O léxico e o sexo

Em “Parafilias”, coletânea de contos de Alexandre Marques Rodrigues, ganhador do Prêmio Sesc de Literatura de 2014, a palavra tenta rivalizar o ato, mas é derrotada pelo vazio compensado com prazeres mecânicos

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

Alexandre Marques Rodrigues, autor de “Parafilias”, livro ganhador do Prêmio Sesc de Literatura de 2014

Alexandre Marques Rodrigues, autor de “Parafilias”, livro ganhador do Prêmio Sesc de Literatura de 2014

Se fôssemos endereçar o espírito criativo que motiva a antologia “Parafilias”, de Ale­xandre Marques Rodri­gues, este teria residência na frase que abre “Um conto abstrato”, parte de “O Voo da Madrugada”, de Sérgio Sant’Anna: “Um conto de palavras que valessem mais por sua modulação que por seu significado”.

Isso porque, no livro de estreia do psicólogo santista, as palavras são aquilo que ressoa além do sentido vocabular, o que impulsiona a motricidade das cenas arquitetadas com uma singeleza luzidia que se retinge do extraordinário. Algo raro e admirável para um debute, que mereceu o Prêmio Sesc de Literatura de 2014, na categoria contos.

Parafilia, segundo o Houaiss, refere-se a distúrbios psíquicos que se caracterizam pela preferência ou obsessão por práticas sexuais socialmente não aceitas; perversão, desvio sexual. Marques ao mesmo tempo mimetiza e adultera esse significado, trabalhando com o desvio para o sexual. Nas 24 breves narrativas, o sexo nunca é um ato consolidado. É frio, perecível, surge como uma fuga diante da incapacidade de se lidar com as aflições cotidianas, os fracassos, os vazios nos quais não viceja o diálogo. O sexo é a palavra sexo. Plurivalente, capaz de emular vários sentidos. O sexo é literatura.

Falar sobre sexo, tanto quanto f­alar sobre literatura, é o que estimula a maioria dos personagens. Nesses re­tratos, é constante um embate entre um casal, no qual a citação a livros e au­tores canônicos parece oferecer adi­tivos para a comunicação, porém são implacavelmente abandonados em prol do asselvajamento do coito. A intelectualidade é sempre vencida pela carnalidade. Essa é a tônica de “Li­vros”, que abre a coletânea: o de­sejo correndo a sangue vivo, uma ar­té­ria estourada que liga realidade e ficção.

O que é íntimo à vida, também é à arte. Marques explora com mestria essa fusão, valendo-se de olhares e rememorações de leituras. “A mulher que disse Nietzsche” é a erotização de aspectos literários e pessoais do filósofo alemão. Em “Quartos”, um camareiro de hotel encontra na leitura de autores russos prazer equivalente à masturbação. “Cachimbos”, evoca os célebres quadros de Ma­gritte (Isso não é um cachimbo) e de Courbert (A origem do mundo), na tentativa de se reproduzir esteticamente uma lubricidade. A pintura também galvaniza “Esboços”, uma relação entre irmãos que insinua graus de incesto.

Aquém do cerco da literatura, as palavras são exploradas num jogo no qual se desmonta a estrutura narrativa. Assim é em “Palavras”, uma escalação de vocábulos aleatórios para pontuar a impotência de um escritor diante de um bloqueio criativo (e uma mulher autoritária); em “Irreversíveis”, blocos de uma história contada de forma regressiva; e em “Léxico”, um fantástico exercício de tecer uma trama tendo como partida palavras-chaves. Marques tem uma prosa seca, polida, que adere os diálogos aos parágrafos sem comprometer a dinâmica e o interesse pela leitura. Nos contos, há uma clara unidade temática trabalhada com uma linguagem rica que fortalece os binômios que fundamentam os textos. Ao focar a literatura, não a alvita; ao focar o sexo, não o vulgariza.

Em momentos em que afloram temas específicos, a exemplo da fisiologia humana, fica evidente algumas influências literárias do autor, como o Rubem Fonseca de “Secreções, Excreções e Desatinos”. O que não é mau, de maneira alguma. Certa feita, durante uma entrevista, o escritor argentino Rodrigo Fresán, ao definir o amigo Roberto Bolaño, disse que há escritores que leem e há escritores que escrevem. Bolaño, segundo ele, era um escritor que lia. Marques, sem dúvida, é um escritor que lê. Felizmente.

Prova irredutível disso é o conto que fecha e empresta nome ao livro. Um homem sentado à mesa de um restaurante toma café, enquanto sintoniza a fala alheia. Um casal. A mulher afirma que parafilias, perversão, é tudo besteira. “Mais do que a inteligência, é a solidão o que melhor caracteriza o ser humano, essa sua incapacidade constante de compreender e de ser compreendido”. Levan­tam, saem. O homem fica com seus pensamentos. “Solidão humana, não foi isso o que ela disse? Ou eu inventei essas histórias todas?”.

Marques salta dos contos para a vida, manipulando seus limites e reencontrando “Um conto abstrato”, de Sant’Anna, em sua frase final: “A vida é uma peça pregada cujo maior mistério é o nada”. Destituídos de tal visão, os personagens de “Parafilias” seguem presos a vazios compensados com prazeres mecânicos.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Queda da Própria Altura” e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc.

via Revista Bula

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