“Marconi produziu o concreto. É nisso que o eleitorado atual está realmente interessado”

Coordenadores da propaganda do candidato à reeleição dizem que o cidadão está cada vez mais ávido por propostas e menos interessado em ataques eleitoreiros

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Responsáveis pela condução do marketing da campanha do go­ver­nador Marconi Pe­rillo (PSDB) à reeleição, Paulo de Tarso da Cunha Santos e Carlos Maranhão demonstram uma sintonia fina entre si. Mais do que profissionais diante do ofício, parecem parceiros no que fazem. Uma harmonia que certamente ajuda na busca do objetivo: conquistar a vitória. Não importa se no primeiro ou no segundo turno, como acentua Maranhão.

Paulo de Tarso foi o coordenador de marketing de uma das mais famosas campanhas políticas da história brasileira, a que levou Luiz Inácio Lula da Silva ao segundo turno de 1989. Mais do que isso, é dele a criação da expressão “Lula-lá”, que marcaria o famoso jingle elaborado por Hilton Acioli. Carlos Maranhão é o que se poderia dizer “tucano de carreira”: acompanhando Marconi desde 1998, já ocupou postos chave em suas administrações, como presidente da Metrobus e do grupo executivo responsável pela obra do VLT, mais recentemente.

Ambos concordam que o eleitor brasileiro está cada vez mais exigente: “Vemos com clareza que a qualificação das propostas é cada vez mais importante. As pessoas julgam detalhe por detalhe, com crivo rigoroso”, diz Paulo de Tarso. O publicitário é responsável também por um novo olhar sobre o golpe militar de 1964, a partir do depoimento de Almino Affonso, que foi ministro do presidente João Goulart (veja box ao fim da entrevista).

Elder Dias — Alguns analistas dizem que não há nada de novo nessa campanha, pelo menos no que diz respeito à cena local. Como avaliar isso?
Paulo de Tarso — Do ponto de vista objetivo, a campanha nacional mudou da água para o vinho. Na verdade, toda a comunicação política que se praticava no Brasil antes de junho de 2013 precisou ser requalificada, processo que é demorado e, portanto, ainda está ocorrendo. Mas tudo mudou. Um exemplo: nesta campanha, os jingles entraram em falência, porque o eleitorado não respeita mais essa ferramenta. Claro, em determinadas situações, utiliza-se a música como meio de convencimento. Isso nunca vai acabar, mas o jingle tem muito menos presença do que tinha em eleições anteriores. O eleitorado atual está muito mais interessado em argumentos mais sólidos. Vemos com clareza que, hoje, a qualificação das propostas é muito mais importante, pois as pessoas julgam as propostas detalhe por detalhe, com um crivo rigoroso. Então, a afirmação de que nada mudou é fruto de uma observação distante, típica de quem não é do ramo e não consegue entender os espaços disponíveis para formatação de uma campanha eleitoral. Aparentemente, pode até ser que não se observem grandes mudanças, mas nós, que somos do ramo, percebemos isso de modo mais claro.

Elder Dias — O debate em torno das mudanças do programa da candidata à Presidência Marina Silva (PSB) seria, então, uma evidência de que o eleitor realmente está avaliando as propostas de maneira mais atenta? Por outro lado, vemos as declarações dela de que os outros principais candidatos, Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), sequer apresentaram programas de governo como contra-argumento às críticas.
Paulo de Tarso — Em relação ao fato de que o eleitor está exigindo mais, não tenha dúvida. Observamos isso nas pesquisas qualitativas a todo o momento. Existe uma nova relação entre o eleitor e os candidatos. Agora, acerca das críticas a Marina, isso é puro chumbo trocado. Sem querer defendê-la, mas Marina está fazendo modificações em seu plano de governo porque antes não havia perspectiva real de poder e agora há. Ela não poderia deixar um plano de governo com aberturas para que, no segundo turno, ela precise responder por isso. Assim, ela faz as modificações necessárias. Nesse momento, esse chumbo trocado não tem valor. Terá valor no segundo turno, quando voltar o foco quanto às propostas e à governabilidade.
Carlos Maranhão — E tem outro fator: quando se apresenta um programa de governo à sociedade, isso é feito exatamente para haver uma discussão com a sociedade em relação às propostas. O fato de a candidata mudar o programa é porque está havendo discussão. Ora, isso não pode ser condenado, porque o programa está aí para isso, pois é colocado em uma campanha para que haja contribuições a ele. Em um processo como esse, se há novas demandas, obviamente, elas precisam aparecer no programa, pois, à medida que a discussão cresce, aquele programa que nasceu pequeno cresce junto. Logo, não vejo isso como algo criticável, mas louvável. Fica parecendo que o bom é o que estão fazendo Dilma e Aécio, que não apresentam programa algum para não serem alcançados em uma contradição.
Paulo de Tarso — Agora, esse chumbo trocado é normal. Não acho que isso seja antidemocrático. Acredito que Marina deve, sim, ser responsabilizada pelas modificações que faz em seu programa, mas é preciso dizer que esse não é um debate central para o Brasil e sim lateral.

Marcos Nunes Carreiro — A que se deve a maior exigência do eleitorado em relação às propostas? Ao crescente nível de escolaridade, ao atual contexto político-social do País ou a um conjunto de fatores?
Paulo de Tarso — Há pelo menos três explicações para isso: a primeira diz respeito à ascensão da chamada classe média lulista, que trouxe grande consciência. Isso é fato. A segunda questão trata dos eventos de junho de 2013, que representou um megafenômeno politizador. Não para quem estava nas ruas, mas para aqueles que estavam em casa assistindo pela TV, pois, ao ver tamanho movimento, as pessoas refletiram e isso alcançou um nível maior de consciência política muito mais rapidamente do que por meio de discursos. E a terceira questão diz respeito ao amadurecimento natural do brasileiro, visto que estamos indo para a 15ª eleição depois da redemocratização e começa a nascer a ideia de que a simples troca de governo não é a solução de tudo. Isso é a maturidade, algo que vem para o bem. Existe hoje uma demanda clássica por políticas estruturantes de longo prazo. Isso prova que, em todos os setores, a simples discussão da troca de comando já não alcança as demandas sociais. E acho que isso engloba a formação do eleitor mais crítico, que tem mais acesso às universidades e ao próprio consumo e que tem vivido o processo democrático de maneira contínua. Tudo isso gera consciência. E esse não é um processo exclusivamente brasileiro, mas que tomou conta da democracia ocidental.

Elder Dias — Esse processo ao qual o sr. se refere pode ser ligado também à força da internet atualmente? Tivemos exemplos claros de que o aumento de consciência política por parte das pessoas não apenas no mundo ocidental, visto os acontecimentos que tomaram o mundo árabe no início desta década, foram potencializados pelo fator internet.
Carlos Maranhão — A evolução dos meios de comunicação, especificamente, a internet, foi fundamental nesse processo como um todo. A velocidade, a abrangência e a permeabilidade das notícias foram fundamentais. O conceito de rede nos mostra que a internet é basicamente participação. Tudo isso leva as pessoas a saírem de uma posição de conforto e assumirem uma posição de combate. Agora, acredito que o mais importante é o que está por trás disso, que, no caso do Brasil, é o amadurecimento político. É isso que exige uma maior qualificação das propostas de governo. Se pudéssemos atribuir um adjetivo a essas eleições, seria “qualidade”. O eleitor não quer apenas saber se a proposta é exequível, mas também se ela é a melhor proposta para resolver um determinado problema. Quando nosso adversário diz, por exemplo, que irá dobrar o número de efetivos dos policiais [proposta de Iris Rezende, do PMDB], a população tem duas respostas para isso: primeiro, que não é possível fazer com o número de recursos que o Estado tem. Segundo, sabe que o fator de violência não depende apenas da polícia, mas de um conjunto de fatores do qual a população tem conhecimento. Por isso, nessa eleição, acho pouco provável o surgimento de Tiriricas, que são eleitos devido a um voto de protesto, naquele sentido mais irônico. Isso porque a sociedade ficou mais séria em relação ao processo.
Paulo de Tarso — A internet é um caminho para a democracia direta. Ainda transitaremos por um bom tempo entre as democracias representativa e direta. Mas a internet abre as portas para que isso ocorra, pois cria o que pode ser chamado de militância autoral. Isto é, o eleitor não é mais passivo, mas ativo. Ele transmite seu pensamento por meio do diálogo e isso irá requalificar todo o processo.

