Flávio Rodrigues
Flávio Rodrigues
Conselheiro Substituto no TCE/GO

Coprofagia na política, esse mau hábito nacional

Fosse o caso, tudo bem que em um país que insiste em se fazer famoso pelo apreço a glúteos, o hábito da coprofagia não soaria estranho, dada a funcionalidade daquela região anatômica. O danado é não sê-lo no mundo real (entre os desvios comportamentais que há por aí, esse não é reportado como de grande incidência), mas sê-lo no campo social, em especial o político.

Antes de mais nada, para que fique bem claro, não estou aqui a escrever para os que, por vontade própria ou cabresto, sufragam seu voto em favor de gente sem nenhuma grandeza, pois esses são difíceis de salvar. Afinal de contas, beneficiários de populistas esmolas, apaniguados de toda sorte, gente que entra no emprego público pela porta dos fundos, oprimidos de ocasião, minorias convenientes, corruptos e outros quetais não podem mesmo agir diferente já que, por serem incapazes de lutar pela vida, devem subserviência a quem lhes dá paga.

Ao contrário, refiro-me a você, homem e mulher comuns que, independente de cor, credo ou origem social, operam a vida com dignidade, estudando, trabalhando, pagando impostos, criando filhos e, principalmente, respeitando as leis, o mérito e os princípios da liberdade e da propriedade. Por que, pergunto eu, você aplaude o político com ‘p’ minúsculo? Por que permanece no mesmo recinto quando ele chega? Por que não o vaia quando ele passa? Por que não luta para tirá-lo do poder? Por que o admite? Enfim, por que o ingere?

Caso você não saiba, o mau político só está lá porque foi colocado. Não porque tenha sangue azul, parentesco com o Criador ou coisas do gênero. Como o próprio verbo revela, ele ‘está’, ele não ‘é’. Sendo assim, da mesma forma como foi colocado, ele pode e deve ser retirado. A bem da verdade, sequer deveria ter chegado lá, mas, já que chegou …

Assim, é de se pensar sobre se o sujeito ficha-suja, ou o que enriqueceu por ter-se descoberto um Midas coincidentemente após ingressar na política, ou o que não tem formação adequada (a ignorância nunca foi uma boa conselheira), ou o conhecido malandro, ou o garoto-problema daquela tradicional família, ou o que nunca abriria seus sigilos bancário e fiscal, enfim, é de se pensar se toda essa gente tem por que ser admitida na política, muito menos prestigiada? Minha opinião – e creio também seja a sua, para quem escrevo – é que não.

Decerto, você deve estar pensando que as alternativas são poucas; que no meio de todo esse joio quase não há trigo. Disso não posso discordar. Afinal, poucos são os políticos com ‘P’ maiúsculo, daqueles para quem, acima dos jogos de poder, sobressai o futuro da nação. Todavia, é de se esperar que não esperemos, mas, antes, que façamos.

Nesse sentido, é imperioso que paremos de aplaudir a condução da coisa pública por executivos sem tutano ou por velhacos que fazem pouco caso do conhecimento, em prol da ‘esperteza’. É fundamental que paremos de aceitar o populismo torpe, rasteiro, que usa e abusa de esmolas para enfraquecer almas e formar rebanhos de eleitores. É indispensável que paremos de admitir malandros que enriqueceram com e pela vida pública, por só depois dela terem se descoberto ‘fadados ao sucesso’. É tardio que paremos de avalizar os perdidos-em-si-mesmos, aqueles cujos vícios de alma não lhes permitem outro objetivo na vida senão conspurcar a família, os princípios sociais e os bons costumes.

Enfim, é passada a hora de impedir que toda a gente dessa laia se torne “doutor fulano” ou “sua excelência, sicrano”, valendo-se, como tal, de nossa dignidade para aplacar sua sanha pelo poder, pelo auto-enriquecimento sem causa e pela amoralidade. Definitivamente, eles não merecem estar lá, muito menos ser ingeridos. Não por menos, a natureza a todos nos dotou de um nariz sobre a boca.

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