Luciano Perilo e Marcelo Gomes
Luciano Perilo e Marcelo Gomes

A diplomacia nada convencional de Donald Trump

Desde que assumiu o poder, o chefe da nação mais poderosa do mundo vem apresentando um comportamento que foge, e muito, do que se espera de um líder global

Donald J. Trump e seu jeito peculiar | Foto: Boris Baldinger/Fórum Econômico Mundial

Os discursos de Donald J. Trump à época de sua campanha eram inflamados. O magnata se considerava um “outsider”, ou seja, alguém de fora da caixinha dos políticos convencionais, o que gerou em parte da população americana, em especial nos trabalhadores brancos de classe baixa e média, uma perspectiva de mudança. Disputando a cadeira presidencial contra Hillary Clinton em 2016, ganhou por pouca diferença, mas já causou mudanças significativas na forma de conduzir a política externa dos Estados Unidos.

América grande novamente?

O tom ácido e desafiador com que Trump encara temas sensíveis da diplomacia internacional parecia coisa de campanha. Joseph Nye Jr., professor da Universidade de Harvard, entrevistado por nós em Boston, nos EUA, logo após a posse de Trump, dizia acreditar que haveria uma mudança de postura do até então candidato. Nye citou exemplos de outros presidentes estadunidenses que adotavam tons atrevidos durante a campanha que, ao assumirem o controle do Salão Oval, amenizaram as críticas e adotaram uma postura mais institucional, cautelosa e diplomática. Ao que tudo indica, este não é o caso do atual presidente.

Trump faz declarações por meio de redes sociais na internet e trata sobre assuntos sérios sem meias palavras, o que parece perigoso, principalmente quando aborda problemas envolvendo outras nações. Entre um pronunciamento e outro, acaba cometendo diversas gafes que podem prejudicar a relação dos Estados Unidos no mundo. Para tanto, Donald Trump foge à regra ao fazer declarações que tocam grosseiramente nos assuntos de outros países.

Suas críticas à regulação de armas no Reino Unido e na França, sugerindo que se os cidadãos estivessem armados teriam evitado mortes em virtude de atentados terroristas é, no mínimo, indelicada e fora de tempo, visto que causou a indignação e repulsa dos governantes e da população das duas nações, que ainda lamentam as feridas causadas por estes eventos.

Exemplos não faltam para ilustrar os discursos pouco diplomáticos do presidente. Sob o pretexto de proteger um setor da economia, indústria do aço e do alumínio, eleva as taxas de importação e acaba gerando enormes problemas para outros setores, como acontece com as indústrias aeroespacial e automobilística, profundamente afetadas pelas novas medidas, o que  desencadeia um efeito cascata na economia.

Além disso, a saída dos Estados Unidos do Acordo Climático de Paris e do TPP (Parceria Transpacífico) revelam um tom populista em seu discurso, formulando importantes políticas públicas e moldando a diplomacia norte-americana ao senso comum, por vezes ignorando os conselhos e as informações oferecidas pelos especialistas que o assessoram. Nesta ótica, Trump já não governa pelos fatos, mas pelas aparências.

Ao dizer que o afrouxamento das tensões entre as Coreias e o anunciado fim do programa nuclear norte-coreano são resultado das pressões internacionais, sobretudo da ação dos EUA, Trump busca ganhar o reconhecimento da população norte-americana como quem foi o responsável por solucionar o histórico conflito, mesmo colocando em risco os avanços alcançados. A Coreia do Norte, após o comentário, rebateu o discurso dizendo que não era esse o motivo do recente acordo.

A ideia de construir um muro por toda a fronteira com o México, um importante parceiro comercial, é outro exemplo de que talvez Trump esteja mais interessado em executar o que pensa o norte-americano mediano, seu eleitor. Essa parcela da população, sem conhecimentos aprofundados sobre os temas complexos da política interna e externa, com visões distorcidas por estereótipos e que nunca se sentiu compreendida pelos políticos, pode ser a chave para uma reeleição de Trump.

Desta forma, as evidências apontam para o fato de que, talvez, o empresário esteja mais preocupado em agradar seu eleitorado do que ser presidente, assumir a imagem institucional que carrega o cargo e resolver os problemas inerentes à função. Portanto, o questionamento que se põe é: a postura de Trump privilegia, de fato, a América em primeiro lugar?

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Thyago Tonetto Pfeifer

Parabens pelo texto, sempre trazem informações relevantes e com uma análise muito coerente. Trump é um ator uma figura caricata e carrega essa postura para promover seus próprios interesses e negócios. Soube aproveitar muito bem esse momento de describilidade política para se eleger e se manter na midia, e no meu ponto de vista todas as atitudes dele tem o objetivo principal a sua auto promoção.

Edson Marques da Costa Filho

Só sei que o dólar não para de subir :/

Lara

Maravilhoso o texto! E, talvez respondendo à pergunta, alguns posicionamentos do rei da pós-verdade beneficiam, sim, a América. Contudo, de forma alguma compensam os demais desrespeitos aos Direitos Humanos vindos de Trump.

Marlus Linecio

muito bom!!