Marcelo Mariano

Resquício colonial da Europa na América do Sul se revolta contra a metrópole

Semana agitada na política sul-americana acaba ofuscando os maiores protestos da história da Guiana Francesa, que colocam em dúvida seu atual status de departamento ultramarino

Reprodução

Em uma semana marcada pelo Judiciário assumindo poderes do Legislativo na Venezuela, por manifestantes se rebelando contra uma proposta de reeleição no Paraguai e pela vitória apertada do candidato governista no Equador, pouco se falou de um assunto extremamente delicado na América do Sul: a Guiana Francesa.

Oficialmente uma colônia até 1947, a Guiana Francesa recebe atualmente a denominação de departamento ultramarino. A moeda oficial é o euro e o exclave francês é parte constituinte da União Europeia, o que faz com que haja tensões nas fronteiras devido à imigração ilegal.

O território de 250 mil habitantes tem água encanada e eletricidade como artigos de luxo. O desemprego assola 50% da população jovem e, além disso, inflação e violência contribuem para escancarar a desigualdade em relação à metrópole.

Diante das circunstâncias em questão, a população deu início a uma greve geral. Escolas fechadas, voos cancelados e fronteiras bloqueadas são algumas das consequências. Até mesmo o foguete Ariane 5, que carregava um satélite brasileiro e outro sul-coreano, teve seu lançamento do centro espacial de Karou impedido.

O coletivo “500 irmãos contra a delinquência” lidera os protestos, que chegaram a levar 10 mil pessoas às ruas – os maiores da história. As principais exigências dizem respeito à segurança, saúde e infraestrutura. Os manifestantes demandam um investimento de 2,5 bilhões de euros do governo francês, que, por sua vez, ofereceu apenas 1 bilhão, tendo o valor rejeitado pelas lideranças locais.

Obviamente, o tema pauta os debates da eleição presidencial na França, marcada para o próximo dia 23. Os cidadãos da Guiana Francesa têm direto à voto. E um dos candidatos favoritos, Emmanuel Macron, cometeu uma gafe quando se referiu ao território ultramarino como uma ilha.

Mas independentemente do vencedor, os guianenses não devem ter todas suas vontades contempladas. Davy Rimane, um dos principais líderes das manifestações, reivindica um estatuto especial, uma vez que, para ele, a Guiana Francesa está localizada muito longe do centro de tomada de decisão. “Com outro sistema, nós mesmos poderíamos decidir o que é bom sem ter de pedir permissão à França”, diz Rimane. Estaria ele se referindo a uma eventual independência?

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