Para combater ideias, evitando que sejam colocadas em prática, é preciso conhecê-las bem. Se Churchill, Roosevelt e Stálin tivessem lido “Mein Kampf” cuidadosamente teriam percebido as reais pretensões de Hitler e poderiam, talvez, ter evitado a Segunda Guerra Mundial

Capa_Hitler_MInha_Vida.indd
“Mein Kampf” (“Minha Luta”) é um documento histórico que precisa ser lido, criticado e renegado, mas não proibido. A edição proposta pela editora Geração é crítica e explicita o desastre gerado pelas ideias contidas no livro

Mas importante do que ler “Minha Luta” (“Mein Kampf”), livro de Adolf Hitler, o líder nazista que levou a Alemanha ao conflito de 1939, é ler os melhores estudos sobre a Segunda Guerra Mundial e sobre o cabo que devastou a terra de Goethe e Thomas Mann. As obras de Ian Kershaw, Richard Overy, Richard J. Evans, Andrew Roberts, Antony Beevor e Norman Davies são fundamentais para entender a Alemanha nazista e a Segunda Guerra Mundial. Seus estudos são nuançados, baseados em farta documentação e resultado de interpretações rigorosas e, e se isto é possível, isentas. Não significa, porém, que “Minha Luta” seja descartável. Trata-se de um documento histórico imprescindível para entender como Adolf, o cabo austríaco da Primeira Guerra, se tornou Hitler, o estadista cruel que levou a Alemanha à ruína, depois de 12 anos de governo (e certo sucesso), entre 1933 e 1945.

Publicado entre 1925 (primeiro volume) e 1926 (segundo volume), o título inicial de “Minha Luta” era “Quatro Anos e Meio de Luta Contra Mentiras, Estupidez e Covardia”. Hitler admitia que escrevia mal e Josef Stolzing-Cerny e Ilse Pröhl tiveram de fazer uma revisão criteriosa. O livro só se tornou best seller (saiu até em braile) depois da chegada de Hitler ao poder, em 1933. Ele vendeu 10 milhões de exemplares até 1945, na Alemanha, o que o enriqueceu. Mas não foi a obra que contribuiu para sua chegada ao poder. O professor de Cambridge Richard Evans anota no excepcional “A Chegada do Terceiro Reich” (Planeta, 669 páginas, tradução de Lúcia Brito): “O talento de Hitler para conquistar corações e mentes residia em sua oratória em público, não em sua escrita”.

Na biografia “Hitler” (Com­panhia das Letras, 1077 páginas, tradução de Pedro Maia Soares), Ian Kershaw sublinha que “Minha Luta” exibe “uma declaração intransigente” dos “princípios políticos” do líder nazista — “‘sua visão’ de mundo, o sentido de sua ‘missão’, sua ‘visão’ da sociedade e seus objetivos de longo prazo. ‘Mein Kampf’ é o elemento fundamental para compreender o pensamento de Hitler em meados da década de 1920. Num resumo conciso, o livro se reduzia a uma visão simples e maniqueísta da história como uma luta racial na qual a entidade mais elevada, a ariana, estava sendo solapada e destruída pela mais baixa, a parasítica judia. A ‘missão’ do movimento nazista era, portanto, clara: destruir o ‘bolchevismo judeu’, o que propiciaria ao povo alemão o ‘espaço vital’ necessário para que a ‘raça superior’ se sustentasse. Ele foi rigidamente fiel a esses princípios básicos pelo resto de sua vida. Nada de substancial mudou em anos posteriores”.

