Gilberto Gil na Academia Brasileira de Letras

Certamente, o mais novo imortal da ABL entra levando muito mais do que a credencial de escritor, Gilberto Gil, leva riqueza cultural em poesia captada do letrista para o patamar da erudição literária

Um dos nomes mais importantes e premiados da música popular brasileira, incansável na valorização da cultura afro, Gilberto Gil (1942), foi empossado como o novo ocupante da cadeira n. 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo ao jornalista e advogado Murilo Melo Filho (1928 – 2020).

Em seu discurso de posse, Gil disse que, entre as tantas honrarias que a vida lhe proporcionou, entrar na ABL tem uma dimensão especial.

“Não só porque a ABL é a casa de Machado de Assis, escritor universal, afrodescendente como eu, mas também porque a ABL representa a instância maior, que legitima e consagra, de forma perene, a atividade de um escritor ou criador de cultura em nosso país. Sou filho de uma professora primária e um médico. A eles devo o meu amor às letras e música. A imagem dos meus pais está comigo nessa noite e sua memória para mim é uma benção”.

Na posse, Gil, acabou cantando durante o discurso, os versos:

“Se a noite inventa a escuridão, a luz inventa o luar. O olho da vida inventa a visão, doce clarão sobre o mar”.

Certamente, o mais novo imortal da ABL entra levando muito mais do que a credencial de escritor, Gilberto Gil, leva riqueza cultural em poesia captada do letrista para o patamar da erudição literária.

Além da poesia em forma de canções, Gilberto Gil assina quatro obras literárias: O poético e o político e outros escritos, de 1988, com Antônio Risério; Gilberto bem perto, de 2013, com Regina Zappa; Cultura pela Palavra, de 2013, com Juca Ferreira; e Disposições amoráveis, de 2016, com Ana de Oliveira.

Em 1967, faz poesia com a música “Domingo no Parque”, na qual Gilberto Gil cantou com a participação dos Mutantes, conjunto de grande sucesso à época, ficou em 2.º lugar no III FMPB.
“O rei da brincadeira (ê, José)
O rei da confusão (ê, João)
Um trabalhava na feira (ê, José)
Outro na construção (ê, João)”

O imortal, nos quase 80 anos de vida, sendo 60 dedicados à carreira, foi um dos criadores do movimento Tropicalista. O festival de 1967 foi o ponto de partida para o movimento.

Polêmico, em seu momento inicial, o tropicalismo, abriu portas para uma nova etapa na música popular brasileira.

A última obra que Gil gravou no Brasil, um dia antes de partir para o exilio na Europa “Aquele Abraço” foi o seu maior sucesso popular e tornou-se um samba/poesia de despedida.

“Meu caminho pelo mundo
Eu mesmo traço
A Bahia já me deu
Régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu
Aquele abraço
Pra você que me esqueceu
Aquele abraço
Alô Rio de Janeiro
Aquele abraço
Todo o povo brasileiro
Aquele abraço”

Detentor de vários prêmios nacionais e internacionais, entre os anos de 2003 e 2008, Gil foi Ministro da Cultura do Brasil.

“Sou um agente cultural por força do trabalho que faço, por força da representação que tenho. Essa palavra ‘cultura’, nesse sentido do cultivo da qualidade humana, da humanidade em cada um de nós, isso é um interesse que eu sempre tive”,
Declarou Gil.

Gilberto Gil retornou às turnês, a Europa, foi o primeiro destino após a pandemia. O artista agora assume o seu mais novo palco – a academia dos imortais, onde sua obra sempre esteve.

A Academia Brasileira de Letras, ao agraciar o compositor/poeta como novo acadêmico, repete o que a comissão julgadora do Premio Nobel da Literatura já havia feito em 2016 ao contemplar o cantor, compositor, ator, pintor e escritor Bob Dylan (1941) com o mais importante premio da literatura mundial.

Ouviremos a música de Gil repleta de poesia – “Refazenda” (1975)

Observe! Depois do experimentalismo da época do Tropicalismo Gil surpreendeu o público e a crítica com a sonoridade mais simples de Refazenda, inspirada no “baião” e nos ritmos nordestinos. Segundo a crítica da época “tratava-se de uma falsa simplicidade, em que o músico se propunha a retomar elementos da tradição musical brasileira e transformá-los por meio de um ‘despojamento voluntário’”.

2 respostas para “Gilberto Gil na Academia Brasileira de Letras”

  1. Avatar Luiz Fernando Jungmann disse:

    A escolha de Gil, se torna uma síntese da dinâmica das ideias e da cultura. A diversidade do entendimento do que é literatura, ao optar por essa escolha, é enfim reconhecida pela ABL. Parabéns aos imortais, que assim o decidiram.

  2. Avatar Severino disse:

    Grande coisa, ser IMORTAL nessa Academia.

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