Filme de Stanley Kubrick mostra como amor, morte e sexo estão intimamente entrelaçados

Bill imagina sua mulher transando com um homem e busca aventuras. Desejo de Alice parece possibilitar ao marido que conteúdos recalcados tornem-se conscientes

Como Édipo, vivemos na ignorância desses desejos repugnantes à moral, que nos foram impostos pela Natureza; e após sua revelação, é bem possível que busquemos fechar os olhos às cenas de nossa infância.” — Sigmund Freud

Candice Marques de Lima

Especial para o Jornal Opção

Cinema e psicanálise são contemporâneos, ambos surgiram no final do século 19. Os irmãos Auguste e Louis Lumière apresentaram suas primeiras imagens em um cinematógrafo em 1895, no Grand Café, centro de Paris. “A Interpretação dos Sonhos”, embora publicado em 1899, teve em sua primeira edição a data de 1900, a pedido de Sigmund Freud (1856-1939), e é considerado o livro inaugural da psicanálise.

A relação cinema-psicanálise tem sido objeto de estudo e discussão de diversos psicanalistas, que compreendem que a imagem no cinema “nunca é uma realidade simples”, conforme aponta a psicanalista Tânia Rivera, e que há sempre uma relação entre o dizível e o visível, assim como nos sonhos.

Em seu “A Interpretação dos Sonhos” (1900/1999), Freud apresenta um dos trabalhos do sonho, o da representabilidade em imagens visuais. “Entre os vários pensamentos acessórios ligados aos pensamentos oníricos essenciais, dá-se preferência àqueles que admitem representação visual.” Os pensamentos oníricos, que têm uma organização lógica e que representam a realização dos desejos inconscientes do sonhador, transformam-se em imagens aparentemente desconexas, com a utilização de condensação e deslocamentos, para escaparem da censura exercida pela consciência.

Na condensação um elemento único passa pela construção de figuras compostas, como, por exemplo, uma pessoa que tem o nome de outra e as características de uma terceira pessoa. Nas palavras, a condensação pode criar neologismos; Freud apresenta vários exemplos a este respeito em “A Interpretação dos Sonhos”, no capítulo 7. Já o deslocamento é a transferência de um elemento de alto valor psíquico para outro que parece não ter importância. Nesse caso, observam-se os restos diurnos que aparecem nos sonhos. Uma situação que o sonhador vivenciou durante o dia pode aparecer no sonho, não necessariamente pelo seu valor, mas pelo deslocamento que será feito de uma ideia inconsciente que será descolada para a representação diurna que não tem importância.

Sigmund Freud, o médico austríaco que criou a psicanálise | Foto: Reprodução

Para Freud (1999) os restos diurnos têm uma importância secundária na formação dos sonhos e divide-os da seguinte forma: (1) o que não foi levado a uma conclusão durante o dia, devido a algum obstáculo fortuito; (2) o que não foi tratado devido à insuficiência de nossa capacidade intelectual, o não resolvido; (3) o que foi rejeitado ou suprimido durante o dia; (…) (4) naquilo que foi ativado em nosso inconsciente pela atividade do pré-consciente no decorrer do dia; (…) (5) o grupo das impressões diurnas que foram indiferentes e que, por essa razão, não foram tratadas.

Nesse sentido, pode-se compreender que a importância secundária a que Freud se refere sobre os restos diurnos é que em si não são realizações de desejos, mas servem como ligação para trazer pensamentos recalcados no inconsciente e que precisam passar pela censura.

Mas, afinal, qual seria a origem dos sonhos? Como esclarece Freud (1999), podem ser desejos que foram despertados durante o dia, mas não foram satisfeitos; ou desejos que surgiram durante o dia e foram repudiados; ou desejos que estão no inconsciente e que emergem durante o sono. De qualquer forma, assinala o pai da psicanálise, “o desejo representado num sonho tem de ser um desejo infantil”. O motivo desta assertiva seria a progressão do controle exercido sobre a vida psíquica do adulto, que acaba por renunciar aos desejos, não tão intensos como os das crianças, por estas não estarem ainda sob forte repressão da consciência. O desejo do adulto, nesse sentido, apenas instiga outros desejos mais arcaicos, vivenciados na infância, já que o desejo tem a característica da indestrutibilidade.

