Contos da pandemia (35): Empatia em tempos de pandemia, de Wellington Dias

Tampou a boca e o nariz com a máscara, encheu os ouvidos com os fones e os olhos com lágrimas e seguiu para o escritório

(Com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, o Jornal Opção organizou uma seleção de contos escritos por autores goianos explorando o tema da pandemia da Covid-19 — que já vitimou mais de 570 mil brasileiros. A prosa curta mostrou-se não apenas possível, mas necessária, durante a pandemia. O jornal vai publicar um conto por dia e espera que, em seguida, alguma editora publique um livro.)                               

Empatia em tempos de pandemia

Wellington Dias

Sete e quarenta e cinco! Celina estava atrasada. Costumava pegar seu ônibus para o trabalho às sete e meia. Ele descia a Avenida 85, em Goiânia. Corredor exclusivo para ônibus e, em 15 minutos, já estava na Praça Cívica, onde trabalhava como assistente de escritório. Mas já eram sete e quarenta e cinco e ela só estava saindo agora de casa. Seu gatinho, Narth, tinha vomitado toda a ração. “Ele tem vomitado muito. Será que gato tem refluxo? Veterinário pra tratar disso deve ser muito caro”, Celina ia pensando, a passos apressados, em direção ao ponto de ônibus, enquanto tirava o fone de ouvidos da mochila que lhe servia de bolsa. Queria ir de Uber. Mas o preço havia subido muito. Dinâmica, diziam. Tinha ouvido que mais de cinco mil ubers tinham deixado de trabalhar por conta da alta da gasolina. Mas estava tudo caro mesmo. Pegou os fones, não gostava do som sertanejo que tocava no ônibus, então aproveitava para ouvir suas músicas preferidas no caminho.

Arte de Banksy

Já no ponto, ouvira sete músicas de sua playlist e nada do 08-Veiga Jardim-Centro passar. As pessoas estavam inquietas como ela. “Já são oito e três. Nem sei como vou explicar esse atraso. O Narth não podia ter deixado pra vomitar numa hora mais adequada? Mas eu tinha que limpar. Se deixasse minha mãe acordar e ver aquela bagunça, ia falar em devolver ele pra rua, de novo. Já basta o tanto que ela é supersticiosa e não gosta de gato preto dentro de casa. Nossa, finalmente!”

Para não variar, o ônibus estava lotado. Mas ela não gostava de ficar antes da catraca. Sempre tinha gente querendo passar e incomodava ficar se contorcendo para dar lugar. Melhor ir para o fundo do ônibus. Ali, achava um canto e não tinha que ficar dando lugar para as pessoas passarem. Foi se esgueirando, até chegar ao fundo. Estava atenta à nova música da Billie Eilish, quando seus olhos pararam no colo de um garoto: “Mãos de Cavalo”. Tinham pedido esse livro no vestibular que ela havia prestado, anos atrás. Era de um autor brasileiro. Do Sul, se lembrava. Bom livro. Levantou os olhos e reparou no rapaz que estava com o livro no colo: uniforme de uma dessas empresas de teleatendimento que ligam oferecendo planos. Parecia ser pouco mais novo que ela. Achou engraçado o cabelo. Encaracolado. Caracóis grandes. A raiz era preta, mas as pontas eram coloridas. O cabelo deve ter sido pintado de verde. Estava bem desbotado. Viu que tinha mais de dois anéis nos dedos e uma pulseira de couro no pulso. Afeminado, não conseguiu deixar de pensar. Mas parecia ser bonito. Desde a Pandemia, não dava para saber muito bem… só se via da metade do nariz para cima. Seus olhos se cruzaram. Ele a encarava. Não como os rapazes costumavam encarar. Diferente… Como se ele fosse chorar? Parecia querer dizer alguma coisa, mas ela não entendia. Apertou os olhos, como se perguntasse o quê. Ele baixou a cabeça e, só então, ela reparou em três rapazes perto dele. Falavam alto. Por que não tinha percebido antes? Por curiosidade, tirou os fones. Eles eram barulhentos. Grosseiros…

— … aí chegou o viadinho e meu irmão botou pra correr. (risos altos dos outros dois)

— Cara, eu piro pra esses caras. É muita falta de vergonha na cara, mesmo! E andam no meio de gente normal como se isso fosse de boa. Mas com a televisão fazendo propagando disso, também…

Foi, abruptamente, interrompido pelo outro:

— Não, você viu o tanto de propaganda que agora coloca esses esquisitos? Eu fui assistir à televisão, no sábado, na casa da Marina, e só passava propaganda com viado, sapatão, traveco…

— Daqui a pouco vão querer prender quem é normal, só pode.

