Alexandre Parrode

Discurso de ódio nosso de cada dia

AVC de Marisa Letícia, esposa de Lula, foi exaltado por usuários nas redes sociais, em mais um lamentável episódio de intolerância no Brasil

Foto: Heinrich Aikawa/ Instituto Lula

Na última coluna, escrevi sobre o caso de racismo contra a cantora Ludmilla, protagonizado por um apresentador de TV que a chamou de “macaca” ao vivo. Entre os comentários de apoio e pedidos para que a artista leve o caso à Justiça, vi alguns que tentavam eximir a culpa e relativizar o comentário criminoso do jornalista. Assusta-me que, em pleno 2017, casos de violência contra seres humanos continuem a acontecer e, pior, sejam tratados com naturalidade, como se o preconceito fosse justificável.

Nesta semana, volto a falar sobre o discurso de ódio do submundo da internet, desta vez contra a ex-primeira-dama do Brasil, Marisa Letícia. A esposa do ex-presidente Luiz Inácio Lu­la da Silva sofreu um Acidente Vas­cular Cerebral (AVC) e foi levada às pressas para o Hospital Sírio-Libanês, onde esteve na UTI e passou por cirurgia para controlar a hemorragia no cérebro. Não demorou muito para que os comentários das notícias no Facebook dos principais jornais fossem inundados de absurdos diversos.

A edição online do Jornal Opção registrou alguns deles. Nos sórdidos posts, vemos pessoas comemorando, fazendo troça e até dizendo que Marisa Letícia está “colhendo o que plantou”. Os ataques não se restringiram ao mun­do virtual: quatro mulheres fo­ram à porta do hospital, em São Pau­lo, com cartazes do tipo “Cadê os mé­dicos cubanos?” e “Vai para o SUS”.

Além da evidente falta de respeito com a família, que passa por um mo­mento delicado, tais ataques exacerbam a falta de civilidade e a perda da compaixão de uma parte (que não é pequena, registre-se) da população. Vivemos tempos de extremismo no Brasil. A crise econômica, o descrédito da classe política e a falta de esperança que tomou o país nos últimos dois anos acabam fazendo com que posturas como a das quatro “sem-noção” ali de cima acabem sendo consideradas “compreensíveis”.

Manifestações são legítimas e fortalecem a democracia. Os brasileiros apren­deram que reivindicar direitos só é possível por meio de uma sociedade organizada, vigilante e exigente. Inde­pendente de cor partidária, os variados protestos que tomaram as ruas desde 2013 são bons exemplos de como ex­ter­nar indignação. Ir para as redes so­ciais e desejar a morte de uma pessoa, não.

Alguns sugerem que se tratam de questionamentos, do tipo “como um ex-o­perário consegue pagar os serviços do Sí­rio-Libanês, um dos melhores hospitais do Brasil?” ou mesmo de que se trata de uma profunda indignação contra Lula e sua família, “que le­vou a corrupção no go­verno a níveis nunca antes vistos”. No­vamente, nada dis­so pode servir de escusa pa­ra desejar/comemorar a doença ou a morte de uma pessoa. Piadinhas à parte, tais co­mentários escondem um discurso de ódio que têm ganhado fôlego com a as­censão do extremismo por todo o mundo.

Seja na boca de líderes internacionais, como Donald Trump, ou de de­pu­tados, como Jair Bolsonaro (PP-RJ), a intolerância e incapacidade de se ter empatia para com os outros é u­ma realidade perigosa. Sem muito trabalho, consegui pensar em dois ca­sos recentes de barbáries que foram jus­tificadas nas redes sociais pelo pessoal da patrulha do “anti-politicamente-correto”, que nada mais é do que o dis­curso de ódio em sua forma mais pura.

O primeiro deles, de um crime que aconteceu em Goiânia (GO), envolvendo um pai que matou o próprio filho por desavenças políticas. Militante de es­querda, Guilherme Irish, como era co­nhecido, foi baleado no meio da rua após uma discussão em novembro do ano passado. Vítima, o jovem de 20 anos, acabou sendo culpado por sua morte. “Tenho pena do pai, que criou o filho com esforço e viu se tornar isso. O pai sim pode se considerar uma vítima da sociedade”, escreveu um. Outro u­suário foi além e escancarou a desumanidade: “Menos um esquerdista destruidor de patrimônio público, quem for contra minha opinião vai tomar no…”.

Tão cruel como o caso de outro jovem, Itaberli Lozano, de apenas 17 anos, que foi morto e carbonizado pela mãe no interior de São Paulo em dezembro de 2016. Homossexual, ele foi acusado de envolvimento com drogas em uma tentativa de justificar a atitude grotesca de sua progenitora. Mas não para por aí: comentários de toda sorte também enfeitam posts de veículos de comunicação. “Gay e maconheiro, que desgraça; queimava a rosca e financiava o tráfico, tinha que morrer mesmo!”, destilou um usuário.

É preciso parar de aceitar que se re­lativizem a dor e o sofrimento de outras pessoas. Sob a égide da “liberdade de expressão” e do discurso da “indignação”, destila-se ódio, que por sua vez, fortalece preconceitos. Marisa Letícia não merecia ter um AVC. Não “colheu o que plantou”. Não está pagando pelos (supostos) crimes que seu marido cometeu. Não tem que morrer. O que precisa morrer é a intolerância.

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