Não duvide, leitor: Capitu traiu Bentinho. Teria Machado de Assis traído o leitor?

Leia uma interpretação quase surrealista de um romance que, inspirado em “Otelo”, dialoga em alto nível com Shakespeare

João Paulo Teixeira

Especial para o Jornal Opção

De onde viemos? Para onde vamos? Que horas aconteceu o Big Bang? Capitu traiu Bentinho? Quase todas as dúvidas acima inspiram os pensantes.

É a marca fumegante (e fulminante) da interrogação marcada em carne viva, como se faz com os bois no Brasil.

“Dom Casmurro”, o romance de Machado de Assis, traz consigo a mente maquiavélica (ou maquiaveliana) e genial de um bruxo. O mago do Cosme Velho é ardiloso. Esperto, vivo, conhecedor do coração das trevas. Tão hábil quanto o grande irlandês Laurence Sterne, uma das influências do escritor tropicaliente.

Se vê e lê que é um filósofo dos panteões, mas não está neles (exceto na Academia Brasileira de Letras). Não quer estar por livre-arbítrio. Habita as almas dos subúrbios, está nas baixadas dos “matacavalos” e nas cortes da Europa. A essência humana lhe é igual.

A construção de Capitu põe Flaubert no chinelo. Melhora a obra clássica de Michelângelo. Dialoga em alto nível com “Otelo” (saiu ótima tradução, de Lawrence Flores Pereira, pela Editora Companhia das Letras), de Shakespeare. Ela não nasce do barro, nem do toque bluetooth do Criador. Vem ao mundo escrevendo na lama com uma vara de marmelo. No chapisco, o prego crava “Bento/Capitolina”. Ele por cima, ela em nome próprio, formal, definitivo.

Criancices? Psicanálise? As duas, juntas, talvez. Atar o princípio ao fim é a sina de um Casmurro, nascido criança mimada — como Brás, da outra antologia — à velho resmungão das seges e dos bondes.

Capitu emerge para a vida eterna da literatura com seu vestido de fita. Sua iniciativa é própria, quando Bento lhe penteia os cabelos e os ata com laço de fita e com os beiços.

Ela é a Lolita de Nabokov que põe a iniciativa no colo de um projeto de seminarista: “Me casar não, que você se demora a ser padre. Você batizará meu primeiro filho”. A profecia está perfeita.

Está somada à descrição de José Dias, fake homeopata que está ali para ser a voz dos coach do século passado, transbordando de forma, meando de conteúdo, mas, ainda assim, práticos: “Aqueles olhos de cigana oblíqua e dissimulada que o diabo lhe deu”. Por ser Bento, sabia o que era dissimulada, não oblíqua.

Capitu é maior que Bento logo no princípio. Maior em altura, maior em complexidade. Quando Bento traz o que ouviu de José Dias atrás da porta, ela é a primeira a explodir. “Carola! Beata! Papa-missas!”. Vai do céu ao inferno em segundos, como a Ferrari vermelha que é (mas, claro, não como Vettel, o dos últimos tempos)

No engenho dos planos, também é a cabeça. É dela a ideia de convencer José Dias e descartar de pronto tio Cosme, um “vida-mansa” que não entraria em causa alheia.

Quando Bento lhes traz as divagações do Imperador intercedendo por eles, ela lhe crava a realidade: “Bentinho, deixemos o imperador sossegado. Fiquemos por hora com a promessa de José Dias”.

Maquiavélico que é, Machado mistura fé, fórmula da época e costumes dos tempos ao colocar Bentinho no seminário para lhe entregar um anjo caído: Escobar. Com rima de Calabar, é ele a achar soluções práticas a questões celestiais: se a promessa é dar um filho à Igreja, pague um órfão para a missão.

O seminário está lá com dois propósitos: conceder drama de Shakespeare à pueril história de amor e, principalmente, para lhe entregar o amigo, algoz, o Judas. Otelo está nas telas e nas páginas. (A scholar Helen Caldwell conectou bem Bentinho, que não é Bonzinho, a Otelo.)

As palavras do anjo caído são dúbias, profanas, ao encarar o mar do Flamengo que lhe toma a vida. “Já me tive com mares mais bravios” — os olhos de ressaca que Bento lhe dá.

Também aparecem lá na frente da narrativa, quando sugere que a filha dele e Sancha se case com a prole de Capitu.

Velho bruxo é sádico. Divino como um anjo caído compondo uma sinfonia. Como ele faz igual com Virgília na narrativa do defunto — que verte lágrimas verdadeiras ao marido que tanto traiu.

O amor verdadeiro não se segura na vala, no pó. Capitu não as controla ao ver “Calabar” deitado no caixão.

A prova vem depois, em carne viva, quando Capitu, exilada, já repousa fria e bela na velha Suíça. Ezequiel vem tal como o pai, em forma, fala, madeixas e conteúdos. A cara metida no prato, os cabelos angelicais como ópera na narrativa de quem o vê.

Faz retornar da sepultura o melhor amigo que lhe recusou um único tostão no Testamento. Deu peso maior, que fez mudar seu ser. Repousa na Palestina por febre tifoide, o corona daquela era.

O amor é a origem da alegria, mas também do desgraçamento. Só a tecnologia liberta o homem — e o programa do Ratinho não existia naquele século. Nem o do incrível Huck, o Luciano.

A sina de um homem foi-se por água abaixo. Casmureou-se.

João Paulo Teixeira, jornalista, é dono da Mind Digital Propaganda.

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