“Os sonhos aparentemente inocentes revelam ser justamente o inverso quando nos damos ao trabalho de analisá-los. São, se é que posso dizê-lo, lobos na pele de cordeiro”, anotou Freud.

Os atores Nicole Kidman, Alice, e Tom Cruise, Bill Harford: prazeres nos sonhos e insatisfações na vida real | Foto: Divulgação

Cinema e posição onírica

A partir desta breve exposição a respeito da teoria freudiana dos sonhos, voltemos à articulação entre cinema e psicanálise. Os filmes, especialmente os assistidos no cinema, remetem-nos a uma posição onírica, já que a experiência cinematográfica acontece num local escuro, na qual o espectador-sonhador está em posição de repouso físico. As imagens projetadas na tela podem levar o “sonhador” a transferir por meio dos processos de projeção e identificação suas vivências e o desejo destas na elaboração narrativa do filme. O cinema é a experiência da subjetividade do espectador atravessada pelos aspectos sociais e coletivos, como nos sonhos.

A esse respeito Freud (1999) esclarece que os sonhos possuem um simbolismo que não pertence apenas ao sonhador, mas que é compartilhado pela espécie humana nas representações culturais. Embora seja somente o sonhador quem pode produzir sentido e significado sobre seus sonhos.

Cena do filme “De Olhos Bem Fechados” que pode ser iluminado pela psicanálise | Foto: Divulgação

Um filme que pode auxiliar na discussão aqui proposta sobre cinema, sonhos e psicanálise é “De Olhos Bem Fechados”. Baseado no romance do escritor e médico austríaco Arthur Schnitzler (1863-1931), contemporâneo de Freud, o último filme de Stanley Kubrick (1928-1999), projetado nos cinemas após sua morte, aos 70 anos. conta uma história que fica no limiar entre o sonho e a realidade.

A fotografia do filme é belíssima, o enquadramento das personagens mostra-as bem próximos de nós e a nudez da atriz Nicole Kidman é explorada em duas cenas. A personagem de Nicole Kidman, Alice Harford, lembra as louras do diretor de cinema Alfred Hitchcock — belas e distantes.

“De Olhos Bem Fechados” conta a história de um casal jovem, de classe alta, morador do Central Park West, em Nova York. Bill Harford (estrelado por Tom Cruise, num papel tão anódino quanto o próprio ator) é um médico bem-sucedido. Bill Harford é casado há nove anos com Alice Harford, dona de casa, que passa o dia a cuidar da filha, Helena, de 7 anos, e está sempre bocejando. Este bocejo sugere tédio e também indica que o espectador fique atento às situações oníricas do filme.

Tom Cruise com duas belas mulheres: desejo e realidade se mesclam no filme de Stanley  Kubrick | Foto: Divulgação

A história se passa na época do Natal e em todos os ambientes apresentados no filme há a presença de uma árvore de Natal, lembrando, possivelmente, o espírito religioso-cristão em contraste com os desejos “pagãos” de seus personagens. O casal tem uma vida social aparentemente feliz, os dois são jovens, belos e bem-sucedidos, e em sua vida privada aparecem o uso de drogas e seus conflitos amorosos e sexuais. A maioria das cenas é apresentada à noite, o que sugere sua relação com os sonhos.

Nesta vida aparentemente feliz de Bill e Alice Harford, os conflitos vêm à tona quando numa noite, após fumarem maconha, a mulher irrita-se com o marido quando ele lhe diz que não sente ciúmes dela. Alice confessa a Bill Harford que desejou um oficial da Marinha durante as últimas férias de verão em Cape Cod, e que pensou que poderia ir embora com o oficial e largar o marido e a filha Helena.

Tom Cruise, o diretor de cinema Stanley Kubrick e Nicole Kidman no set do filme “De Olhos Bem Fechados” | Foto: Divulgação

A partir disso Bill Harford passa a imaginar cenas de sua mulher transando com o oficial e começa a vagar pela noite em busca de aventuras, que articulam amor-sexo e morte. O desejo de Alice parece possibilitar a Bill Harford que alguns de seus conteúdos recalcados tornem-se conscientes e o médico passa por situações nas quais o espectador pode questionar-se se são reais ou oníricas.

