Marcelo Mariano
Marcelo Mariano

Wahhabismo: a ideologia por trás do ataque de Manchester

Ideologia ultraconservadora é a base de grupos terroristas da atualidade e de um país que mantém relações próximas com o Ocidente

Charge ironizando a relação entre os governos britânico e saudita | Foto: Reprodução / Facebook

O ataque terroista ocorrido na saída do show da cantora Ariana Grande em Manchester na segunda-feira (22/5) deixou 22 mortos e 64 feridos. Foi o pior em solo britânico desde 2005, quando explosões no sistema de transporte público de Londres fizeram 52 vítimas fatais.

Responsável pelo ataque, Salman Abedi é filho de líbios, mas nasceu na própria cidade de Manchester. Nota-se, portanto, um problema que se estende a outros países da Europa, como a França: integração da população estrangeira.

Faltam políticas públicas e essa marginalização faz dos imigrantes alvos de extremistas, que acabam radicalizando-os. Não podemos esquecer que os terroristas de Paris e Bruxelas, por exemplo, eram todos cidadãos europeus. Além disso, tinham laços com o Estado Islâmico, também chamado de Daesh. E é necessário analisar a ideologia que move o autoproclamado califado.

Wahhabismo

Ainda durante o Império Otomano, Muhammad ibn al-Wahhab’Abd, erudito muçulmano contrário ao islã difundido pelos otomanos, se aliou com Muhammad ibn Saud e juntos formaram, em 1744, o primeiro reino saudita (de “Saud”), conhecido como Emirado de Diriyah, que se baseava no wahhabismo (de “Wahhab”), a recém-criada vertente ultraconservadora do islamismo sunita.

Após a guerra otomano-saudita (1811-1818), o Emirado de Diriyah se esfacelou e, com isso, o wahhabismo perdeu força. No século seguinte, formou-se o Reino da Arábia Saudita no período entre as duas grandes Guerras Mundiais, retomando, dessa forma, a ideologia wahhabita. Com a descoberta de petróleo, o wahhabismo passou a recuperar a sua força à medida em que o Estado saudita crescia economicamente. Hoje, é seguido também pelo Estado Islâmico, al-Qaeda e Boko Haram, dentre outros grupos terroristas.

A Arábia Saudita, onde mulheres não podem dirigir, financia essa ideologia extremista mundo afora por meio de mesquitas e madraças. Para que se tenha uma noção, em Molenbeek, bairro de Bruxelas conhecido internacionalmente como celeiro de terroristas e de onde vieram os mentores dos ataques de Paris, há 22 mesquitas patrocinadas pela Arábia Saudita, país onde decapitações em praça pública são comuns, fazendo com que seja chamado por alguns de “White ISIS” (ISIS Branco), em alusão à vestimenta típica da região, sendo esta uma diferença entre eles e os terroristas do Estado Islâmico, que vestem preto.

Ocidente e Arábia Saudita

Paradoxalmente, a Arábia Saudita é uma grande aliada de países ocidentais. Em sua primeira visita como presidente dos Estados Unidos, Donald Trump foi até lá e fechou um acordo de quase 110 bilhões de dólares em armas. A primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, também esteve em terras sauditas recentemente. Pouco mais de um mês depois, aconteceu o ataque de Manchester.

Manter relações desse nível com a Arábia Saudita não é a forma mais eficiente de se combater o terrorismo. Daqui duas semanas, os britânicos vão às urnas. May é a favorita nas pesquisas e deve ser reeleita. Paris, Bruxelas, Nice, Berlim, Estocolmo, Londres e Manchester. Onde será o próximo atentado?

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