Ricardo Silva
Ricardo Silva

As projeções da inadequação em “Beleza Americana”

Na sua época de lançamento, 19 anos atrás, o filme pegou todos de surpresa

Personagem Angela Hayes (Mena Suvari) é a encarnação do desejo. Jovem, linda, sexy, e ingênua | Imagem: Reprodução

Na sua época de lançamento, 19 anos atrás, “Beleza Americana” pegou todos de surpresa. A crítica ficou atordoada com aquela trama de aparência simples preenchida de camadas variadas, aberta para leituras diversas e que provoca o desconforto que evitamos ao confrontar certos aspectos da realidade.

O filme de estreia de Sam Mendes com roteiro de Alan Ball — que ganhou cinco estatuetas do Oscar no ano que concorreu — começa com uma imagem aérea da rua de um típico bairro suburbano norte-americano e com o seu narrador dizendo que está morto ainda nos primeiros minutos do longa. Essa informação inicial já posiciona o espectador.

Sabendo que o protagonista Lester Burnham (Kevin Spacey) está morto, a ressonância das suas atitudes no decorrer do filme tomam outra dimensão para quem está acompanhando sua história. Suas ações adotam um significado elevado de libertação.

A história do filme, que hoje ocupa espaço privilegiado entre os recentes clássicos cultuados pelos cinéfilos, é bastante conhecida: é a história de Lester, um homem de meia idade que está em crise existencial, e a sua paixão pela amiga da filha adolescente. Lester é casado com Carolyn (Anette Bening), uma corretora de imóveis apegada ao extremo à imagem de bem-sucedida e reprodutora de todos os mantras de autoajuda possíveis, que também está em crise nos seus negócios e se vê rebaixada pelo seu concorrente Buddy Kane (Peter Gallagher), que é a referência de boas vendas na sua região.

O casal tem como filha Jane (Thora Birch), uma adolescente desajustada e fechada, insatisfeita com o próprio corpo. Jane é observada  – e gravada – pelo filho do novo vizinho, o jovem Rick Fitts (Wes Bentley), que não esconde suas excentricidades e o jeito esquisitão. Rick é filho do coronel Frank (Chris Cooper), um militar conservador e homofóbico. Num plano geral, esses são os principais personagens do filme.

Girando em torno do drama de Lester, o longa de Mendes é lido de diversas formas: uma que o interpreta como sendo uma crítica ao estilo de vida americano, revelando o lado hipócrita e irreal desse modelo que se baseia numa família nuclear refém das aparências; outra leitura defende a concepção de que o filme escancara o colapso da sociedade norte-americana e dos seus valores capitalista-materialistas, que prendem os indivíduos — extremamente focados em si mesmos — em vidas esvaziadas de significados relevantes, que transcendam os aspectos mais superficiais da existência.

No original, o título é “American Beauty”, também nome de um famosa espécie de rosa, das consideradas mais belas, mas que tem um detalhe: ela não possui cheiro, o que pode também ser um indicativo da representação da beleza oca que o filme enfoca no decorrer da sua narrativa. Há ainda a chance de enxergar no longa um despertar para uma nova vida que nunca é alcançado, nunca é completamente dado ao cabo porque no momento que se percebem as potencialidades da vida, ela termina.

Há ainda muitas chaves de leitura que “Beleza Americana” propicia. Lendo os pequenos elementos distribuídos ao longo da película se pode chegar a outras diversas conclusões e perceber o quanto o trabalho regido por Sam Mendes é magistral.

Como toda boa obra, são os detalhes que conseguem arquitetar uma estrutura sólida num trabalho de ficção. A fotografia, sob a batuta de Conrad Hall, é um espetáculo por si só — fora que a composição dos cenários, na direção de arte primorosíssima de Naomi Shohan, faz valer cada pause para reparar minudência dos cenários que ela compõe e de como elas ecoam na narrativa. A trilha sonora com a marcante música de Thomas Newman é dos elementos que se entranham no imaginário do espectador. Tudo no filme se engendra de forma a elaborar uma obra coesa, na qual os seus componentes dialogam harmoniosamente com o enredo.

