Francisco Silva Araújo
Francisco Silva Araújo
Francisco Araújo atua no segmento de estudo e degustações de vinhos há mais de 10 anos. Membro da Associação Brasileira de Sommelieres, da Wine Spirit Education Trust Níveis 1, 2 e 3 e da ISG International Sommelier Guild. [email protected]

É possível consumir um vinho brasileiro de qualidade pagando de 50 a 100 reais

O produto nacional tem qualidade, mas a informação a seu respeito não é das melhores e o consumidor tende a avaliá-lo desfavoravelmente em comparação a vinhos chilenos e argentinos

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No Brasil pode-se adquirir vinhos nacionais de 50 até 100 reais que não perdem em nada para os produtos de países vizinhos, como Chile, Argentina e Uruguai. Porém, como é escassa a divulgação de suas qualidades, com comparações técnicas precisas, pouco se diz sobre as virtudes dos vinhos brasileiros. O que fazer? As adegas deveriam trabalhar com maior quantidade de rótulos, porque só assim os vinhos do país se tornarão mais conhecidos. Com apresentação adequada — com as pessoas bebendo por certo tempo e, daí,  adquirindo informações objetivas para comparar — é que se poderá expor um julgamento equilibrado, ponderado e, sobretudo, justo. O que não se deve é dizer: “Não conheço mas não é bom”. Os que conhecem bem vinhos, por tomá-los e estudá-los, sabem que a credibilidade do produto brasileiro é um fato. Mas é preciso criar — mais do que uma publicidade — um discurso técnico abalizado a seu respeito.

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As redes de supermercados já trabalham com vários rótulos com preços de 50 a 100 reais (e até um pouco menos). Só que o modo como tais vinhos são trabalhados é convincente e conveniente para o consumidor. Não há uma pessoa especializada no segmento para auxiliar o consumidor na hora da escolha. O hipermercado Extra, da Avenida D, certa feita colocou dois homens, um mais velho e um mais novo, para orientar os clientes, mas logo depois os retirou — não se sabe por quê. As informações eram básicas, sem uma especialização sofisticada, mas eram úteis.

Há também a questão do acondicionamento. Ao menos nos supermercados, em quase todos, não é o adequado. Em geral, há forte luminosidade e, algumas vezes, grandes vibrações no ambiente.

Preço alto não é necessariamente sinônimo de qualidade

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Há quem acredite que um vinho, por ser considerado caro — há enófilos que apontam que qualidade raramente é cara —, é de mais qualidade do que um vinho um pouco mais barato. Nem sempre é assim. Há variações. Há consumidores que desconfiam do vinho brasileiro se estiver com um preço um pouco mais baixo do que um vinho chileno, argentino ou uruguaio. A tendência é comparar desfavoravelmente os vinhos produzidos no Brasil em relação aos vinhos importados dos países vizinhos e de outros países. Não se está defendendo, claro, que os vinhos importados são piores, com o objetivo de defender o produto nacional, e sim buscando um julgamento mais amplo e objetivo. O que se sugere é que o brasileiro tome o vinho produzido em seu país, durante algum tempo, e, aos poucos, comece a compará-lo. Não se trata de depreciar o importado e enaltecer o nacional, e sim, insisto, de buscar uma avaliação menos, digamos, provinciana.

Os vinhos brasileiros são, por assim dizer, “mais naturais” em comparação com os vinhos dos países mencionados acima. O enólogo francês Denis Dubourdieu, um dos profissionais mais respeitados da França, presta consultoria para mais de 40 vinícolas da Europa. O especialista, que faz um dos vinhos mais caros do mundo — o Chateau de Yquem —, relatou, numa revista, que, se o consumidor não melhora, é quase impossível o produto melhorar.

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Denis Dubourdieu sublinhou que os vinhos do Chile e da Argentina são todos semelhantes. Apesar de respeitá-lo, não acato sua avaliação. Porém, se estivermos falando de vinhos que colaboram para que você tenha uma visão mais adequada — nem diria precisa — do mundo dos vinhos, o enólogo francês não está enganado. Explico-me: os vinhos de ambos os países não ajudam na evolução daquele que se interessa pelo assunto porque tem bastante extrato e são muito exuberantes — com quase nenhuma elegância.

Vários especialistas dizem que nossos vinhos são muito bons. O que falta? Os produtores investirem no que fazem de melhor e, também, deixarem de imitar os países vizinhos. Afinal, nossos produtos são muito mais naturais.

Mas há, de fato, um problema crucial: os impostos são muito altos e quase não há incentivo por parte dos governantes. Vinho não é um produto comum, exige certa sofisticação no cultivo da uva e na sua fabricação. Precisa-se, inclusive, de tempo para apurar os produtos. Portanto, deveria ser mais incentivado pelo governo — assim como ocorre noutros países. Vinho é uma divisa importante e confere relevância às economias nacionais.

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O consumidor é sujeito de suas ações, mas é claramente influenciado pela publicidade ou pela mídia e até pelo popular boca-a-boca. Por isso, muitas vezes, segue “marcas”, sem avaliá-las com precisão. Por não ter informação de qualidade, contraditada, às vezes compra gato por lebre, quer dizer, troca a qualidade pela fama. Há o caso de consumidores que se apegam aos “reservados” e “reservas” — D O.A O P. OU A O C. D O C G.

De fato, a legislação amplia a segurança para produtores e consumidores. Mas não assegura que você vai apreciar o vinho. Tão-somente garante segurança de que as vinhas são bem conduzidas. Para se obter um vinho de boa estrutura, com maior maturação, os vinhedos precisam estar mais próximo do Equador. Os que ficam mais longe são menos estruturados e de pouca elegância.

O sommelier não é um ditador, portanto o diálogo entre apreciadores de vinho é vital (as confrarias são importantes). Mas o sommelier é o profissional que produz segurança ao fornecer informação de qualidade, segura e independente. Na hora de escolher um vinho, que não precisa ser caro para ter qualidade, aquele que estudou e estuda — um sommelier é um eterno estudante — é decisivo na orientação.

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