Especial para o Jornal Opção – Desembargador José Carlos de Oliveira

Minha primeira sala de aula foi um acanhado cômodo da nossa casa, na zona rural, eu contava à época seis anos de idade. Meu pai, o meu primeiro professor, havia cursado apenas o antigo ciclo primário – o atual ensino fundamental –, e nunca teve a oportunidade de ler sequer uma página de qualquer obra sobre o processo de ensino/aprendizagem; mas era dotado de extrema intuição e didatismo acerca da arte de ensinar, o que fazia com devoção, seguindo o viés do ensino como instrumento de superação e consequente libertação.

Credito a sua eficiência de ensinar à empatia que sempre manteve com os seus alunos, mesmo alguns sendo seus filhos.

Naqueles tempos, o sistema patriarcal instituía certo distanciamento e temor reverencial. Porém, meu pai, muito acessível e próximo aos filhos, jamais praticou uma educação repressora ou castradora. Ao contrário, idealizava e participava de nossas brincadeiras, envolvendo-se também naquele mundo lúdico.

Quase todas as noites, meu pai, um grande contador de causos e estórias, costumeiramente fazia suas narrativas de estórias conhecidas com adaptações feitas por ele; outras vezes, eram estórias de sua criação, com personagens interessantes. Ele não se limitava à narrativa, representava as características dos personagens e até as vozes dos animais, mamíferos, aves, insetos, répteis, e outros que compunham o enredo.

A psicóloga Mercedes Bermejo diz que “para garantir a aquisição da aprendizagem, esta deve vir unida ao emocional porque com afeto tudo se interioriza melhor”. E nesse sentido, reportome ao significativo depoimento da inigualável poetisa goiana, Cora Coralina, sobre sua trajetória escolar: “foi pela didática paciente da velha mestra, que Aninha, a menina boba da casa da ponte da Lapa, obtusa, do banco das mais atrasadas se desencantou em Cora Coralina”.

Faço essa retrospectiva com o propósito de acentuar sua personalidade alegre e criativa, sempre evidente em nossas aulas. Além de minha irmã Dione e de meu primo/irmão Antônio César, participavam, ainda, outras crianças das redondezas. Lembro-me, também, da presença de alguns adultos, entre os quais, o senhor Bernardo, sexagenário, que aprendeu a ler e a escrever pelas mãos de meu pai, tornando-se um de seus grandes amigos.

Durante sua vida, meu pai nunca ouviu falar de Paulo Freire, mas, ainda assim, jamais exerceu o modelo da educação bancária. Contrariamente, implantou em mim o gérmen da educação libertadora, fazendo com que desenvolvesse o espírito indagador, e com essa orientação ingressei na escola regular. Não obstante certo dessabor já registrado na minha trajetória escolar.

Faço essa retrospectiva com o propósito de acentuar sua personalidade alegre e criativa, sempre evidente em nossas aulas. Além de minha irmã Dione e de meu primo/irmão Antônio César, participavam, ainda, outras crianças das redondezas. Lembro-me, também, da presença de alguns adultos, entre os quais, o senhor Bernardo, sexagenário, que aprendeu a ler e a escrever pelas mãos de meu pai, tornando-se um de seus grandes amigos.

Durante sua vida, meu pai nunca ouviu falar de Paulo Freire, mas, ainda assim, jamais exerceu o modelo da educação bancária. Contrariamente, implantou em mim o gérmen da educação libertadora, fazendo com que desenvolvesse o espírito indagador, e com essa orientação ingressei na escola regular. Não obstante certo dessabor já registrado na minha trajetória escolar.

Com apoio e solidariedade de Dona Doralice de Carvalho Gedda, e superada a fase da tripla repetência no momento da admissão ao ginásio, dei os primeiros passos no sonhado ciclo ginasial.

Lembro-me como se fosse hoje, cursava o ginásio, mais um dia de aula, e a primeira, a “famigerada” matemática. Empolgado adentrei à sala e tomei o lugar de costume na primeira carteira da fila do meio, sempre procurei ficar próximo ao professor (a) para haurir o máximo de conhecimentos, ouvindo e interpretando seu gestual.

Como sempre, eis que o mestre, pontualíssimo, posta-se à porta, momento em que nós, como de costume naquela época, com reverência, levantamo-nos até que sinalizasse para que pudéssemos assentar.

Em seguida, o mestre toma seu assento na cátedra e anuncia o conteúdo a ser ministrado naquela oportunidade: fatoração de expressão algébrica. Ato contínuo, rente à lousa, escreve algumas expressões e passa a explicar o desenvolvimento da fatoração.

Com a resolução do primeiro exercício, formalmente indagou-nos:

– Os senhores entenderam?

A classe manteve um silêncio sepulcral, mas eu não entendi a explicação. Frente a minha sede de conhecimento, e visto que nunca, em qualquer oportunidade, jamais afirmei ter compreendido, o que efetivamente não tivesse assimilado, cumpri o protocolo da época, ergui a mão e aguardei que o regente autorizasse a indagação.

E ele:

– Pois não? Qual é a dúvida?

Respondi:

– Desculpe-me, mas ainda não entendi.

E ele:

– Pois bem, vou explicar novamente, preste atenção!

Diante da nova explicação sobre o desenvolvimento da fatoração, olhando-me firme, voltou a indagar-me:

– E agora, entendeu?

Com toda cerimônia, respondi:

– Desculpe-me, professor. Mas ainda não consegui entender. Gostaria de outra explicação.

Naquele momento, percebi que o venerando mestre estava impaciente com minha ousadia na insistência por explicações mais elucidativas.

Com o cenho franzido e olhando por cima dos óculos, murmurou:

– Vou explicar mais uma vez!
Após a terceira explicação, reafirmei a ausência de compreensão do desenvolvimento da equação.

Diante daquela situação, o docente postado à minha frente, fitando-me com olhar firme e
indignado, inquiriu-me:

– Filho, seu pai possui um serrote em casa?

Mesmo já antevendo sua proposição, respondi afirmativamente.

E ele mandou….

– Assim que chegar em casa, peça ao seu pai que serre sua cabeça ao meio, no sentido vertical, e coloque o Scipione¹ dentro, em seguida, feche-a, dessa forma você vai entender!

Confesso que, mesmo ainda adolescente, minha reação foi de extrema pena do professor, ao vê-lo privado da necessária didática, da indispensável postura exemplar para os seus pupilos e sobretudo, da compreensão do ato de ensinar.

Conclusão: através de aulas particulares, ministradas por uma amiga (Maria Madalena “Nina”), superei aquela dificuldade, e de tal sorte livrei-me da necessidade de serrar o crânio.

1 Livro de matemática e aritmética do consagrado autor Scipione Di Pierro Netto.