Contudo, suplantando os detalhes técnicos do filme, a obra de Mendes é um trabalho com o foco fundamental centrado nos personagens. É um filme de personagem. A psicologia deles é a linha que costura a impressão que temos do cenário geral do longa e deles como representação de uma projeção da inadequação — consigo mesmo e com o mundo.

Lester está numa jornada de autoconhecimento, de busca da sua verdadeira identidade, aquela distante de se adequar a uma expectativa social do que se espera de um adulto por volta dos quarenta anos. O que lhe provoca essa súbita ascensão? Conhecer a explosão sexual que lhe estava dormente ao encontrar Angela Hayes (Mena Suvari), a amiga de sua filha.

O tema do roteiro de Alan Ball é a autodescoberta e a sensação de inadequação surge como um catalisador desse processo. Observando com mais calma os diálogos, o que se percebe é que eles são os pontos de revelação da personalidade de cada personagem e de como eles todos compartilham, nos seus devidos contextos, a mesma jornada de Lester Burnham. E de como todos esses contextos são convergentes na costura do drama do filme.

Personagens

Comecemos por Lester, que é o núcleo ao redor do qual orbitam os outros personagens. A figura de Lester é bastante límpida — e a atuação de Spacey ressalta ainda mais essa transparência. Está frustrado, trabalha num lugar que odeia e se sente explorado, e sua relação com a filha e a mulher está cada vez mais difusa, superficial e distante. Porém, numa perspectiva externa, o homem adulto que Lester incorpora é a imagem de um cidadão razoavelmente bem sucedido: tem uma casa confortável, trabalho estável, mulher elegante, e uma filha comum. Essa é a imagem adequada que está atrelada a Lester.

Ao conhecer Angela, Lester se percebe uma pessoa distante da que ele sente que pode ser, e afastado das suas ambições dos tempos de juventude. Ele está deslocado de si. O impulso sexual que ele sente pela adolescente amiga de sua filha é somente um gatilho que desemboca todo o seu processo de libertação das amarras sociais e que o faz explorar novas possibilidades dentro da sua realidade — fumar maconha, malhar, ser franco com sua esposa e perceber que os seus sonhos da juventude foram por água abaixo, mas que ainda há potência a ser explorada na sua vida. A esposa, inclusive, é esse pólo aparentemente oposto de Lester que se choca contra ele, mas não está tão distante das mesmas necessidades.

Carolyn é a síntese da pessoa que busca ser aceita a qualquer preço. Ela precisa da aparência de sucesso para se manter coesa com as próprias aspirações, o que não a sustenta existencialmente porque não é nas fórmulas baratas de autoajuda que ela consegue encontrar os pilares que a mantém mentalmente saudável. Por isso, diante de um problema ou uma zona conflitiva, ela procura fuga em soluções rápidas — a traição do marido é esse escape que não soluciona nada, por exemplo, mas que dá um respiro para sua vida sufocante. Carolyn é desajustada, não se compreende plenamente e está presa às próprias expectativas de sucesso. É na aparência de sucesso que ela estipula o próprio valor e isso é um sintoma da própria percepção de inadequação. Que, aliás, se manifesta muito na forma como ela se relaciona e o que ela cobra da filha, Jane.

A filha do casal Burnham é o personagem mais atarantado do filme. Uma adolescente com sérios problemas de auto-aceitação — o que é um momento “natural” na vida de quem está saindo da infância e passando por uma miríade de mudanças psicológicas e físicas. Para agravar isso, ela está cercada de pessoas que definem o valor de uma pessoa com base na sua aparência física. Sua mãe está constantemente reforçando o desconforto que sente ao ver a maneira como ela se veste, e sublinhando sempre o seu jeito desajeitado. Há também sua amiga Angela, que reforça a estranheza que Jane sente por si, ao destacar o quanto sua vida sexual é ativa, como sempre há diversos homens adultos — incluindo aí o Lester — interessados por ela. Elementos esses que agravam o sentimento de estar inadequada ao ambiente que habita. Ela não consegue ver beleza em si, se sente insegura. Essa percepção só muda quando ela conhece Rick Fitts, o filho do vizinho.