Marcos Nunes Carreiro — E isso atinge primordialmente o Exe­cu­tivo? Ou o Legislativo também so­fre consequências desse processo? A pergunta se baseia no fato de que há uma cultura de secundarização do Legislativo no Brasil.
Paulo de Tarso — Em relação ao Legislativo, tratamos de uma cultura política. O Brasil não investe em cultura política, pois mal investiu em educação, imagine então em educação política. Esta sempre foi procrastinada, uma vez que o Brasil sempre foi o país dos barões. Prova disso é que passamos a ter o voto universal apenas em 1946. Isso foi ontem! Faz pouquíssimo tempo. O Parlamento não é o local de poder menos importante, mas o mais importante, mas o fenômeno não é fora de propósito, visto que o brasileiro depende da solução de seus problemas diretos, como saneamento básico, energia, comida, etc. Por isso, a população tende a se voltar para o Executivo, o que é absolutamente normal. Porém, quando se olha para a Constituição, vê-se que, fora o vice-presidente, quem substitui o presidente em sua ausência é o presidente da Câmara dos Deputados. Então, esse processo de educação política é lento. E acho que esse ano teremos um índice de renovação política melhor do que nas eleições passadas. Mas esse não é um sistema fácil de ser substituído, pois a própria maneira como caminha o processo eleitoral no Legislativo tem muito a ver com família, dinheiro, estrutura de campanha, etc. Logo, essa preocupação com o Legislativo depende de um caminho a ser formado. É possível perceber isso nas eleições para o Senado, que já ganharam mais importância do que havia no passado.
Carlos Maranhão — É importante dizer isso, pois, às vezes acham que o senador, devido a sua eleição por voto direto, não faz parte do Parlamento.

Elder Dias — Em Goiás, o que se percebe é que há uma dificuldade de renovação no Legislativo. São praticamente sempre os mesmos nomes. Talvez, casos possíveis de renovação possível sejam o do professor Edward Madureira (PT), ex-reitor da UFG, e o do delegado Waldir Soares (PSDB).
Carlos Maranhão — Porém, no caso de Waldir Soares, essa não será sua primeira eleição. Em 2010, ele teve mais de 50 mil votos, sendo, portanto, uma pessoa já experimentada. Não é exatamente novo. E o discurso dele em 2010 foi o mesmo que faz agora. Muitas pessoas aderiram ao discurso dele, mas ele não mudou. É um delegado de carreira, cujo discurso influenciou o de muitos outros candidatos e é, às vezes, mais relevante do que o de políticos que se dizem sérios. Contudo, a grande questão da não valorização do Parlamento passa pela não valorização dos partidos. A atuação do parlamentar está ligada à vida ativa de seu partido, pois, se o partido tem uma atuação entre a população, isso será refletido no Parlamento. O Executivo pode ser suprapartidário. O Legislativo, não. O parlamentar precisa fazer parte de um projeto, de um programa. E isso é difícil no Brasil, pois nossa legislação é feita para fragmentar os partidos. É possível ver isso quando alguém levanta uma bandeira para, por exemplo, diminuir o número de partidos com o objetivo de fortalecê-los. Uma ação nesse sentido logo é cortada, sob o argumento de que ser antidemocrática. Na verdade, é o contrário. Antidemo­crático é termos um grande número de partidos que servem apenas para alugar tempo de TV na época eleitoral. Mas isso só será possível com uma profunda reforma política, que acontecerá.

Elder Dias — Em curto prazo?
Carlos Maranhão — Sim. Acredito que no próximo mandato ocorrerá algum tipo de modificação mais profunda na legislação política. Seguramente ocorrerá, independente de quem vencer as eleições, com quem ganhar, Dilma, Aécio e, quanto mais, Marina. E com isso daremos mais um passo à frente. Eu sou otimista em relação à democracia brasileira. Nós estamos melhorando enquanto cidadãos no sentido crítico, por isso não tem como não melhorar quanto a nossas representações políticas.

Elder Dias —Fernando Henrique Cardoso (PSDB) deu um direcionamento econômico ao Brasil, com suas reformas, privatizações e estabilização da moeda. Lula (PT) o sucedeu aplicando uma espécie de reforma social, com transferência de renda, com a entrada de mais gente nas universidades e com os programas sociais. Parece que, agora, com as manifestações do ano passado e a ascensão abrupta de Marina Silva após a morte de Eduardo Campo, irrompe uma demanda por uma nova política. Podemos entender o processo dessa forma?
Paulo de Tarso — Está claro que dentro desta reivindicação horizontal de “mudar tudo que está aí” nunca existiu a ideia de virada de mesa. “Mudar tudo que está aí” é muito mais uma expressão de quem está indignado do que propriamente uma vontade. Isso está claro, tanto que Aécio está trabalhando a ideia de mudança com segurança, e o que estão tentando jogar é a ideia de que Marina não é mudança com segurança e a própria Dilma é ficar como está. O que ficou muito claro para os brasileiros, e vejo isso aqui em Goiás, é uma demanda por novas leis, um novo marco legal e um novo marco civilizatório. Na segurança, isso está muito claro. Acredito que é inadiável uma reforma. Não é uma demanda partidária, não é uma demanda de processo de reforma. Acho que existe, sim, uma lógica de desenvolvimento disso. A economia não conduz a política, ela é conduzida. É natural que você tenha avanços econômicos subordinados a uma estrutura política mais antiga, porque é mais difícil mudar a estrutura política do que a estrutura econômica. Maquiavel dizia que a reforma política é a mais difícil de fazer, porque o legislador não legisla contra si próprio. E esse é um dado expressivo da democracia do Ilu­minismo, pós-Revolução Francesa. Só se negocia contra seus próprios interesses quando há pressão de grupos de interesse. Nesse caso, aqui estamos falando justamente da opinião pública. A pergunta é: o que fazer com a legislação política? A valorização do Legislativo passa, necessariamente, por mudar o atual formato de comunicação política, essa legislação. Não creio em grandes reformas políticas que implantem o parlamentarismo ou coisa nesse sentido, mas uma requalificação é certa. O Brasil não segue convivendo com o atual sistema político que tem. Isso não é possível e todos os projetos vão debater esse ponto.

Euler de França Belém — Em Goiás, quais são as grandes demandas da sociedade goiana?
Paulo de Tarso — Elas são idênticas às do Brasil.

Euler de França Belém — Todos os Estados têm suas demandas específicas, pois o Brasil é um País continental e há demandas que são imediatas.
Paulo de Tarso — Não há demandas específicas, todo cenário local tem suas demandas. Se pegar pela ordem das pesquisas, as demandas são idênticas, localmente ou nacionalmente. Não muda nada. É exatamente as mesmas questões.

