Alexandre Parrode

Prevenção ao suicídio passa muito mais pelo debate social do que pela espetacularização da mídia

Série “13 Reasons Why” traz à tona debate importante sobre o tema, que ainda é tabu em todo o mundo

Personagem da série “13 Reasons Why”: o suicídio como (falsa) única saída para as dificuldades da adolescência | Foto: Reprodução

Se você possui alguma rede social com certeza já leu, ou pelo menos viu alguém falando, sobre “13 Reasons Why” (Os 13 porquês). A polêmica série da Ne­tflix que tem dividido especialistas por todo o mundo conta a história da garota Hannah Baker (Katherine Langford), de 17 anos, que, por diversos motivos, acaba tirando a própria vida.

Ao primeiro contato, parece que se trata de um romance sobre suicídio: estudante de ensino médio, a protagonista sofre as agruras da adolescência, cai em depressão; adoecida mentalmente e sem ajuda profissional, acaba tendo um fim trágico. No entanto, vários temas importantes, embora pareçam secundários, como estupro, bullying, machismo, LGBTfobia e o papel da escola são colocados à mesa.

Acredito que, por esse lado, a série cumpre um papel importante: até que ponto a sociedade se furtará de discutir como, desde muito jovens, as minorias sofrem e são oprimidas — mesmo que Hannah esteja longe de ser vítima de preconceito, afinal, é branca, heterossexual, cis (que se identifica com sua configuração genital e hormonal) e bonita. No Brasil, homossexuais, negros e pobres estão constantemente sob ataques diversos, bem parecidos com os da própria série. Por vezes a protagonista cita que a maior violência que sofreu foi o silêncio: os colegas viam o que lhe acontecia, mas apenas desviavam o olhar. Esta é a realidade que precisamos lutar contra, não só aqui, mas em todo o mundo.

No entanto, os questionamentos sobre a maneira como os autores retrataram o suicídio merecem, sim, ser levados em conta. Nós, jornalistas, aprendemos logo nos primeiros semestres do curso de comunicação social que não se deve divulgar casos de suicídio. O motivo é simples: noticiá-los pode acabar in­fluenciando pessoas que também estão doentes, sofrendo emocional e psicologicamente, a seguir o mesmo caminho. Casos de grande repercussão mundial, como foram os da bela atriz Marilyn Monroe e do roqueiro Kurt Cobain, glamuorizam o suicídio e podem promover o chamado “efeito Werther”.

Trata-se de um termo da psicanálise que relaciona o efeito cascata, uma espécie de histeria coletiva, que eclode após a espetacularização/superexposição do assunto pelos meios de comunicação. Há estudos científicos que relacionam o aumento no número de suicídios à proporção que são noticiados, bem como a influência de casos simbólicos. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS), por meio de seu Manual de Prevenção ao Suicídio, reconhece a existência do fenômeno. O nome efeito Werther vem do personagem principal do romance de Johann Wolfgang Goethe, “Os sofrimentos do Jo­vem Werther” (de 1774), que narra a melancolia de um rapaz da aristocracia alemã que se apaixona mas acaba não correspondido e dá um tiro na própria cabeça.

Então, será que devemos mesmo falar sobre o suicídio? A pergunta não deveria ser essa, mas, sim, como deveríamos falar sobre o suicídio. Seria divulgando cartas de despedida, romantizando a tragédia e/ou mostrando como a vítima tirou a própria vida? Eviden­temente não. Neste aspecto “13 Reasons Why” peca (e muito). É absolutamente desnecessária a cena em que a jovem garota entra na banheira e comete o ato. Além de muito triste, funciona como uma espécie de tutorial. Confesso que me senti muito mal ao assisti-la e penso que o exato momento vende a ideia de que aquele é o único caminho a se seguir — outra grotesca falha e, enfatizo, mentira contada pela série.

Segundo a própria OMS, as taxas de suicídio aumentaram 60% nos últimos 50 anos. Estima-se que, a cada ano, 1 milhão de pessoas se vitimem em todo o mun­do. O Brasil é o oitavo país com os maiores números e, apenas em 2012, foram registradas 11.821 mortes. O tabu impede que tratemos o tema com a profundidade necessária. Impede que famílias e escolas conversem abertamente com crianças e adolescentes, que centros de proteção estejam disponíveis e preparados, e, claro, que nos sensibilizemos pelo momento de dor e sofrimento por que passam nossos semelhantes.

Atualmente, o Centro de Valorização da Vida (CVV) cumpre um papel fundamental na prevenção ao suicídio (o telefone é 141 e o site oficial é http://www.cvv.org.br/). Porém, quem conhecia a organização antes de ler este artigo ou outras críticas à série? Há uma parceria entre os produtores e o CVV, mas não sabemos porque não há qualquer menção — outro erro de 13 Reasons Why.

A mídia cumpre um papel importante na construção social, democratizando a informação e promovendo os direitos humanos, e pode contribuir para a prevenção, conscientização, bem como a própria valorização da vida. Agora, cabe a nós todos lutar contra qualquer tipo de violência, preconceito e abusos. “13 Reasons Why” mostra como as escolas se tornaram verdadeiros antros de sofrimento, seja por falta de capacitação de diretores ou mesmo pela imprudência de alguns. Escancarou como a juventude precisa urgentemente ser apresentada a valores como o civismo e a cidadania. Abriu os olhos de pais, que precisam conversar, prestar atenção a determinados comportamentos e, jamais, ignorar os sentimentos dos filhos. E, principalmente, tentou mostrar para os que estão em sofrimento que há uma saída, que a vida pode (e vai) melhorar.

2 respostas para “Prevenção ao suicídio passa muito mais pelo debate social do que pela espetacularização da mídia”

  1. Manu Marques disse:

    Excelente reflexão sobre a série e principalmente sobre o tema que PRECISA ser discutido!!!

  2. everaldo disse:

    parabens pela materia.

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