Antes de Rick, vamos dar atenção ao seu pai, o coronel Fitts. Esse talvez seja o personagem mais atormentado por sua própria inadequação e a sua busca agressiva em reprimir sua real identidade. Não à toa, sempre que se apresenta, ressalta o fato de ser um militar, imagem que aparentemente lhe protege de qualquer suspeita de uma prática que os outros considerem imoral. O caso do coronel é mais profundo porque ele sabe quem é, o que sente, mas ele está enclausurado na própria repressão e projeta tudo isso no seu comportamento belicoso e na estrita disciplina — que se mostra inócua, já que pode ser facilmente burlada — que relega sobre seu filho. Na hora que ele, munido de informações dúbias sobre a também possível homossexualidade do seu vizinho, resolve dar vazão a esse desejo e é dispensado, o seu auto-repúdio se intensifica. Neste momento, Lester estava malhando na garagem de casa tentando estar em dia com os desejos da voluptuosa (e perdida) amiga da sua filha, o gatilho que explode e implode tudo na trama do senhor Burnham, Angela Hayes.

Angela é a encarnação do desejo. Jovem, linda, sexy, e ingênua. A última característica é a que Angela mais se esforça em esconder. Numa máscara de segurança, a amiga de Jane se apresenta como uma moça já transformada em mulher dona de si e plenamente consciente do desejo que desperta nos amigos da escola e em homens mais velhos. Por isso se diverte ao ver o interesse de Lester, o pai desengonçado da sua amiga, por ela. É nesse campo que a personagem tem domínio para jogar — assim como todos os outros personagens que vimos aqui —, o da aparência. Angela tem pavor da normalidade. “Não há nada pior na vida do que ser comum”, ela diz a certa altura do longa. A virgindade é um sintoma dessa normalidade, talvez por essa razão ela frise tanto as suas pretensas e inexistentes aventuras sexuais. O que Angela esconde é a insegurança, o medo de ser revelada como uma menina frágil que só entende da vida as figuras superficiais, e não as vivências reais. E ela usa isso para camuflar a própria inadequação, o que para ela equivale a se sentir menor.

Nessa jornada de definir suas próprias identidades e aceitá-las, o único personagem que está fora da curva é o filho do coronel Fitts. Rick já sabe quem é, como se enxerga e o que vê de belo no mundo. O estranho adolescente aficionado em coletar imagens de tudo e de todos é o contraponto poético da trama pensada por Mendes e Ball. Ele usa sua câmera para ver além das aparências, para superar o aprisionamento da superficialidade. É dessa forma que ele atrai Jane e a faz perceber beleza onde ela não conseguia identificá-la. É o único personagem que consegue quebrar com a lógica dos demais. Ao mesmo tempo que também é o único consciente das cobranças de imagem do meio que vive e se adequa a elas sem prescindir de si. Compreende que o jogo das aparências, naquele contexto, é incontornável mas não absoluto.

Inadequação

A inadequação que os personagens sentem convergem, nos seus próprios contextos, para a sensação de ridículo na imagem que projetam de si ou do que pensam sobre si, o que nos faz pensar no conceito de “ridículo” estabelecido no decorrer do longa.

A ideia do “ridículo” é uma impressão muito cruel na sua base. Porque ela não nos pertence, não nos compõe. É uma projeção externa que absorvemos e permitimos — voluntariamente ou não — que nos domine e tome conta da nossa autoimagem. Nos vemos como ridículos, como se essa percepção fosse autenticamente nossa e ela nunca foi. Sempre foi alheia, uma espécie de invasão. É como se nos regulássemos com base numa colonização da nossa autoestima.

É cruel se enxergar como alguém ridículo na sua essência como ser humano. Ninguém é ridículo. Você não é ridículo. Alguém pode até mesmo te considerar assim, mas saiba: esse problema não é seu.

“Beleza Americana” demonstra ser o tipo de filme que qualquer crítico — e muitos afirmaram isso categoricamente — sabe ser um grande filme. Ele cresce cada vez que é visto, amplia suas alternativas em interpretações e se constrói como toda grande obra, a partir do momento que ela resiste ao tempo e só matura no decorrer dos anos. Uma obra fundamental.

 

Ricardo Silva, graduado em filosofia, escreve sobre literatura e cinema

 

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