Após a discussão entre o casal, Bill recebe um chamado de um paciente e acaba encontrando-se casualmente com um antigo amigo de faculdade, que deixou o curso de medicina e tornou-se pianista, Nick Nightingale. Este conta-lhe que irá tocar em uma festa, com uma venda nos olhos. Bill Harford exige que o amigo passe-lhe a senha para entrar na festa. O nome da senha é “Fidelio” (referência explícita a Beethoven)… e a exigência é que vá fantasiado e mascarado.

No salão principal de uma bela mansão onde ocorre a “festa” encontram-se várias pessoas também fantasiadas e mascaradas observando um círculo de belas mulheres seminuas serem “abençoadas” por um homem com capa vermelha e máscara, que segura incenso em uma mão e um cajado na outra. Este homem diz palavras incompreensíveis que parecem uma oração e no fundo há música tocada em um órgão pelo pianista vendado. Após a “bênção”, as moças saem, uma delas aproxima-se de Bill Harford e diz-lhe para ir embora, pois corre perigo. O médico não se importa e começa a andar pelas salas e ver cenas de orgias sexuais entre várias indivíduos mascarados, com outras pessoas a observá-las. Surge um homem que pede ao médico para acompanhá-lo e o jovem volta para a sala principal, na qual o “sacerdote” pergunta-lhe a senha de entrada. Ele responde “Fidelio”, e a senha de saída, que não sabe responder. Então o “sacerdote” pede que Bill tire a máscara e depois a roupa. Neste momento, a mulher que o havia alertado surge e diz que se sacrifica por ele. O médico é então liberado e vai embora para casa.

Tom Cruise, Nikole Kidman e Stanley Kubrick, que sabia extrair performances de qualidade de atores medianos | Foto: Divulgação

Amor, sexo e morte

Ao chegar em casa ao amanhecer, Bill Harford encontra Alice sonhando e rindo alto. Ele a acorda e diz ter pensado que estivesse tendo um pesadelo. Alice, chorosa, abraça o marido e conta que sonhou que os dois estavam nus em uma cidade deserta. Ela estava aterrorizada, envergonhada e com raiva, pois achava que a culpa era do marido. Enquanto Bill, no sonho de Alice, sai para procurar suas roupas, tudo fica diferente, Alice sente-se ótima, está num lindo jardim, nua sob o sol e um homem sai da floresta; é o oficial da Marinha. Primeiro o oficial ri dela e depois a beija e os dois transam e várias pessoas estão ao redor também transando e então ela começa a transar com vários homens, mesmo sabendo que o marido a via e que queria rir dele o mais alto possível.

As duas cenas seguidas sugerem que marido e mulher sonhavam, ele querendo ver, como uma criança que olha os pais pelo buraco da fechadura, e ela que quer ser vista e desejada, já que o marido parece não conseguir corresponder a esses desejos.

Durante o dia Bill percorre o caminho onírico da noite anterior. Vai devolver a fantasia e percebe que perdeu a máscara; segue em busca do amigo pianista, que desapareceu do hotel, levado por dois homens; procura a mulher mascarada que se sacrifica por ele e encontra uma mulher morta por overdose no necrotério, que Bill imagina ser ela; procura a prostitua com quem teve um quase encontro e descobre que esta tem HIV; vai à mansão e recebe uma carta que o alerta para não continuar as investigações. Toda essa odisseia diurna parece mostrar como amor, morte e sexo estão intimamente entrelaçados.

Quando Bill chega em casa, Alice dorme ao lado da máscara que ele havia “perdido”. O marido então conta seu “sonho” e chora arrependido. O final do filme sugere um felizes – talvez – para sempre…

Impactante e belo, o filme possibilita que o sonhador-espectador se projete nas experiências de Bill e saia do cinema aliviado por ser apenas um sonho, quer dizer, um filme.

Referências

BARTUCCI, G (org.). Psicanálise, cinema e estéticas de subjetivação. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

BAXTER, J. Stanley Kubrick: Biografía. Madri: T&B Editores, 2005.

FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Edição Comemorativa, 100 anos. Rio de Janeiro: Imago, 1999.

GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. 24. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

RIVERA, T. Cinema, imagem e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

SAMPAIO, C. P. Sonhos e cinema. Psychê, Revista de Psicanálise. Ano 3, n. 4, p. 85-102. Revista anual do Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise da Universidade São Marcos. 1999.

Candice Marques de Lima, psicanalista e professora da Universidade Federal de Goiás, é doutoranda pela Unifesp.

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