Adolf Hitler, o cabo austríaco condecorado na Primeira Guerra Mundial, escreveu “Minha Luta” como um guia para governar, mas sua prática, quando assumiu o governo da Alemanha, piorou as ideias ainda mais
Adolf Hitler, o cabo austríaco condecorado na Primeira Guerra Mundial, escreveu “Minha Luta” como um guia para governar, mas sua prática, quando assumiu o governo da Alemanha, piorou as ideias ainda mais

Políticos e intelectuais da Inglaterra, da França, da União Soviética e da própria Alemanha deveriam ter lido o livro com mais atenção — sem ridicularizá-lo, entre meados da década de 1920, quando foi editado, e antes da declaração da guerra, em 1939. Óssip Vissariônovitch Djugachvíli, Stálin, se tivesse lido a obra cuidadosamente, sem avaliá-la como produto de uma mente delirante, teria entendido que a União Soviética, supostamente controlada por bolcheviques judeus, era um dos alvos principais de Hitler. Quando o espião Richard Sorge relatou à polícia secreta soviética que os nazistas iriam invadir o país em 1941, Stálin relutou em acreditar. Mas Hitler já havia explicado que o espaço vital (Lebensraum) da Alemanha era a União Soviética (não eram a Inglaterra e a França). “O fim do domínio judeu na Rússia será também o fim da Rússia como um Estado”, resumiu, de maneira precisa, Hitler.
O historiador britânico Andrew Roberts escreveu, no livro “Tempestade da Guerra — Uma Nova História da Segunda Mundial” (Record, 811 páginas, tradução de Joubert de Oliveira Brízida), que “Molotov [ministro do Exterior da URSS] deveria ter dado maior atenção à declaração de Hitler, escrita no ‘Mein Kampf’: ‘Que ninguém pense que, se concluirmos uma aliança com a Rússia, não devamos de imediato pensar em guerra, ou que, se o fizermos, não tenhamos de nos preparar completamente para ela. Uma aliança cujo objetivo não abarque um plano para a guerra não faz sentido e é inútil. Alianças são concluídas apenas para a luta’”.
“As crenças de Hitler foram expostas com clareza em ‘Minha Luta’. O que permaneceu central ao longo de todas essas voltas e reviravoltas táticas foi o anseio de longo prazo por ‘espaço vital’ no Leste e o desejo feroz de aniquilar os judeus”, destaca Richard Evans. A Inglaterra, por sinal, não era vista como “inimiga” da Alemanha. Hitler a via como uma possível aliada. Andrew Roberts nota que “o emprego do gás venenoso contra os judeus foi até mencionado no ‘Mein Kampf’, no qual escreveu que, na Primeira Guerra Mundial, ‘o sacrifício de milhões no front’ teria sido desnecessário ‘se 12 ou 15 mil desses corruptores hebreus do povo tivessem sido submetidos ao gás venenoso’”. Mais judeus, se tivessem lido isto com atenção, poderiam ter escapado dos campos de concentração e extermínio.

Políticos ingleses (menos Churchill), como Neville Cham­berlain, e franceses, como Eduard Daladier, subestimaram Hitler. Por certo, acreditaram que os escritos de Hitler eram retórica e que, no poder, o político seria moderado pela realidade. Mas a realidade só “modera” um político quando há instituições independentes, quer dizer, quando não se governa sob ditadura. Em 1933, Hitler não chegou ao poder por meio de golpe de Estado — foi convocado pelo presidente Paul von Hindenburg para ser chanceler. Vários observadores descreveram o que estava acontecendo na Alemanha e, mesmo assim, ingleses e franceses foram cedendo, abrindo espaço ao expansionismo nazista na Áustria e na Tchecoslováquia (Sudetos) sem resistência, até que, percebendo a fragilidade dos possíveis inimigos, Hitler autorizou a invasão da Polônia — o “corredor” para a União Soviética.

Richard Evans frisa, no primeiro volume de sua trilogia, “que ninguém que tenha lido o livro pode ter ficado com qualquer dúvida do fato de que Hitler considerava o conflito racial” como “o motor, a essência da história, e os judeus o inimigo jurado da raça alemã, cuja missão histórica era, sob a orientação do Partido Nazista, arrebentar seu poder internacional e aniquilá-los inteiramente. ‘A nacionalização de nossas massas’, escreveu ele, ‘só terá êxito quando, à parte de toda luta positiva pela alma de nosso povo, seus envenenadores internacionais [os judeus] forem exterminados’”.

