Marcelo Mariano
Marcelo Mariano

Da grama no Sudão do Sul à universidade no Egito

Conflito sul-sudanês faz do país um dos mais perigosos do mundo e obriga mulheres a seguirem suas vidas longe dali

Foto: Armando Franz

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), há hoje no mundo cerca de 21,3 milhões de pessoas em situação de refúgio, das quais 1,3 milhão se encontram nos países-membros da União Europeia.

Trata-se de uma questão humanitária e o debate acerca do tema é de extrema relevância. O problema é que ele se concentra principalmente na Europa, enquanto o continente mais afetado por essa crise é a África.

Ainda segundo o Acnur, existem 4,4 milhões de refugiados se levarmos em consideração apenas a África subsaariana. A propósito, o maior campo de refugiados do mundo fica em Dadaab, no Quênia. E diferentemente do que ocorre na Europa, muitas dessas pessoas estão fugindo de uma zona de conflito para outra: da Nigéria para o Chade, da República Democrática do Congo para a República Centro-Africana e do Sudão do Sul para o Sudão, além do Djibuti, que recebe refugiados do Iêmen, no Oriente Médio.

Falando especificamente do Sudão do Sul, o país de maioria cristã é o mais novo do mundo, tendo sua independência reconhecida em 2011. O primeiro governo sul-sudanês foi formado de tal forma que contemplasse as duas principais etnias locais, Dinka e Nuer, nos cargos de presidente e vice-presidente, respectivamente.

O presidente Salva Kiir temia sofrer um golpe do vice Riek Machar e, por isso, resolveu destitui-lo, colocando outro Dinka no seu lugar. Ambas etnias já possuíam um histórico conflitante. Dessa forma, deu-se início a uma guerra civil que assola o Sudão do Sul desde 2013, conduzindo-o à posição de quarto país mais perigoso do mundo – atrás somente da Síria, do Iraque e do Afeganistão.

Um provérbio africano diz que, quando dois elefantes brigam, quem sofre é a grama. Assim, milhares de pessoas se viram obrigadas a deixar suas casas em direção a diversos países, entre eles o Egito, onde existe uma ONG chamada Tadamon, na região sul do Cairo, dedicada especialmente ao acolhimento de mulheres refugiadas.

A maioria delas vem justamente do Sudão do Sul e levam consigo, além de suas dezenas de filhos, sonhos de um futuro melhor. São mulheres que passaram por grandes traumas em suas vidas, como violência sexual. Apesar de tudo, não deixam um segundo sequer o sorriso sair do rosto ao interagirem com voluntários de diferentes partes do mundo.

Na ONG, elas frequentam aulas de inglês – muitas querem deixar o Egito rumo ao Canadá. Enquanto esbarram nas dificuldades burocráticas, precisam seguir suas vidas ali mesmo. A jovem Alisa Rizek, à esquerda na foto, chegou ao Egito junto com sua mãe, Rita, e suas seis irmãs. Acaba de ser aprovada para cursar Direito na Universidade do Cairo. No Dia Internacional da Mulher, nada mais justo do que prestar esta homenagem a todas elas.

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Rosane Lousa

Abordagem interessante de particularidades de mulheres que, nós brasileiras, pouco ouvimos falar. Parabéns!

Kleber Lázaro

Parabéns pela ótima matéria Marcelo!