Euler de França Belém — Mas o que o goiano quer mais nessas áreas?
Carlos Maranhão — Eu creio, sim, que há detalhes específicos. A história de cada Estado brasileiro tem um fio condutor. Goiás tem um “complexo de fim de mundo” e é preciso acabar com ele um dia. A palavra mágica aqui é modernidade. As pessoas aqui querem se sentir em um lugar moderno, querem se integrar ao Brasil moderno. Querem viver em um Estado desenvolvido, não o mais desenvolvido, mas entre os que estão assim. Os goianos querem ter padrão de vida similar ao dos Estados brasileiros mais desenvolvidos. São demandas que passam por essas questões que são comuns. A questão da educação vai ser sempre uma demanda. Não existe a possibilidade de satisfazê-la integralmente, porque ela é crescente. Antigamente, havia um professor chamado Antônio Gomes Ogeda, que dizia que só ficaria feliz no Brasil quando os políticos parassem de prometer salas de aula e passassem a prometer educação de qualidade. Nós já chegamos nisso e ele falava isso há 20 anos. Tempos atrás se discutia salas de aulas, novas escolas, ninguém prometia qualidade de ensino. Antigamente as associações comunitárias reivindicavam questões básicas, como ponto de ônibus, asfalto, escola, ou seja, demandas primárias. Hoje não adianta ter o posto de saúde se não houver médicos para atender às especialidades. Ou seja, as demandas são as mesmas. Estamos em um momento em Goiás no qual o fundamental é a qualidade. As pessoas estão exigindo serviços de qualidade, obras de qualidade, ação governamental com qualidade.

Euler de França Belém — Vocês estão tendo dificuldades com o tema segurança pública? Como estão trabalhando esse tema?
Elder Dias — Quando o sr. (Carlos Maranhão) fala em qualidade, o que vejo no discurso do principal oposicionista é ainda em falar em quantidade, como dobrar o número de policiais, por exemplo, na área de segurança. Isso hoje é um atraso?
Carlos Maranhão — Isso é uma fase anterior. Iris ficou nessa fase. Hoje, o que se discute em segurança é inteligência, utilização de equipamentos sofisticados, entre outras coisas.
Paulo de Tarso — O ponto principal sobre a segurança é a mu­dança da legislação. Isso estou falando dentro das pesquisas qualitativas, não é mera opinião. A questão da segurança é clássica. Já vi cidades em que a segurança têm zero de importância, enquanto na cidade vizinha a segurança bate em primeiro lugar. Do ponto de vista objetivo, as demandas de Goiás são idênticas às brasileiras. Isso não quer dizer que não haja particularidades regionais. O que mudou foi a questão do desemprego, que não está mais na lista das principais demandas. Isso é fato. As principais demandas de Goiás são saúde, educação e segurança pública. A qualificação profissional é uma grande de­man­da, também. A juventude tem u­ma demanda gigante, e talvez o setor mais atrasado no País seja o da qualificação, um apagão de mão de obra. Se você pegar “lato sensu” [expressão em latim para “em sentido amplo”] o resultado das pesquisas, verá que o âmbito nacional bate com as mesmas carências daqui. Não há situações diferentes. O que há são avaliações diferentes da população, e a própria preocupação com a qualidade de serviço. A demanda por qualidade é clara, não depende do governante, mas, sim, da exigência do povo.

Euler de França Belém — As pesquisas qualitativas mostram alguma satisfação com a educação, que teve um grande avanço no governo Marconi?
Paulo de Tarso — A qualitativa demonstra um orgulho do goiano com sua própria educação, mas combinado com uma demanda, porque isso não cessa. Que essa qualidade siga sendo requalificada. De um índice desse [o 1º lugar no Ideb] qualquer Estado se orgulha, mas não podemos subestimar o eleitorado, que é muito mais crítico do que vocês possam imaginar. O eleitorado tem uma visão muito clara do que deseja. Mas não há a menor dúvida de que, no ponto de vista do resultado, o 1º lugar no Ideb é um motivo de orgulho e grande satisfação para os goianos.

Euler de França Belém — E Marconi em si, como o eleitor o vê?
Paulo de Tarso — Não cabe a mim como marqueteiro dizer como o eleitor o vê. Eu tenho que trabalhar com isso, esse é meu trabalho. É difícil responder, porque não há uma visão uniforme a respeito de Marconi, senão não haveria eleição. O que posso dizer é um lugar comum: ele tem 41% dos votos. O julgamento vai mudando de acordo como o posicionamento político de cada um.
Carlos Maranhão — Com relação à gestão, Marconi é visto como um excelente gestor, e isso é consensual. Os próprios adversários dizem que ele é um bom administrador. A visão de que Marconi não fica chorando no momento de dificuldade, pelo contrário, que ele dá a volta por cima e vai atrás das coisas, tanto do ponto de vista pessoal quanto do administrativo, essa imagem do sujeito que batalha. Essa imagem de persistência está muito ligada a ele.

“Requalificação do eleitorado rejeita ataques”

Euler de França Belém — Marconi é associado à ideia de modernidade?
Carlos Maranhão — De todos os candidatos, é o mais associado, sem dúvida.
Paulo de Tarso — Nem tem muito como discutir sobre isso. A grande história dessa eleição é discutir o concreto, o que há de fato e de verdadeiro. A negação do concreto não leva jamais o candidato adiante, ele tem de partir da aceitação do concreto para sua própria requalificação, para apresentar um novo modelo. Negar o concreto é uma atitude primária, infantil do ponto de vista do posicionamento político. Sempre há dissenso dentro do consenso, sempre há a possibilidade de se fazer um projeto alternativo e discuti-lo com o povo. É isso que a gente tem visto por aí, uma negativa constante do que é concreto. E o resultado está aí.

Frederico Vitor — Como a campanha de Marconi trabalha a questão regional do Estado? Afinal, temos o Entorno do Distrito Federal, as regiões Sudoeste, Sul e Nordeste de Goiás, que é a mais pobre. Cada uma com suas peculiaridades. Como dialogar com eleitores heterogêneos?
Carlos Maranhão — Nós fizemos várias ações nesse sentido. O principal problema é regionalizar o discurso e as propostas. Dentro do elenco de demandas, há alguns lugares em que elas se destacam muito mais. Por exemplo, na região do Entorno, a demanda por infraestrutura e saneamento básico é muito maior do que na região Sudoeste. São diferenças no desenvolvimento e no nível de desenvolvimento e até mesmo da infraestrutura econômica e social da região. Um lugar onde há uma imigração muito elevada e não tem geração de emprego na mesma proporção, como em parte do Entorno, tem demanda muito mais pelo lado social do que da infraestrutura econômica. Cabe ao candidato e a seu programa tratarem isso da melhor forma. Não dá para atender tudo ao mesmo tempo, é preciso priorizar e ver o que cada uma dessas regiões precisa mais. Na eleição passada, a maior demanda do Entorno era por segurança pública, falava-se até que esta região estava virando uma Baixada Flumi­nense. Uma das propostas de Marconi Perillo foi criar um comando específico para aquela região. Isso teve um bom resultado e os índices de criminalidade caíram, o que foi auxiliado pela Força de Segurança Nacional. Essas questões precisam ser observadas e nós temos levado isso em consideração.