Arte de Kathe Kollwitz

Enquanto falavam, eles olhavam para o rapaz do cabelo ex-verde. Ficou evidente que o estavam provocando. Ela não pensava muito sobre isso. Na igreja, muitas vezes, ouvia o pastor falar alguma coisa sobre pecado, citar uns versículos da Bíblia, mas, sinceramente, era um assunto que não a incomodava muito. Não tinha amigos gays. Era a palavra certa? Será que podia chamar de gay? Mas ela não tinha. Pelo menos, não que soubesse. Então, não pensava muito nisso. Mas, vendo os olhos daquele rapaz, não dava para não pensar nisso. Por que aqueles três idiotas estavam fazendo aquilo? O cabelo ex-verde levantou a cabeça e olhou diretamente para ela. Celina revirou os olhos e balançou a cabeça para os lados, enquanto eles continuavam com suas “pérolas” de histórias. O rapaz deu um leve sorriso com os olhos. Ouviu um dos três falar algo como “falta de uma surra bem dada”, revirou os olhos com mais vigor e caprichou na cara de deboche. Esperava animar o rapaz com suas caretas, mas não deu certo dessa vez. Viu que seus olhos estavam brilhando. Lágrimas. Ele estava com medo. Seu ponto era o próximo. Ela queria que ele descesse com ela. Ela queria ficar. Ela apertou a botoeira de descer. Viu que os olhos dele se arregalaram. Era um pedido para ela não ir. Mas ela não podia ficar, não com o chefe que tinha. Tinha que descer. Mas queria ficar. Ele parecia desesperado. Ela fez um sinal com a cabeça, para ele descer com ela. Nem sabia o que diria se ele descesse, mas não pensou em outra coisa para fazer. Ele continuou sentado. Os três valentões, aumentando a voz. O ônibus parou e ela pensou por dois segundos. Desceu. Ficou olhando para dentro do ônibus e o cabelo ex-verde olhando direto para ela. Notou que um dos rapazes também a encarava. Baixou a máscara, antes que a porta fechasse, olhou para o valentão e balbuciou, para ele ler seus lábios: B A B A C A!

O ônibus saiu e ela ficou ali, por uns dez segundos. Sabia que estava atrasada, sabia que tinha que ir logo. Eram três quadras até o prédio em que trabalhava e a Praça Cívica estava interditada para obras. Demoraria mais para chegar. Mas ficou pensando um monte de coisas que nunca tinha pensado, antes. Por qual motivo nunca tinha pensado nelas, antes?

Não tinha como ficar ali. Tampou a boca e o nariz com a máscara, encheu os ouvidos com os fones e os olhos com lágrimas e seguiu para o escritório.

Wellington Dias é ator, diretor de teatro, licenciado em História e pós-graduado em Docência do Ensino Superior, integrante do Conselho Estadual de Cultura, gerente de Fomento ao Audiovisual e Criatividade da Secult Goiás. Este é seu primeiro texto publicado.

10 respostas para “Contos da pandemia (35): Empatia em tempos de pandemia, de Wellington Dias”

  1. Avatar Marcela Alves disse:

    Quanta riqueza de detalhes. Seu conto me fez pensar o quanto a rotina nos engole e de repente nos vemos à deriva, onde até nossa empatia é engolida e cada vez mais nos fechamos em nosso mundo. Seja pela tela do celular ou pelos fones de ouvido, e mais interessante é que nos fechamos para o mundo mas não olhamos para “dentro”. Olhamos para o nada… para o vazio e, vida que segue.

  2. Avatar Polyana Finotti disse:

    Muito bom! Linda reflexão!

  3. Avatar Leila Ramos de Oliveira Finotti disse:

    Amei, seu texto e nítido, real, consegui visualizar como um filme e o enredo e bem pertinente, afinal já estamos em 2021 chega de homofobia.
    Parabéns Welington, quero mais contos.

  4. Avatar Edilson Sant Anna Meira disse:

    É realmente o que acontece, enchergamos, ouvimos mais nao tomamos atitudes. Nos faz refletir sobre nossa sociedade e nossos deveres para com o proximo,
    Quantas pessoas sofrem por preconceitos e nos ficamos calados.

  5. Avatar Conceição disse:

    Queria mais!!! Gostei muito!!

  6. Avatar Raphael disse:

    Excelente texto do nosso cotidiano onde o respeito é uma palavra presente apenas no dicionário.

  7. Avatar Maria das Dores de Oliveira Fully disse:

    Muito envolvente, prende atenção e a vontade é de que a história continuasse. Tema atual, chama a reflexão e mostra a necessidade de nos posicionar a respeito. Principalmente nesse momento tenebroso que estamos vivendo no nosso país. Parabéns e continue, já aguardando o próximo ansiosamente.

  8. Avatar Marcelo Di Castro disse:

    A arte de nos fazer viajar pela leituta! Parabéns Wellington, pelo primeiro! Que venham mais… Celina conseguiu explicar o atraso? Narth continuou fazendo sujeira? O ex verde conseguiu se livrar dos babacas? A viagem continua na imaginação…

  9. Avatar José de Maria Nery Filho disse:

    Um conto, bem contado nos eleva e nos faz pensar em toda a dinâmica da vida.
    Os fatos reais dão um tom de veracidade por saber que em todo o canto existem meninas com seus gatos abandonados, existem meninos com cabelos ex-verdes e valentões que se escondem atrás de sua própria insegurança porque de alguma forma reconhecem a si mesmos nessas pessoas que os incomodam.
    Os destinos se cruzam e a vida toma seu rumo com a espera de dias melhores.

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