Censura é irracional

Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Stálin, se tivessem lido “Minha Luta”, com atenção, não percebendo  a obra como “ridícula” e “delirante”, poderiam, quem sabe, ter contribuído para evitar a Segunda Guerra Mundial
Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Stálin, se tivessem lido “Minha Luta”, com atenção, não percebendo a obra como “ridícula” e “delirante”, poderiam, quem sabe, ter contribuído para evitar a Segunda Guerra Mundial

Quando uma ideia ruim parece boa muitos a encampam e a defendem. Para combater ideias, evitando que sejam colocadas em prática, é preciso conhecê-las bem. Se Churchill, Roosevelt e Stálin tivessem lido Mein Kampf cuidadosamente teriam percebido as reais pretensões de Hitler, poderiam tê-lo combatido mais cedo e, quem sabe, teriam conseguido evitar a Segunda Guerra Mundial e o morticínio generalizado. Proibir um documento histórico, ainda que seja uma excrescência — e “Minha Luta” é uma aberração —, é o mesmo que renegar que a história precisa ser apreendida em toda a sua extensão. A história verdadeira, contada a partir da síntese dos contrários, jamais pode excluir aquilo que é absurdo. Tudo deve ser contado, até para, se for o caso, ser combatido com inteligência e evitar que ocorra novamente.
Os leitores, brasileiros ou não, não são bebês e não precisam de promotores de justiça e magistrados para saber o que devem ler ou não. Eles têm o direito de escolher suas leituras e em que acreditar. “Minha Luta” não é inofensivo, vá lá, mas no Brasil não há movimento nazista que pretenda usá-lo para organizar a tomada do poder ou provocar arruaça. Figuras isoladas não têm a menor importância — são apenas ridículas. Na Europa, onde os neonazistas têm alguma força, pelo menos fazem muito barulho, o livro “Minha Luta” é publicado e divulgado até em bancas de jornais. É execrado, como deve ser em qualquer lugar, mas a circulação é livre.

As críticas dos que defendem a proibição do livro são justas. O que não é inteligente é a censura à publicação — independentemente se a edição é crítica ou não — de “Mein Kampf”. A edição crítica, da Geração Editorial, é louvável, porque fornece contexto histórico e explicita o desastre provocado pelas ideias de Hitler e seguidores. Mas mesmo a não-crítica deveria circular, porque publicá-la não é o mesmo que endossar as ideias nazistas.

Livros dos historiadores Ian Kershaw, Richard Evans e Andrew Roberts são fundamentais para entender como Hitler  se tornou um estadista bem sucedido e controlou quase toda a Europa pelo menos até 1943 ou até parte de 1944
Livros dos historiadores Ian Kershaw, Richard Evans e Andrew Roberts são fundamentais para entender como Hitler se tornou um estadista bem sucedido e controlou quase toda a Europa pelo menos até 1943 ou até parte de 1944

Na quarta-feira, 3, o juiz Alberto Salomão Junior, da 33ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, determinou a proibição da comercialização, exposição e divulgação do livro “Minha Luta”. O magistrado acatou a argumentação do Ministério Público do Rio de Janeiro, que aponta o livro como “racista” — o que, de fato, é. Mas sua publicação, inclusive com textos críticos, não é um ato racista. Pelo contrário, é preciso sublinhar, a edição de um documento histórico reforça a crítica às teses racistas como absurdas e criminosas. Para criar e manter um mundo democrático não se pode ignorar que há momentos sombrios na história da humanidade — como os totalitarismos nazista e comunista.

Livrarias e editoras não podem comercializar o livro. Quem o fizer pagará multa de 5 mil reais por exemplar vendido. Embora censurado, “Minha Luta” pode ser adquirido na internet em português (saiu em Portugal, inclusive nas bancas de revista), alemão, inglês, espanhol, francês e vários outras línguas. Fica-se com a impressão de que a Justiça brasileira, secundada pelo Ministério Público, ainda não entendeu que existe uma rede imensa, poderosa e incontrolável. Decisões locais precisam levar em conta a Internet, com sua liberdade por vezes excessiva mas, no geral, valiosa e democratizante. Juízes e promotores não podem ser nefelibatas.