Euler de França Belém — Isso é sinal de que sequer, ao fazer a crítica ao Marconi, a oposição examinou o programa. Na campanha de Iris, estão concentrando muito em Carlos Cachoeira. Por que não têm resultado? É algo que não interessa aos goianos, que não modifica a vida dos cidadãos?
Paulo de Tarso — Isso se relaciona com a requalificação do eleitorado brasileiro. Uma das coisas que está sendo observada, com clareza, é a rejeição dos ataques. Isso está em todas as pautas. Nós temos, sobre esse debate, uma requalificação, pois, inicialmente, parecia que os ataques de Dilma não estavam afetando Marina. Existia uma ideia de que Marina fosse ter um “teflon”, mas não foi. Muitas pessoas atribuem a queda de Marina ao ataque, mas essa é uma questão bastante discutível. Do ponto de vista técnico, as campanhas negativas sempre existiram. Elas fazem parte da tradição política da civilização antes de Cristo, mas elas têm considerações muito específicas. Os norte-americanos trabalham muito bem as campanhas negativas. Elas têm de ter uma sequência de necessidades para funcionar, à qual eu não direi para não ajudar os adversários (risos). O fato é que uma campanha negativa solta, feita sem o apoio de outros elementos, tende a perda de credibilidade e, com o advento da internet, o bombardeio de mensagens “fakes” gera uma vacina. Isso é recorrente e não importa se o eleitor é irista ou marconista. Antes, as campanhas negativas impactavam maais; agora, o primeiro sentimento que vem é “puxa vida, eu quero é ver o que esse cara vai fazer, por que ele não fala?”. E, nesse sentido, o que parece estar se configurando, no discurso contrário, é a negação do concreto.

Euler de França Belém — Eu gostaria de discutir o caso Cachoeira. Conversando com as pessoas, elas parecem não se importar com o caso. Dizem que “não interessa”.
Carlos Maranhão — A sociedade acredita que os políticos são pessoas de caráter malformado. Em geral, tem uma péssima imagem dos políticos. Portanto, acredita que político transacionar com alguém que está na contravenção é normal, que isso existe em todos os lugares. Por outro lado, a própria cultura brasileira não demoniza o bicheiro. No Rio de Janeiro, o bicheiro é tido como um protetor das artes populares. É uma coisa comum.

Euler de França Belém — Isso tanto é verdade que Carlos Cachoeira, no governo de Maguito Vilela, em 1996, passou a dirigir as loterias do Estado de Goiás, que o governo transformou na Gerplan. Ele, Cachoeira, era o gerente, o gestor.
Carlos Maranhão – Essas ligações por proximidade ou por apoio político — e não faço aqui qualquer juízo de valor do Cachoeira em relação a qualquer político — é algo que está na história política do Estado. As pessoas veem isso com naturalidade. Porém, na medida em que se apresentasse um fato concreto, se houvesse, por exemplo, um complô para desviar dinheiro de uma escola pública, aí, sim, poderia haver uma comoção da sociedade. Se for só acusação por acusação, só por ter proximidade, é uma acusação que não tem o menor apelo para a sociedade.

Euler de França Belém — Qual a influência das redes sociais nas campanhas políticas? Qual é seu peso? Já é decisivo ou não?
Paulo de Tarso – Hoje passa a ser decisivo, pois pode creditar aquele um ponto que falta. Ou seja, é decisivo na medida em que há uma eleição acirrada. Porém, de maneira geral, nós temos medições de internet pouco confiáveis. O monitoramento ainda é pouco confiável e a grande maioria dos perfis pode ser inflada. Por exemplo, são calculados, em computadores de trabalho, três usuários, para aumentar o número de pseudousuários. Existe ainda a questão do analfabetismo funcional. Quer dizer, se há um celular interligado isso não quer dizer que se use a internet na capacidade que ela tem. Às vezes ela é usada só para enviar um recado, uma mensagem no WhatsApp, mas não forma opinião. Portanto, a base objetiva da internet ainda é pequena, não é por aí que se obtém resultado. Um resultado, aliás, é obtido por vários fatores.

Marcos Nunes Carreiro — Mas a internet tende a aumentar sua importância daqui para frente?
Paulo de Tarso — Sim. Nos Estados Unidos, para falar de um uso de internet sério, são 200 milhões de usuários como base. Lá, esse é um meio de massa insubstituível. Por aqui, é só uma questão de tempo. Eu não estou desqualificando a internet, só estou dizendo que, na medida em que a base aumenta, sua importância aumenta.
Carlos Maranhão — É preciso dizer que não basta só o acesso. Tem de se observar a qualidade das pessoas que realmente acessam, se elas entendem o que está lá.
Paulo de Tarso — Exatamente, tem de saber usá-la.

Elder Dias — Na eleição para cargos proporcionais, a internet pode ter um peso fundamental para eleger algum candidato?
Paulo de Tarso — Pode, mas poucos sabem trabalhá-la. A internet tem um conceito que é a hipersegmentação. Quando se segmenta o público e se dá razões que ele queira ouvir, se ganha em efetividade na comunicação. Assim, se tem o que hoje se chama de “marketing de causas”. As empresas trabalham suas imagens institucionais ligadas à educação, à sustentabilidade. O mesmo pensamento vale para um candidato proporcional e até para majoritários. Se ele tem um marketing de causa verdadeiro, ele tem na internet um instrumento para obter um número de votos que pode elegê-lo ou fazer metade da votação dele, na medida em que tenha a tecnologia, a causa identificada e os mailing lists [“listas de discussão”, em inglês] necessários para comunicar com essas pessoas. Nesse sentido, sim, mas são poucos os que têm essa consciência, essa habilidade. A internet ainda é uma fantasia na cabeça das pessoas.

Marcos Nunes — Podemos dizer que ainda vivemos o efeito Barack Obama, de 2008?
Paulo de Tarso — O efeito Barack Obama não foi um efeito de internet de convencimento. Foi um efeito de internet de arrecadação. O grande assunto de Barack Obama não foi convencer o eleitorado, foi arrecadar. Isso fideliza. É muito mais importante o eleitor tirar 5 dólares e colocar em uma campanha, onde há uma finalidade de votos, do que sair compartilhando, embora tivesse havido, com Obama, também um movimento de compartilhamento. Mas, no Brasil, estamos ainda muito longe disso. O financiamento de campanha é discutido ainda em sua essência e, de fato, o brasileiro não tem dinheiro de sobra, pois 5 reais fazem diferença para uma família pobre. Portanto, todos os apelos de crowdfunding [expressão em inglês para “financiamento coletivo”] — como são chamadas essas arrecadações para filmes, álbuns e outras coisas —, todas as apostas feitas no Brasil praticamente fracassaram. São poucos filmes, documentários, aqui e ali, que conseguem arrecadar. Mas eu conheço grandes investimentos em crowdfunding que não deram em nada, porque ainda temos uma questão de necessidade. O cidadão não investe 10 reais, não se identifica com a classe política, não tem essa visão, ainda está na fase da necessidade. O americano investe nisso e ainda sobra; o brasileiro não investe porque não sobra. O efeito Obama, aqui, ainda vai demorar e dependerá da reforma política de que estávamos falando. Se a reforma política, por exemplo, der um desconto no Imposto de Renda para quem financiar uma campanha, isso pode mudar.

Euler de França Belém — E os programas eleitorais de TV? Eles estão sendo importantes nestas eleições?
Paulo de Tarso — Eu e Maranhão temos a mesma experiência com isso. Os programas de televisão sempre, durante sua existência, foram essenciais. As pessoas batem, falam mal da nossa legislação, mas o fato é que nós temos dezenas de casos em que a televisão virou a campanha, dezenas de casos em que a TV foi decisiva. O fato é que o bra­sileiro se acostumou, como ele mesmo diz, à “época da política”. É assim que ele se refere aos períodos elei­torais: “quando chega a hora da po­lítica”. E isso começa com a televisão, a campanha entra nas casas com a TV. A televisão é o cartão de visita dos candidatos. Se você tem um cartão de visitas malfeito, mal diagramado, feioso, provoca-se uma má impressão. Se for um cartão mais bem feito é diferente. Ou seja, a televisão é isso. Na essência, o que mudou, e isso se deve à mudança na legislação, é que a audiência é rotativa. Nós estamos medindo e, na estreia, a audiência do programa político foi de 50 pontos em rede. Na Rede Globo, o último capítulo da novela “Avenida Brasil” — que fez sucesso e bateu recorde de audiência — teve 41 pontos. Já o horário eleitoral foi de 50, em rede. Ou seja, todo esse discurso contra ho­rário político é um discurso mal construído. Hoje, que estamos afunilando, a menor audiência que tivemos foi de 31% por dia. Isso a Globo não tem com o “Jornal Nacional”. O que então mu­dou, basicamente, é que não se as­siste ao programa como sequência. Co­mo ele é apresentado dia sim, dia não, a audiência é rotativa. O cidadão assiste um ou dois programas por semana e vai, aos poucos, formando sua opinião conforme veja sua identificação com o programa. Antes, tínhamos programas encadeados e podíamos levar temas de suíte e continuá-los. Agora, cada programa tem de ser fechado.

