura em tradução porque, geralmente, os donos dessas livrarias não olham para isso só como um negócio; eles têm a cultura da recomendação. Não chega a ser uma resenha, mas são algumas frases. E não chega a ser só uma questão de vendas, pois são anotações de valor. Esse pessoal é essencial para a literatura internacional. Os tours de escritores, por exemplo. Quando se trata de escritores internacionais, esses tours geralmente acontecem nessas livrarias porque os clientes delas também têm esse interesse.

Na próxima edição, o Opção Cultural publica uma reportagem especial sobre tradução. Além de Eric M. B. Becker, entrevistamos também outros tradutores tanto de prosa quanto de poesia.

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Clelia Nobrega

Curiosíssima para ler a tradução de Grande Sertão:Veredas!