Os horrores da guerra retratados em uma obra para piano

O documentário sobre a vida de Brasse, “Portrecista”, inspirou o compositor goiano Paulo Guicheney

As guerras são sempre um absurdo, e, estamos assistindo, perplexos, a mais uma batalha entre nações em pleno  2022.

A segunda guerra mundial deixou sequelas no planeta. O holocausto foi, sem dúvida, uma ferida incurável.

“The Portraitist”, 2005  

O documentário “The Portraitist”, 2005  – (O Retratista) sobre o fotógrafo, Wilhelm Brasse (1917 – 2012), prisioneiro de Auschwitz cujas fotografias do interior do campo de concentração nazista forneceram um registro histórico dos horrores cometidos no local,  conta a história de três fotografias de uma menina de 14 anos, polonesa católica,  que foi assassinada, e  inspirou uma obra para piano do compositor goiano Paulo Guicheney (1975).

O fotógrafo Brasse foi enviado ao campo de concentração de Auschwitz depois de ser pego em 1940 tentando fugir da Polônia ocupada pelos nazistas para se unir aos militares poloneses no exílio.

Quando seus carcereiros descobriram que ele era um fotógrafo experiente, determinaram que tirasse fotos dos prisioneiros para os arquivos internos da prisão e para registrar as visitas dos oficiais alemães do alto escalão para a posteridade, também recebendo ordens de fotografar experiências médicas do campo nos presos.

Os nazistas mataram 1,5 milhão de pessoas em Auschwitz. Entre os poucos registros fotográficos do campo da morte, as fotos de Brasse foram recuperadas dos arquivos nazistas no fim da Segunda Guerra Mundial e agora estão expostas no Museu de Auschwitz.

Em 2005, o diretor polonês Irek Dobrowolski (1964) lançou o documentário sobre a vida de Brasse, “Portrecista” , o qual inspirou Guicheney.

Paulo Guicheney  compõe para várias formações instrumentais. Sua obra vai muito além das fronteiras de Goiás, e tem sido executada em diferentes países como Argentina, Brasil, Canadá, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, México e Uruguai.

Atualmente Guicheney está cursando o Doutorado em Musicologia na Universidade Nova de Lisboa em Portugal. Paulo é professor efetivo de composição da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás, além de escritor e autor do livro “Tempo de atirar pedras e dançar” (Martelo Casa Editorial).

Paulo conta que ao assistir o documentário do Retratista ficou muito impressionado com as imagens e com o fato de que quase nada restou da história da pequena Czesława Kwoka: Tanto ela quanto a sua breve trajetória se tornaram cinzas. Guicheney resgata essa história através de sua composição.

Curiosamente, o compositor recebeu uma encomenda do pianista brasileiro Jonathan de Oliveira (patrocinada pelo Centro MidAmerican para Música Contemporânea da Faculdade de Artes Musicais da Bowling Green State University) pouco tempo após assistir ao documentário, para compor uma obra para piano.

A princípio, ao compor a obra encomendada e que homenageia a triste história da menina polonesa, Guicheney  escreveu um poema para que fosse lido em uma das seções da peça, o nome da composição é um dos versos desse texto: “In this light without air” (Nesta luz sem ar)

Daughter
sister
mother

in this light without air
without your eyes

you breathe
no more

and while the Eternal sleeps
the sun is devoured by
black lungs.

p. guicheney

Modelo recorrente nas obras de Guicheney é o uso de taças como instrumento de percussão. Na última parte dessa obra, ele utilizou 5 taças de cristal. Segundo o compositor, a qualidade sonora deste momento se assemelha a sinos:

“não sei dizer se há algo programático nisto, talvez haja, talvez não”.

Guicheney também conta que apesar da simplicidade da peça, levou muito tempo para escrevê-la. Modificou várias vezes algumas seções e acabou abandonando várias ideias.


“A primeira versão tinha uma parte eletrônica que compus e abandonei. Não sei a razão para esta dificuldade, em geral eu escolho uma ideia e vou até o fim sem grandes titubeios”.

Ouviremos a peça para piano de Paulo Guicheney  – “In This Light Without Air” – Elegy for Czesława Kwoka (2021), apresentada em primeira audição pelo pianista Jonathan de Oliveira, no auditório da Faculdade de Artes Musicais da Bowling Green State University em Agosto de 2021.

Observe como a peça é clara e calma. Segundo o compositor :

 
“(…) tudo nela é cristalino, sem nenhum tipo de “violência”, de arrombo. Minha ideia foi a de fazer algo como um acalanto, uma elegia em forma de acalanto”.

Uma resposta para “Os horrores da guerra retratados em uma obra para piano”

  1. Avatar Maria Beatriz Barbosa Junqueira disse:

    Nossa Gyovana, chorei muito!!! Obrigada por esse raro conhecimento . E como as teclas do piano tocada assim parecem pegadas com olhares arregalados em busca de uma saída …. Chorei ! Chorei! E Goiano ? Que surpresa maravilhosa! Parabéns pela sua expertise e sensibilidade em plena semana da paixão do nosso mestre . Essa música me lembrou ele também. Beijos

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