Euler de França Belém — Por que o programa de Marconi não faz confronto com os outros candidatos?
Paulo de Tarso — Como não faz? É claro que faz, fazemos isso todo dia. Nós mostramos o concreto e deixamos os adversários se virarem em relação a esse concreto. É tão simples: mostramos o concreto. Esse é o nosso trabalho.
Carlos Maranhão — Os outros candidatos dizem que, em nossa propaganda, há um Goiás que não existe. E nós mostramos esse Goiás que existe. Então, deixamos o eleitor comparar: esse Goiás que mostramos existe ou não existe?
Paulo de Tarso — Esse é o concreto e fazemos isso todos os dias.

Elder Dias — A questão dos gastos em publicidade do governo, afetou, de alguma forma, a campanha? Por exemplo, reforçando um certo discurso dos adversários? O jingle do PMDB — “Eu queria morar na propaganda do governo de Goiás” —, afetou de alguma forma?
Carlos Maranhão — Nós trabalhamos medindo tudo. Traba­lha­mos com pesquisa e medimos esses fatores. Hoje em dia, ninguém é pe­go de surpresa com coisas desse tipo. A informação que nós temos é que esse jingle é visto como uma coisa divertida e não como algo que cause estrago à campanha de Mar­coni. Primeiro, porque as pessoas sabem que existe um exagero naquilo. Marconi fez muitas coisas e eles dizem que tudo é propaganda, o que não é verdade. Segundo, eles dizem que são gastos desnecessários, mas a população sabe que o governo tem de comunicar, dizer o que está fazendo. É, inclusive, uma exigência legal. O que poderia talvez ser discutido é o valor, mas as pessoas não têm muita noção do que é esse valor, se é muito ou pouco. O que fizemos, em função disso, embora sabendo que esse ataque não tem causado grande estrago na campanha, foi combater, para que não fique uma mentira virando verdade. Quando você vê uma propaganda de febre aftosa, ou de combate à dengue, isso também é dinheiro gasto em propaganda, está incluído. É um serviço público.
Paulo de Tarso — Essa é uma crítica recorrente. Eu já a escutei em cinco ou seis eleições por todo no Brasil. Neste momento, estão dizendo a mesma coisa no Paraná em relação ao governador Beto Richa (PSDB). Sai eleição e entra eleição, quem está fora do poder critica quem está no poder. É sempre igual, mas a população não compra esse tipo de discurso.

Euler de França Belém — Iris caiu em Goiânia, Marconi está estável, mantendo sua pontuação e Vanderlan Cardoso (PSB) cresceu um pouco. Para onde foram esses votos de Iris?
Carlos Maranhão – Foram, fundamentalmente, para Vanderlan e um pouco para Antônio Gomide (PT), que está sendo muito prejudicado pela gestão da Prefeitura de Goiânia, de Paulo Garcia (PT). Entretanto, essa queda de Iris não foi muito forte. Foi uma queda de três, quatro pontos na capital. O que é importante é ter sido uma queda no principal colégio eleitoral dele. O fato de perder quatro pontos não é tão significativo, tanto que Gomide não deu grandes saltos. Nós temos também a sensação de que parte dos votos de Iris — não só em Goiânia, mas também em Aparecida, onde houve um crescimento importante para nós — foram para Marconi. Em alguns locais — é até uma questão tática, mas importante de dizer —, há o eleitor que tem como principal valor a questão do bom gestor e transita muito bem seu voto de Iris para Marconi. Assim, um irista que considera Iris um bom gestor, um tocador de obras, transita muito mais facilmente seu voto em direção a Marconi do que em direção a Vanderlan ou a Gomide.

Euler de França Belém — E essa onda que Vanderlan diz estar havendo criando, que estaria virando? As pesquisas não mostram isso, mas há uma tendência de crescimento?
Carlos Maranhão — Vanderlan tem muita dificuldade com a estrutura política que ele montou para a campanha. Ele tem poucos partidos aliados, não tem base no Estado inteiro, não tem candidatos que possam propagar o nome dele. Então, ao visitar muitas cidades de Goiás, você não vai ver um comitê ou uma bandeira ou uma propaganda sequer de Vanderlan. Isso dificulta o crescimento. Alguém pode dizer que Marconi, na época em que ganhou pela primeira vez, também era pouco conhecido. Mas, ainda que pouco conhecido em 1998, ele tinha os principais partidos da oposição, tinha uma estrutura em todas as cidades de Goiás. Todos os partidos da oposição, em todas as cidades goianas, o bancavam, brigavam por ele fazendo oposição ao PMDB e, assim, propagavam o nome de Marconi. É isso que falta à campanha de Vanderlan e de Gomide. Já o PMDB tem essa estrutura.

Elder Dias — Qual o problema exato do Gomide? Ele tem o partido da presidente da República, que é estruturado em todo o Estado, e não consegue ultrapassar nem o Vanderlan.
Carlos Maranhão — Primei­ramente, Gomide não fez nenhuma aliança política. Está sozinho. Em segundo lugar, deu um salto muito maior do que suas pernas. Não era hora de ele se candidatar. E todos voltam, então, ao Mar­coni de 98. Mas este estava maduro e tinha uma estrutura para lhe apoiar. Porém, Gomide não só não está maduro como também não tem essa estrutura. Em várias regiões, os resultados das pesquisas demonstram que ele está 5%, abaixo da média. Se ele ainda tem 7% na mé­dia é porque ele tem um alto “re­call” de sua gestão em Anápolis.
Paulo de Tarso — Se tomarmos a tradição de votos em Goiás, perceberemos que o voto antipetista aqui é elevado. A adesão aqui ao PT nunca foi igual a outros Estados, que levaram o partido à vitória.
Carlos Maranhão — O melhor resultado do PT ao governo aqui, até hoje, foi o de Marina Sant’Anna em 2002, com a onda vermelha de Lula, quando ela obteve 16%.
Paulo de Tarso — Quanto a Vanderlan, não se pode ser terceira via só no discurso. É preciso uma prática de terceira via. Ele tenta ser terceira via apenas com discurso, mas não é a terceira via na prática. Sendo assim, é muito difícil que ele tenha êxito.

Marcos Nunes Carreiro — No que consiste ser terceira via na prática?
Paulo de Tarso — Nem caberia a mim dizer isso, mas consiste em fazer um contraponto com a primeira e segunda vias. Tem de apresentar alternativas de projetos, ideias, conceitos. É funcionar, entre a primeira e segunda via, como um caminho opcional. Cada vez mais, o que prevalece é o marketing político e não o marketing eleitoral. Não gosto da palavra “marketing”, mas vá lá: a comunicação política, que consiste nos gestos durante todo o seu mandato. Isso fala mais que seu discurso. Um único gesto forma mais opinião que dezenas de discursos. A terceira via teria de ter uma prática de terceira via — ser capaz de dialogar com os dois lados, formar consenso, estabelecer novos consensos, requalificá-los. Nada disso acontece na prática. E só o discurso não adianta mais, se não há gesto político. Sem ele, não se consegue caminhar muito.
Carlos Maranhão — Talvez, isso explique um pouco a queda de Marina Silva. Ela não se segura somente com o discurso.

