Marcelo Mariano
Marcelo Mariano

Por que Trump bombardeou a Síria?

Uma análise das motivações de Trump para bombardear uma base militar do governo sírio e de seus desdobramentos políticos pelo mundo

Donald Trump faz pronunciamento após ataque americano na Síria | Foto: Reprodução / Facebook

O dia 6 de abril de 1917 marcou a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. 100 anos depois, o presidente Donald Trump lançou 59 mísseis Tomahawks contra uma base militar do governo sírio. Dificilmente eclodirá um conflito nas mesmas proporções. A coincidência nas datas é apenas uma simbologia. E o ataque realizado pelos EUA à Síria também está sendo tratado como simbólico por alguns especialistas.

Dos 59 mísseis lançados, apenas 23 chegaram ao alvo. Ninguém morreu. Somente tanques, tratores, carros, caminhões e aviões foram destruídos, sendo que alguns deles nem estavam mais sendo utilizados. O prejuízo está estimado entre 3 e 5 milhões de dólares, enquanto os Estados Unidos gastaram cerca 90 milhões com a ação. Para evidenciar ainda mais o fracasso da operação, a base militar voltou a operar menos de 24 horas depois.

Trump já tinha deixado claro que a prioridade não é derrubar Assad. Continua não sendo. Se fosse, teria realizado um outro tipo de ataque, que, de fato, acabou sendo simbólico. Serviu para demonstrar força ao bater de frente com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, desviando um pouco as atenções acerca da relação entre os dois mandatários.

Além disso, Trump precisava ganhar apoio dentro do seu próprio partido. Recentemente, obteve uma derrota ao não conseguir repelir o Obamacare em um congresso dominado pelos republicanos, que podem ser divididos hoje em três segmentos: tradicionais, libertários e nacionalistas, também conhecidos como direita alternativa.

Os tradicionais representam o sistema. São aqueles a favor do livre mercado e de posturas realistas no tocante à política externa. Os libertários, por sua vez, defendem um Estado mínimo e um comportamento isolacionista, assim como os nacionalistas, que se preocupam mais com questões internas e em “tornar a América grande novamente”.

Com a ação militar, Trump ganhou pontos com os tradicionais. John McCain, uma das principais figuras desta ala e que sofreu críticas do presidente durante a campanha, elogiou sua postura. Já os libertários, que nunca tiveram apreço por Trump, rechaçaram veementemente. Rand Paul escreveu um artigo para a Fox News mostrando seus argumentos e disse até mesmo que “bombardear Assad significa que os Estados Unidos estão lutando do mesmo lado do Estado Islâmico”. Os nacionalistas também não apoiaram. Steve Bannon foi removido do Conselho Nacional de Segurança um dia antes do ataque, ao qual se opôs.

Entre a população, Trump venceu. Uma pesquisa realizada pela Gallup mostra que sua popularidade subiu 5% depois do bombardeio – de 35% para 40%. E uma vitória ainda mais significativa pode ter acontecido em relação à China, cujo presidente, Xi Jiping, se encontrava em visita oficial aos EUA. O ataque não só ofuscou o encontro, como também deu um recado aos chineses de que, se necessário, Trump é capaz de fazer o mesmo com a Coreia do Norte.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.