Jornalistas brasileiros, aderindo ao populismo da política, começam a exigir que as pessoas não tenham preconceitos (todos têm, sobretudo os que dizem não ter). O jornalismo está se tornando polícia. No programa jornalístico “Em Pauta” — no qual a notícia é tratada como entretenimento, com leveza, informalidade e inteligência —, da Globo News, na quinta-feira, 9, Elisabete Pacheco, Guga Chacra (o mais indignado), Sérgio Aguiar e Gerson Camarotti criticaram, de maneira ácida, Ed Motta (como Roberto Pontual faz falta). Na verdade, fizeram discursos contundentes. O curioso é que nunca se viu atacarem um corrupto com tanta virulência. O músico e cantor disse que brasileiros que vão aos seus shows no exterior são “simplórios”, nada sabem sobre sua carreira e preferem uma música mais popularesca. O que há de falso neste aparente gesto de desprezo? Nada. Parte, talvez a maior parte, dos brasileiros que mora no exterior é mesma simplória. Eles vão para o exterior “fazer” a vida, trabalhando em empregos pesados (faxinas, entregas de comida, construção civil). Não estão lá para “melhorar” o gosto. Nem tem tempo para isso. Nem dinheiro.

(Ed Motta fará shows, entre maio e junho, na França, Alemanha, Holanda, Irlanda, Inglaterra, Itália, Áustria e Finlândia. Ele vai divulgar o álbum “AOR”.)

É provável que a maioria dos brasileiros que moram no exterior, sobretudo nos Estados Unidos, não seja mesmo adepta de uma música mais sofisticada. Por isso prefere a música sertaneja de um Zezé Di Camargo ou o romantismo de um Roberto Carlos. Aquilo que é simplório não mais pode ser chamado assim? Dizer a verdade é ofensivo?

Observe que Ed Motta não criticou todos os brasileiros. “Verdade seja dita, que meu público brasileiro de verdade na Europa é um pessoal mais culto, informado, essas pessoas nunca gritaram nada. O negócio é que vai uma turma mais simplória que nunca me acompanhou no Brasil. Público de sertanejo, axé, pagode, que vem beber cerveja barata com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco, e começa a gritar nome de time”, lamentou Ed Motta. Suas palavras contêm alguma mentira? Nenhuma. É, mais do que uma crítica, uma constatação. Por que é vital discutir “gosto”? Com o único motivo de aperfeiçoá-lo, até mudá-lo. Mas fãs de Zezé Di Camargo e Luciano e de Leonardo dificilmente vão se tornar admiradores de Beethoven, Mozart, Chico Buarque, Billie Holiday e Elis Regina. Aquilo que é fácil de apreender — porque, no fundo, não precisa ser apreendido, e sim apenas ouvido, de maneira imediata e dispersiva — é mais prazeroso, para quem não tem paciência e o mínimo de cultura, do que uma arte que precisa ser ouvida, com atenção, e até estudada.

Pode até parecer arrogância, é provável que seja, o músico dizer que não vai cantar nem falar em português nos seus espetáculos. Ele sublinha que não vai cantar “Manuel”, seu primeiro sucesso. “O mundo inteiro fala inglês, não é possível que o imigrante brasileiro não saiba um básico de inglês. A divulgação da gravadora, dos promotores é maciça no mundo europeu, e não na comunidade brasileira”, frisou. Há, aí, algum preconceito ou discriminação? Na verdade, quem mora em qualquer país tem de aprender a língua local, senão fica deslocado, isolado, sem sintonia com as pessoas, com as ruas.

Não satisfeito com as primeiras estocadas, Ed Motta “orientou”: “Não gaste seu dinheiro e nem a paciência alheia atrapalhando um trabalho que é realizado com seriedade cirúrgica. Esse não é um show para matar a saudade do Brasil. É um show internacional. Que desagradável ter que toda vez dar explicações, e ter que escrever esse texto infame”.

Um internauta disse: “Realmente, ser popular no Brasil é para poucos”. A resposta de Ed Motta, numa rede social: “Pra poucos idiotas”. Alguém que não queira fazer média com o público, apresentando-se como politicamente correto, pode realmente discordar das estocadas de Ed Motta? Ligue os canais abertos de televisão e algumas rádios. As músicas são de baixíssimo nível, com linguagem chula, e com verdadeiro massacre da Língua Portuguesa. Os brasileiros não merecem isto, mas é o que ouvem e pedem para ouvir. Paulo Francis gostava de comentar que Lênin tentou oferecer obras de arte sofisticada para os camponeses e trabalhadores soviéticos, mas eles queriam Repin.

Como o Brasil está se tornando a segunda pátria do politicamente correto — a primeira são os Estados Unidos —, é saudável que alguém guarde o bom senso no violão e fale aquilo que precisa e deve ser dito. Ed Motta choca porque não mente.