Euler de França Belém — Por que o Marconi hoje, depois de um ciclo de 16 anos, ainda passa uma imagem de que é mais novo do que os demais candidatos?
Carlos Maranhão — Porque ele é mais novo. A prática dele, o gesto, diz que ele é mais novo. Os projetos que ele implementa, a visão que ele tem, tudo isso é mais novo. Ele pega uma rodovia e a transforma, com qualidade, em uma das melhores do Brasil. Ele não faz uma rodovia simples, corriqueira.
Paulo de Tarso — Tem uma palavra que se espalhou pela população, que eu chamo de “marketin”, sem o “g”, onde para desqualificar qualquer coisa, se usa “é puro marketin”. “Ah, fulana está usando uma saia de tal modelo, é puro marketin”, ou “fulano fez tal curso, é marketin”. Tudo virou “marketin”. O concreto, não. O concreto não é “marketin”. O marketing, com “g”, é concreto e faz parte do concreto. Faz parte de todo o projeto de desenvolvimento de ideias e de realizações que vem junto. A artificialidade tem um limite; a partir de determinado momento, ela bate no concreto e é vencida. Por­tan­to, a desqualificação via “marketin” é uma desqualificação que tem limite, chega até tal ponto e a partir dali não vai mais. Criou-se um folclore, no Brasil, de que tudo é “marketin”, desde Silvio Santos, para desqualificar. Não quero fazer disso um discurso em defesa do marketing, mas o marketing não formata ninguém, ele apenas orienta as coisas e participa. Ao contrário do “marketin”.
Carlos Maranhão — Se o produto não for bom, o marketing não adianta.
Paulo de Tarso — É exatamente isso. Mas popularizou-se essa ideia. Todas as pessoas falam em “marketin”. É engraçadíssimo isso.
Carlos Maranhão — A diferença, no caso de Goiás, é que Marconi tem esse dado concreto. Não quer dizer que ele vá ficar eternamente, mas ainda não apareceu ninguém com algo além de discurso, com gestual para novos caminhos.

Euler de França Belém — O sr. não fez a campanha de Marconi em 1998, mas acompanhou a carreira dele. O que ele virou, nesse período? Como foi seu processo de amadurecimento como gestor? O que foi o mais importante?
Paulo de Tarso — Eu considero muito raro o número de qualidades que Marconi acumulou. Muito raro no que se diz a gestão. Ele, aos 51 anos, é um dos poucos homens que sabe trabalhar com a máquina pública dentro dos entraves que ela tem. É uma qualidade que pouquíssimos gestores têm. Marconi é impressionante nisso. Ele fixa objetivos e sabe como atingi-los. Nós estamos cheios de grandes políticos que assumem cargos de primeiro escalão e não têm noção do que fazer. São cheios de boas intenções, mas não conhecem a legislação, não sabem como se faz, não sabem o que é empenho, o que é orçamento. Para aprender, levam um bom tempo. Marconi, o que me impressiona, teve uma capacidade incrível, que foi a de aumentar a velocidade de seu conhecimento da máquina pública para fazer as coisas andarem.

Elder Dias — O sr. quer dizer que Marconi então é um governador que poderia ser também um bom técnico?
Paulo de Tarso — Exatamente. Eu acompanho muitos políticos, há muito tempo, e vejo nele também é um grande técnico. Talvez, um dos maiores que eu já vi na minha vida.

Euler de França Belém — E ao mesmo tempo é um grande político?
Paulo de Tarso — Não estou falando da parte política, porque não me cabe. Mas houve também um grande amadurecimento político de sua parte, e isso vem da estrada. A parte política faz parte desse caminho.

Euler de França Belém — As pesquisas sinalizam possibilidade de decisão já no primeiro turno. Isso está factível?
Carlos Maranhão — Hoje, nós temos a mesma possibilidade de ter segundo turno quanto a terminar no primeiro turno. Nas pesquisas externas e internas, estamos no limiar, com um ou dois pontos, até menos que isso. Estamos em uma situação limite, trabalhando em sintonia fina, pois qualquer queda de um ou dois pontos pode levar para o segundo turno e qualquer ganho de um ou dois pontos pode decidir a eleição já. A gente não pode criar na militância uma sensação de inevitabilidade de ter de ganhar no primeiro turno, não é correto. A inevitabilidade tem de ser a de ganhar, não importa se no primeiro ou no segundo turno, isso é consequência. Na eleição para a Prefeitura, em 2012, houve um efeito manada que fez Paulo Garcia (PT) ganhar no primeiro turno enquanto a tendência indicava dois turnos. Então, o que é preciso é fazer uma campanha com garra, para ganhar com a maior diferença possível agora. Se isso for suficiente para a vitória imediata, melhor; se não, entraremos no segundo turno com muita musculatura e condições muito boas.

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

“Eleitor quer democracia de mais debate”

Marcos Nunes Carreiro — Nesses últimos dias de campanha, esperava-se uma grande modificação nas táticas. Mas tanto o governo como a oposição parecem ter mantido a mesma orientação. Por que isso?
Paulo de Tarso — É difícil para quem não acompanha no dia a dia entender como tudo acontece, mas eu vejo mudanças na campanha permanentemente. A gente que tem estrada nesse ramo vê tentativas novas a cada programa. Mas isso não vem ao caso de discutir agora, porque não cabe a nós julgar campanhas alheias. Nós, como profissionais, temos como obrigação não sonhar com resultados, mas produzir resultados. É uma diferença grande: não podemos nos deixar iludir com nada nem deixar de perseguir o objetivo com a maior quantidade de suor no rosto que pudermos. Ganhar do primeiro turno é importante? É. Mas ganhar no segundo turno é importante? É, também. Não temos a resposta sobre o momento, nem é o foco a ser colocado agora por nós.

Euler de França Belém — A base aliada pode fazer de 10 a 12 deputados fe­derais e até 26 deputados estaduais. Mas o candidato a senador, Vilmar Ro­cha (PSD), está com muita dificuldade. Ele tem chance ou está estagnado?
Carlos Maranhão — Vilmar está crescendo. Na última pesquisa Serpes ele alcançou 18 pontos, tendo crescido três pontos e estando a outros 18 de seu principal concorrente, o deputado Ronaldo Caiado (DEM). Foi um avanço muito bom. É bom lembrar que, quando começamos a campanha, Vilmar estava atrás de Marina Sant’Anna (PT), com 10 pontos porcentuais. Hoje, ela está com esses 10% e nós chegamos a 18%. Isso ainda é aquém do que podemos com a estrutura e a força da coligação de Marconi.

Euler de França Belém — Isso se deve ao fato de ele ser mais desconhecido que os adversários?
Carlos Maranhão — Sim, em parte é isso. Vilmar Rocha nunca tinha dis­putado uma eleição majoritária e ain­da era muito desconhecido no Es­ta­do, sempre foi deputado. Também con­ta a forma de ele fazer política, que nunca foi ostensiva. Ele é um articulador. Tem parlamentar que é de tribuna, ou­tro que é captador de recursos para suas bases e o articulador político, que a­­caba se tornando o menos conhecido dos três tipos. É o caso de Vilmar, sem fazer juízo de valor sobre se há um tipo “melhor” ou não, são formas diferentes de fazer política. Mesmo assim, a­cho que podemos ainda causar alguma surpresa ainda nesta eleição. As pos­si­bi­lidades são menores, mas não são nulas.

