Mino Carta reclama que o governo e o mercado não estão anunciando na “CartaCapital” e diz que só voltará a escrever artigos se a eleição direta para presidente for aprovada

Mino Carta e Lula da Silva: o primeiro é um jornalista decente e um apaixonado defensor do ex-presidente da República, investigado pela Operação Lava Jato

O diretor de redação da “CartaCapital”, Mino Carta, de 83 anos, está se tornando o Jânio Quadros do jornalismo brasileiro. Por qualquer motivo, renuncia a alguma coisa; agora, a escrever editoriais — se a eleição direta para presidente da República não for convocada.

“Sinto muito comunicar aos nossos fieis leitores que este é o meu último editorial [“Sonho e realidade”], só voltaria a escrever se as diretas fossem convocadas sem maiores delongas e se, finalmente, a justiça fosse feita”, escreve Mino Carta. O jornalista adianta, porém, que não vai abandonar sua “pequena e valente equipe” e conta que a revista está sendo asfixiada “por um governo ilegítimo, sabidamente corrupto, e pelo abandono de setores do empresariado que outrora tinham maior compromisso com a diversidade e a pluralidade”.

Mino Carta deveria ter esclarecido o que significa “asfixiados financeiramente”. Fica implícito, dada a falta de explicação, que a revista depende do governo federal para sobreviver e que, nos governos dos petistas Lula da Silva e Dilma Rousseff, a vida era mais fácil, devido ao alinhamento ideológico da publicação dirigida pelo jornalista.

O realismo “manda” informar que, de fato, sem as verbas dos governos, federal ou estaduais, a imprensa brasileira, não apenas a “Carta­Capital”, tem dificuldade de sobreviver. Mas pode-se culpar um presidente, como faz Mino Carta, se o governo não está anunciando nas páginas de uma revista? Por que a iniciativa privada deixou de anunciar na revista? O governo de Michel Temer teria pedido para os empresários não colocarem publicidade em suas páginas? É provável que não. Mas é possível que alguns empresários, que não se preocupam com “diversidade e pluralidade” em termos de imprensa, tenham a percepção de que, no momento, para agradar o governo não precisa agradar Mino Carta e sua revista. Antes, agradar Mino Carta certamente era uma maneira de agradar os governos petistas.

Na relação de imprensa, governos e empresários não há santos e ingênuos. Só realistas absolutos, que, mesmo se não tiverem lido Maquiavel e Hobbes, sabem de suas ideias pela experiência. Há quem acredite que a “CartaCapital”, pela sua proximidade com a esquerda, é descartável. É um equívoco. Primeiro, e muito pelo empenho de Mino Carta, é uma revista bem feita, com reportagens de qualidade em várias áreas, não apenas na política. Segundo, apresenta uma opinião de esquerda, de uma esquerda moderada, que contribui para o debate democrático. É uma das poucas publicações (entre as mais importantes) não liberais do país. Aproxima-se da perspectiva nacionalista, até mais do que da socialista. Terceiro, apesar de seu engajamento pró-petista — e palavra “apesar” é mal empregada, porque não há problema algum neste engajamento, aliás, declarado até na capa, em períodos eleitorais —, Mino Carta é um jornalista e empresário decente. Na ditadura, com todos os instrumentos de investigação à disposição, como o Serviço Nacional de Informação (SNI), o presidente João Figueiredo disse que, mesmo sendo um “chato”, o profissional era decente. O fato de ter recebido dinheiro da Odebrecht denigre a sua conduta e a da revista? Na verdade, não. A maioria das grandes publicações do país já divulgou anúncios — ou, possivelmente, recebeu apoio para algumas de suas ações jornalísticas — das grandes empreiteiras.

Como (quase) todos os grandes jornalistas, Mino Carta tem suas idiossincrasias. Uma delas é o quixotismo das renúncias, como a de desistir de escrever editoriais — tão bons quanto os do “Estadão” (pode-se discordar de suas análises, mas raramente deixam de conter ideias precisas e instigantes) — se a eleição direta para presidente não for aprovada. Para cumprir a Constituição, que não pode ser jogada fora sem mais nem menos, o correto é, se Michel Temer renunciar ou for cassado, a convocação de eleições indiretas.