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Alexandre Parrode

Falta de civilidade: um mal a ser combatido

Em pleno 2017, chega a ser absurdo ter que tratar de direitos sociais que parecem tão básicos, mas são difíceis de garantir

Manter vagas exclusivas de idosos ou portadores de necessidades especiais vazias é difícil, pois há sempre aquele cuja falta de civilidade ultrapassa os limites do bom senso| Foto: Joel Rocha/SMCS

Estava eu caminhando pela rua de casa na manhã da quinta-feira, 20, quando percebi que estacionava, ao meu lado, um daqueles carrões SUV da moda, preto, reluzente, parecendo que recém saíra da concessionária… Meus olhos chegaram a brilhar. Mas, infelizmente, o deslumbre acabou rapidinho: o motorista parou bem em frente à rampa de acessibilidade para portadores de necessidades especiais. Sem sequer perceber, o homem, que aparentava ter seus 40 anos, desceu apressado, ativou o alarme e se dirigiu à portaria do prédio vizinho. Não se importou.

É incrível como a sociedade, em especial a goianiense, tem pouquíssimo respeito para com o coletivo. A falta de civilidade (a ideia de que seres humanos podem conviver bem, construindo e defendendo o interesse comum) chega a níveis estratosféricos naquela eu gosto de chamar “elite bovina” de Goiânia. Basta dar um passeio nos shoppings da capital para perceber que, mesmo com legislação e fiscalização (a Secretaria Municipal de Trânsito cumpre um papel importante), não faltam espertinhos que estacionam nas vagas reservadas a idosos e PNE. O mes­mo acontece nas portas de agências bancárias e comércios em geral. A desculpa é sempre a mesma: “É só um minutinho, estou com pressa”.

Quem leva e busca crianças nas es­colas não passa um dia sem ver aquela mamãe ou aquele papai que estaciona em fila dupla para poder deixar os pimpolhos. Há também aqueles que param em esquinas, na porta da garagem dos outros e até em estacionamentos privados: o desrespeito, aqui, é generalizado. Todos, claro, têm um motivo plausível para cometer ilegalidades. É o mesmo caso dos playboys que furam sinal, tentam ultrapassar pela pista da direita, avançam na contramão. Deixo de lado um pouco os crimes de trânsito que citei, mas questiono mesmo o respeito, a empatia, a compreensão de que sua vida não está acima de outras.

Chegamos a um ponto em que a indiferença para com o coletivo se tornou cultural. O conceito de público se deteriorou e, hoje, é sinônimo de “propriedade de ninguém”, quando na verdade deveria ser de todos. Um dia desses fiz uma matéria para o Jornal Opção sobre as manifestações contra a corrupção que tomaram o país em 2015 e 2016, mostrando como o problema é sempre a corrupção alheia, nunca a nossa. Fotografei dezenas de carros estacionados em cima da calçada, trafegando pela faixa exclusiva de ciclistas: um verdadeiro show de horrores promovido por aqueles que estavam “fartos” com os políticos.

Penso que o ódio de alguns para com a classe política é pura frustração de não ter a oportunidade de “ganhar” dinheiro e poder facilmente. Ficam mordidos, mas se estivessem no mesmo lugar fariam o mesmo, ou até pior. O comportamento na sociedade comprova isso. Como pode, em pleno 2017, ha­ver gente que joga lixo na rua? Abrem a janela dos carrões, como aquele que descrevi ali em cima, e arremessam latinha de refrigerante, papel de balinha, restos de comida. “Melhor sujar a rua do que meu carro”, pensam. Tamanha falta de civilidade mostra como estamos mais preocupados com o que é privado, esquecendo que aquela embalagem atirada no chão vai entupir (ainda mais) os bueiros, poluir o meio ambiente e emporcalhar a cidade. Talvez porque os mais abastados não sejam vítimas de enchentes (pelo menos em Goiânia) ou porque não estão nada preocupados com os recursos hídricos.

Existe hoje uma crise de civilidade que precisa ser urgentemente vencida: a falta de compaixão chega a níveis preocupantes – talvez esse seja um dos motivos da grande ascensão do extremismo no Brasil. Precisamos vencer o egoísmo e entender que nem tudo aquilo que é bom para mim mesmo é bom para todo o coletivo. Na última coluna, escrevi sobre o suicídio e a espetacularização do sofrimento alheio. Entrou para o centro do debate social o jogo da Baleia Azul (Blue Whale), desafio que incita pessoas ao suicídio. Vi nas redes sociais pessoas fazendo troça, postando fotos da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) vestida de azul e chinelos Havaianas azuis, sem se preocupar com a gravidade do caso. Relativi­zam a dor dos outros sem a menor reflexão.

Não se trata de politicamente correto ou não, falo da vida de jovens que foram (e podem ser) perdidas por um jogo macabro. Em vez de conscientizar, conversar com os amigos e seguidores, internautas pre­ferem fazer “zoeira” sobre algo tão grave. Falar em civilidade não é tor­nar o “mundo mais chato” ou “impor regras” a tudo. Pelo contrário, ser civilizado é manter o bom relacionamento de todos os entes sociais, sem discriminar nenhum deles. Garantir a igualdade de direitos, como o de um PNE se locomover com segurança pela cidade, não pode ser visto, jamais, como privilégio. É justiça.

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