Elder Dias — Aécio Neves, o candidato à Presidência pelo PSDB, ensaia um movimento de reação nas pesquisas. Ele tem subido aos poucos nos últimos dias. Faltando dez dias para as eleições, ainda há salvação para sua candidatura?
Paulo de Tarso — Aécio ficou para trás por causa do movimento de comoção que existiu e pelo desgaste de material da bipolarização vermelho-azul [entre PT e PSDB]. Quando apareceu no cenário a possibilidade verde [a candidatura de Marina Silva, pelo PSB], esta se mostrou atrativa. Quando agora se exija que o lado verde se mostre mais claro e se explique, a tendência é que esse espaço diminua, até porque o lado azul tem maior abrangência em termos de força político-partidária. Se existe possibilidade de recuperação de Aécio no sentido de encostar e ultrapassar, sinceramente não sei.
Se fosse para responder secamente, do ponto de vista técnico, não me parece que haja instrumentos para retirar essa diferença tão rapidamente. Estamos falando de tomar de Marina cinco pontos, já que a distância atual é de dez pontos. Não é impossível, mas é uma tarefa muito difícil, na qual o partido inteiro precisa se engajar totalmente, se jogar. E isso não depende tanto dos programas de televisão nem da comunicação, mas da estrutura partidária, organizacional e de poder. Repito, não é impossível, mas é bem difícil. Ele teria de tomar meio ponto dos verdes por dia até a eleição. É uma velocidade muito rápida e que, se olharmos para a tradição brasileira dos últimos anos, ninguém conseguiu. Tudo vai depender de uma fadiga de material da bipolarização azul-vermelha. Se a candidatura da terceira via vai conseguir se manter inteira, isso é a grande dúvida.

Elder Dias — Mas Marina Silva é de fato uma terceira via?
Paulo de Tarso — Marina tem qualificações de terceira via, sim. Nas eleições de 2010, ela conseguiu fazer com que o pleito fosse para o segundo turno. Só isso já mostra que há um posicionamento diferente das outras duas vias, ela passou a existir politicamente como opção. Há, então, um caminho por aí, restam alguns detalhes, mas existe.

Euler de França Belém — A “Folha de S. Paulo” diz que o PMDB continuará sendo decisivo no Congresso Nacional. O sr. concorda com essa afirmativa?
Paulo de Tarso — Não tem como sair disso, enquanto a reforma política não acontecer. E é bom ressaltar que o PMDB também tem quadros interessantes, não dá para demonizar o partido sozinho. De um modo geral, olhando hoje, o PMDB ficou como uma espécie de herdeiro da Arena, ao qual ele era oposição. Nele, se concentraram os sobreviventes do processo político do passado, mais tradicional. Mas não é bom generalizar, há bons quadros no PMDB que podem apoiar uma governabilidade diferente. Mas a afirmação da “Folha” é verdadeira, o partido com maioria no Congresso sempre será aquele que influirá decisivamente nessa governabilidade. E a reforma política trata exatamente da possibilidade de governabilidade, já que a que aí está não parece dar conta do recado.

Elder Dias — É possível governar com os melhores de todos os partidos, como deseja Marina Silva?
Paulo de Tarso — O que é o bem e o mal? É complicado separar o bem e o mal com uma faca. Não tenho por que defender Marina, mas há uma demanda por uma política de mais unidade nacional, pois há um cansaço evidente dessa disputa sem qualificação de “bem contra o mal”, de um eterno “nós contra eles”. Essa é uma democracia pobre e há uma demanda por uma democracia mais rica. Isso envolve todos os players, de situação, de oposição, de terceira via. Isso explica a exigência do eleitorado, que quer uma democracia mais verdadeira, mais rica, de mais debate.
Carlos Maranhão — Mas esse discurso de Marina é um discurso para perder eleição. Seu discurso separa as pessoas dos partidos. É como se ela dissesse que não interessa qual seja seu partido, ela vai querer os melhores. Isso faz com que os partidos não se engajem na campanha dela. Se ela vá para o segundo turno com esse discurso, é meio caminho andado para o fracasso, pois os partidos vão se aliar a quem dará força a eles e não para quem vai pegar quadros isolados, sem compromisso partidário.
Paulo de Tarso — Divergindo e concordando, Marina sempre foi uma pessoa de partido, sempre foi, a vida inteira. O que ocorre agora é uma circunstância em sua carreira. Mas Maranhão tem razão: sem fortalecimento dos partidos não existe enriquecimento da democracia.

Euler de França Belém — Como ficará a posição de Marconi Perillo se houver um segundo turno entre Dilma e Marina?
Carlos Maranhão — Há várias opções, é preciso analisar o quadro. Mas a tendência é de que ele siga o que seu partido definir nacionalmente.

Euler de França Belém — Mas uma questão local pode influenciar. Se houver um segundo turno entre Iris e Marconi, este pode buscar o apoio de Vanderlan Cardoso (PSB) e apoiar Marina.
Carlos Maranhão — O eleitorado gosta da fidelidade das pessoas a princípios e aos partidos. Quem está cometendo um equívoco muito grande é o candidato Iris Rezende, que, ao invés de apoiar a candidata [Dilma Rousseff] de seu partido, por conveniências políticas em relação ao candidato a senador de sua chapa — que é de total oposição ao governo do PT — está se colocando em uma situação de neutralidade que, em minha opinião, chega a ser até um ato de covardia política.

Euler de França Belém — A bola de cristal dos marqueteiros e dos jornalistas é a razão. Então, é difícil falar de 2018 sem ter resolvido 2014. Mas qual é a possibilidade de Lula voltar daqui a quatro anos?
Paulo de Tarso — Se for de sua vontade, é total essa possibilidade. Independentemente de dar Dilma, Marina ou Aécio, creio que Lula será candidato, sim. Se ele voltará forte ou muito forte, há dúvidas, não tenho essa bola de cristal. O desgaste desses primeiros mandatos já foi grande para ele e não sei o que vai acontecer em um próximo. Já disputamos uma eleição, em 1994, na qual tínhamos grande intenção de voto, mas a realidade nos levou a cerca de 30% no resultado final. Não dá para prever, mas, do ponto de vista da razão, Lula é candidatíssimo. Ele só não será candidato se não quiser.

Euler de França Belém — E o PSDB, como ficará? O partido deve investir em quem depois da tentativa com Aécio?
Paulo de Tarso — Falar sobre isso agora ainda é uma temeridade, pois a eleição está acontecendo. Creio que haja basicamente três quadros com maior possibilidade de a­vançar: Beto Richa [governador do Pa­­raná], Geraldo Alckmin [governador de São Paulo] e Marconi Perillo. Isso vai depender também da votação de Aécio. O PSDB de São Paulo tem grandes quadros e o partido é bem or­ga­nizado também em outros Esta­dos, mas vejo o surgimento desses três no­mes como líderes já testados e aprovados.
Existe também a questão do “recall”, da lembrança que vai ficar para o eleitor da figura de Aécio Neves, que é um político muito novo. Então, pode perder uma eleição sem maiores problemas, não se pode tirá-lo desse jogo. A gente tem visto que se repete a estratégia de disputar sucessivas eleições, pois, a partir da segunda, se está mais forte.

Euler de França Belém — O que ocorre em Minas, onde o candidato do PSDB de Aécio, Pimenta da Veiga, está perdendo para Fernando Pimentel (PT)?
Paulo de Tarso — Não sou especialista em política mineira, mas me parece, pelo pouco de pesquisa qualitativa que fiz por lá, é que Pimentel foi um excelente prefeito e Pimenta não tinha um bom “recall”, foi um prefeito que não deu muito certo. Então, batendo novamente no fato concreto, o povo olha para Pimentel, que é mais recente e um político mais novo, e dá um “recall” melhor. Isso leva a pensar em como se dá outro fenômeno, que é o da transferência de voto.

