Alexandre Parrode
Alexandre Parrode

Caso José Mayer e a relativização da violência contra a mulher

Após ser afastado da Globo por assediar uma figurinista, ator recebeu apoio de outros homens, que insistem em dirimir a gravidade do assédio

José Mayer | Foto: Divulgação/TV Globo

Há algum tempo escrevi aqui em Redes sobre co­mo as mulheres vi­vem em constante tormenta e totalmente inseguras, independente de classe social, cor e região do país. Apesar das negras e pobres sofrerem mais, uma coisa é certa no Brasil: a clara da vulnerabilidade em que toda mulher se encontra.

Na semana passada, mais um lamentável episódio envolvendo mnisoginia e crime ganhou re­percussão nacional: a figurinista Susllem Tonani acusou o ator Jo­sé Mayer, 67, da Rede Globo, de as­sédio sexual. Em um texto cho­cante publicado no blog “#A­go­raé­que­sãoelas”, do jornal “Fo­lha de S.Paulo”, a jovem, de ape­nas 28 anos, narrou diversos epi­sódios em que foi abusada pelo “galã” da novela “A Lei do Amor”.

“Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo. Elas? Elas, que poderiam es­tar no meu lugar, não ficaram cons­trangidas. Chegaram até a rir de sua ‘piada’. Eu? Eu me vi só, des­protegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali. Não havia cumplicidade, sororidade”, narrou ela.

O relato é bem chocante (pode ser conferido na íntegra aqui), mas escancara como homens ainda se sentem superiores e em uma posição de domínio para com as mulheres. Não bastassem receber mais; dominar o Congresso Nacional, os palácios de governos, prefeituras e Câmara Municipais; acumularem incontáveis privilégios, ainda são capazes de subjugar uma classe que consideram “inferior”. Não obstante, o que me pasma é ver que ainda há quem os defenda.

No episódio José Mayer, que, para mim, deveria ter sido sumariamente desligado da empresa e virado alvo de investigação policial, a Rede Globo preferiu colocar panos quentes e “apurar” as denúncias no primeiro momento. Ele negou veementemente, mas não foi o suficiente. Uma cam­panha de funcionários da emissora ganhou grande repercussão nacional: “Mexeu com uma, mexeu com todas”, gritavam. dias depois a verdade veio à tona.

“Eu errei. Errei no que fiz, no que falei, e no que pensava. A atitude correta é pedir desculpas. Mas isso só não basta. É preciso um reconhecimento público que faço agora. Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Sou responsável pelo que faço”, escreveu em uma esdrúxula nota de esclarecimento.

Brincadeiras. Seria essa a palavra correta para definir o que Mayer e tantos outros (incluindo políticos, humoristas e personalidades) fazem todos os dias? Quando Donald Trump, o infame presidente dos Estados Unidos, disse em um programa de rádio que chegava beijando mulheres, sem perguntar nem falar nada, pois quando se é “uma estrela”, “você pode fazer o que quiser”; ou quando disse que “agarrava mulheres pela buceta”, foi apenas ele sendo um piadista? Parece muito engraçado mesmo. Será que, na semana passada, quando Jair Bolsonaro (PSC-RJ) disse que teve cinco filhos, os quatro primeiros foram homens, mas na última ele deu uma “fraquejada” e veio mulher; ou ainda ao vociferar que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT-RS) porque ela não merecia, foram anedotas retiradas de um livro de piadas? E quando o jovem cantor Biel, de apenas 21 anos, escreveu no Twitter que quando um homem descobre que está sendo traído pela companheira não deve brigar com o outro cara mas, sim, bater na mulher? Um chiste juvenil?

Infelizmente, a capacidade de alguns seres e de grupos sociais de relativizar a violência, o machismo e a misoginia tem tomado proporções assustadoras. Cada vez mais escutamos/lemos termos como “politicamente correto” ou “problematização excessiva” quando se trata de mulheres, LGBT e minorias. Os dominadores, que se deleitam nos privilégios que a sociedade historicamente os entrega, não aceitam que os dominados se rebelem e, agora, não aceitem nem um direito a menos. As mulheres querem poder andar na rua sem medo de serem violentadas; os gays querem ter suas relações reconhecidas pelo Estado; os negros querem entrar em uma loja sem serem ignorados pelos vendedores. Pequenos direitos que são negados a essas populações todos os dias e, embora, aquele grupo social retrógrado esperneie, não há volta.

José Mayer recebeu alguns apoios, incluindo o do ator Caio Blat – a quem eu admirava muito -, que criticou a decisão da Globo de o retirar da novela e classificou o assédio como… Isso mesmo, uma “brincadeira”. “Ele não representa ameaça a ninguém”, disse em coletiva de imprensa. Claro, Caio, a você ele pode não representar perigo. Agora, tenho certeza que Su se recusará a concordar. Assim como milhares de mulheres que são violentadas, estupradas, espancadas, ameaçadas em todo o país. Não podemos, de forma alguma, questionar o impacto do abuso, porque só as vítimas podem falar sobre tal. É simples assim: se você não é negro, não consegue nem “imaginar” o que é sofrer racismo; se não é mulher, não pode decidir o que é ou não machismo; se não é homossexual, não entende o que é a opressão contra os efeminados.

Alguns dizem que o mal do século é a depressão, outros apontam o câncer, eu aposto na falta de humanidade. Vivemos tempos sombrios, nos quais somos incapazes de nos sensibilizarmos com a dor do outro, com o sofrimento que este experimenta. Questionamos tudo aquilo que é alheio a nós apenas porque não entendemos, ou mesmo aceitamos. Deixamos que o ódio e a intolerância se sobreponham sobre a empatia e compreensão.
Tempos sombrios vivemos.

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