Marcelo Mariano
Marcelo Mariano

Turquia: peça-chave no tabuleiro geopolítico da Europa

Turquia e Europa passam por uma crise diplomática e turcos podem ser decisivos em um ano com eleições importantes em países europeus

Reprodução

O estreito de Bósforo, em Istambul, divide a Turquia em dois lados: o asiático e o europeu. Poucos países têm o privilégio de dizer que pertencem a mais de um continente (Rússia e Egito são outros exemplos). Além disso, A Turquia é o único país no mundo que faz fronteira, ao mesmo tempo, com a Síria, o Iraque e a União Europeia.

É inegável a sua importância geopolítica, principalmente com o fluxo de refugiados recente. Muitos escolhem a Turquia como rota para a Europa, uma vez que este é o caminho mais viável, já que uma outra opção seria partir da Líbia, no norte da África, e cruzar todo o Mar Mediterrâneo a bordo de botes clandestinos em direção à Itália.

No entanto, a referida viabilidade não garante segurança. Ninguém se esquece de Aylan Kurdi, menino cuja foto em que aparece morto em uma praia turca rodou o mundo. Os noticiários daquela época (final de 2015) davam a impressão de que os refugiados não iam parar de chegar à Europa. Mas eles foram parados.

Um pacto entre Turquia e Europa foi firmado no início do ano passado com esse objetivo. Os turcos teriam de se comprometer a fazer um controle mais rígido nas suas fronteiras e, em troca, receberiam ajuda financeira, abolição de visto e estreitamento de relações. Por isso, os refugiados passaram a pautar a mídia internacional em menor escala.

O pacto estava funcionando bem, até o governo holandês impedir a aterrissagem do voo do chanceler turco, Mevlut Cavusoglu, pouco menos de duas semanas atrás. Cavusoglu pretendia participar de um comício em Roterdã ao lado de imigrantes turcos com o propósito de apoiar um referendo em abril que visa garantir mais poderes ao presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, transformando a república parlamentarista em presidencialista.

A crise diplomática se deu dias antes das eleições na Holanda e a atitude do governo foi vista como campanha eleitoral. O primeiro-ministro Mark Rutte estava perdendo votos para o candidato anti-imigração Geert Wilders. Logo após o ocorrido, Rutte adotou parte do discurso de Wilders e disse que os imigrantes deveriam sair do país se não respeitassem os costumes locais. Claramente, queria ganhar o eleitorado. Acabou sendo reeleito.

A reeleição pode, entretanto, custar caro. A Turquia suspendeu relações com a Holanda e a acusou de nazista, enquanto o vice-chanceler da Alemanha, Sigmar Gabriel, disse que os turcos nunca estiveram tão longe da adesão à União Europeia, almejada desde de 1987. Mas o que Erdoğan realmente quer agora é um pedido de desculpas por parte dos líderes europeus – aumentaria sua popularidade às vésperas do referendo. Se isso não acontecer, o pacto mencionado anteriormente pode vir a ser rompido e um novo fluxo de refugiados seria decisivo para o futuro da Europa em um ano em que franceses e alemães ainda vão às urnas.

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