Euler de França Belém — Como se dá esse processo? Aqui em Goiás, parece que Marconi não está fazendo essa transferência de votos para Vilmar.
Paulo de Tarso — Marconi está transferindo seus votos para Vilmar, na medida em que o “recall” dele está subindo, já em 18%. A questão é que não é uma transferência direta, não é automática, mas produzida por uma sequência de fatores. Não há um ungido. Questionando a população de Goiás, observamos que 60% dos eleitores disseram que é “nenhuma”, para seu voto, a importância de um candidato local ser indicado por um candidato à Presidência.

Elder Dias — Então aquela história de eleger um “poste” é controversa, como insinuam que Lula fez com Dilma e Fernando Haddad [prefeito de São Paulo]?
Paulo de Tarso — Totalmente. Para mim, Dilma não tem nada de poste, foi eleita em cima dos espaços de poder que o PT ocupou. O caso de Haddad é um fenômeno um pouco diferente.
Carlos Maranhão — O conjunto da base que apoia Marconi com toda a garra não tem o mesmo vigor para apoiar Vilmar, até porque Caiado fazia parte dessa base também. Boa parte ainda é Marconi e Caiado.

Euler de França Belém — O escândalo da Petrobrás talvez seja um dos maiores do mundo. Mas por que seu conteúdo não reflete tanto nas eleições?
Paulo de Tarso — Porque, de maneira geral, a sociedade não reflete mais com a velocidade da formação de opinião, que hoje é horizontalizada. Hoje não existe mais o formador de opinião, nada mais cai como um raio. As pessoas da base da pirâmide estão preocupadas com a subsistência, com o pagamentos de carnês. Se você somar a isso o fato de que o Brasil tem 51% de analfabetos funcionais, verá que esse contingente consegue compreender apenas de 20% a 30% de um “Jornal Nacional”.
Já nós somos pautados por uma nota nos “Bastidores”, somos outros seres, não dialogamos com a classe lá de baixo, não entendemos que a formação de opinião ocorre lá bem mais lentamente. Outra questão é que a viralização de um caso assim ocorre ou não, isso depende de técnicas, de saber viralizar. A corrupção é um tema importante, mas não é definitivo.

Euler de França Belém — E como o sr. interpreta a classe média em eleições?
Paulo de Tarso — O conceito de classe média mudou. Vamos ver: ren­da familiar de R$ 3 mil pode ser considerado classe média? Essa ascensão é muito pequena e já deu muita confusão de interpretação. No proletariado, há 30% de microempreendedores. Então, como é possível pensar secamente no conflito capital x trabalho?

Tomando a classe média norte-americana, é mais fácil ter dela uma visão mais clara na internet, no Facebook, pois ela perde um pouco do protagonismo. No Brasil já não há um ideal mais de ser de uma classe média como a americana, a juventude não se convence disso, não quer mais brincar de Fred Astaire [ator protagonista do clássico “Dançando na Chuva”] ou ter um Jaguar. Não há mais essa pauta. Vejo as pessoas pensando muito e mostrando como a sociedade é intrincada, como é capaz de absorver os radicalismos à esquerda e à direita, ter as visões mais contrárias e como isso tudo vai causando, em contradições, um resultado muito interessante de formação de consciência. A internet é um grande instrumento de militância hoje.

“Jango não cometeu um único atentado à Constituição”

Euler de França Belém — O sr. é responsável pelo documentário “Jango — Marcado para Cair” a partir do depoimento de Almino Affonso, que viveu todo o governo João Goulart até o último dia, como líder na Câmara do PTB, partido do presidente, e ministro do Trabalho e da Previdência Social. Como foi essa experiência?
Paulo de Tarso — Isso é um pouco de memorialismo meu. O Brasil discutiu muito pouco a verdadeira violência que foi cometida contra a Constituição naquela ocasião. Também houve a violência contra as pessoas, mas a maior violência do golpe de 64 foi contra a Constituição. Nesse sentido, Jango foi o maior presidente que o Brasil já teve, porque foi o único, em um período democrático, derrubado pela força das armas. O projeto dele sofreu interrupção pela força das armas. Jango não cometeu um único atentado contra a Constituição. O que se debate muito pouco é o que levou ao golpe, quais as condições políticas que existiram desde a renúncia de Jânio Quadros até quando há a declaração e que estava vago o cargo de presidente da República. Meu documentário é sobre isso, sobre o período político, sobre San Tiago Dantas [ministro da Fazenda de Jango e um dos grandes responsáveis pela implantação da postura político-econômica do governo], sobre a vida política de Jango, sobre a experiência do parlamentarismo, sobre a situação difícil da posse de Jango e até a própria renúncia de Jânio, que é um episódio muito estranho. O general Golbery do Couto e Silva, que era chefe da Casa Militar do governo Jânio, saiu, depois da renúncia, direto para compor com o marechal Castello Branco [primeiro presidente do regime militar] e com Vernon Walters [adido militar da embaixada dos Estados Unidos no Brasil].

No documentário que estamos fazendo com o dr. Almino — documentário que não é meu, é dele —, ele narra detalhe por detalhe as questões políticas, de enfrentamento político, vistas pelo lado de quem perdeu. É muito interessante para quem goste de política, é muito detalhado. Almino conta coisas como, por exemplo, o telefonema que deu para Jango no dia do golpe. Ele chega ao Congresso e dizem a ele que as tropas do general Mourão [general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar] tinham saído de Juiz de Fora (MG) rumo ao Rio. Então, Almino vai para a casa do senador Arthur Vírgilio, que era líder do PTB no Senado e compartilha a informação.

Então, eles ligam para o presidente no Rio. Jango atende e Almino fica em uma linha e Arthur, em outra. Este, então, informa: “Presidente, estão me informando que as tropas do general Mourão já saíram de Juiz de Fora e estão indo para o Rio.” Isso ao meio-dia de 1º de abril, e as tropas haviam deixado Juiz de Fora às 5 horas da manhã. Então, Jango disse a ele que não tinha essa informação e chama Assis Brasil [general, ministro-chefe da Casa Militar da Presidência], que estava no local com ele: “Assis, o Arthur está a me dizer que as tropas do general Olímpio Mourão estão em movimento para cá”. E Assis Brasil respondeu que eram movimentos de rotina, de treinamento militar. Isso ao meio-dia! Jango pegaria o voo para o Rio Grande do Sul às 16 horas. Logo, o sistema de informação do governo era zero. Ao chegar ao Rio Grande, ainda havia Leonel Brizola [governador] e dois ou três generais que queriam resistir. E Brizola dizendo “onde houver uma única bala vamos resistir”. Mas Jango disse “não” e foi embora para o Uruguai. Ele sabia que era uma guerra perdida, sabia da operação Brother Sam [desencadeada pelo governo dos Estados Unido para apoiar o golpe de 1964]. A chance de reação era zero.

O documentário é essa discussão política, a questão das reformas de base, todo um projeto nacional-trabalhista que, na verdade, conduz o Brasil desde o fim do getulismo até hoje. Continuamos sendo um país desenvolvimentista com distribuição de renda, isso nunca mudou. É algo que remete ao que pensavam Caio Prado Júnior [historiador] e Darcy Ribeiro [antropólogo], entre outros, e que vem sendo interpretado de formas diferentes, seja pelo PT como pelo PSDB como por outras correntes políticas.

 

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