Hélio Rocha
Hélio Rocha

Mário Lago foi também poeta

Notável ator, era também grande letrista de música, como é o  caso de “Amélia que era mulher de verdade!”, música de Ataulfo Alves

Em 1968 fiquei um ano no Rio fazendo um curso. Certas noites, após o curso, dava uma passada na choperia Fiorentina, no Leme, para me encontrar com João Bennio, que estava morando no Rio.

Ele tinha na Fiorentina seus amigos de chope, entre os quais o grande ator Mário Lago. Que tinha excelente papo.

Mário Lago (1911-2002) estava então com 67 anos. Notável ator, era também grande letrista de música, como é o  caso de “Amélia que era mulher de verdade!”, música de Ataulfo Alves.

Como poeta, Mário Lago deixou excelentes poemas. Como um famoso, de teor bem  esquerdista: “Juca era o dono  da bola”.

Vejamos esse poema.

O dono da bola

Quando o Juca concordava,
a garotada tomava
conta da rua e armava
o campo de futebol.
Juca era o dono da bola,
Juca era o dono do jogo.
Fazia o que bem entendia
e quando alguém discutia
o Juca guardava a bola.
Ninguém brigava com o Juca,
Juca era o dono da bola.

Na hora de escolher o time,
era o Juca quem primeiro dizia
os meninos que queria
pro time dele.
Se o capitão do outro time
discordava,
o jogo nem começava,
o Juca guardava a bola.
Ninguém brigava com o Juca,
Juca era o dono da bola.

A garotada corria
de um lado para o outro.
Dribla daqui, chuta pra lá,
passa para ali, cabeceia prá cá…
Juca ficava sentado
o tempo todo. Mas, na hora
de fazer gol, se mexia.
Corria e gritava:
“Passa que quem faz gol sou eu”.
E se o outro não passava
ou se chutava e marcava
o gol que o Juca esperava,
o Juca guardava a bola.
Ninguém brigava com o Juca,
Juca era o dono da bola.

Todo gol que o outro time
fazia era anulado.
Ou tinha sido com a mão
ou impedido. Anulado.
O Juca dava rasteira,
canelada, cabeçada,
aleijava a garotada
e o juiz não marcava nada.
O tranco mais delicado
dado no Juca era pênalti
E quando alguém discordava…
o Juca guardava a bola.
Ninguém brigava com o Juca,
Juca era o dono da bola.

Um dia, o Alfredinho achou
que aquilo era desaforo.
Driblou o primeiro, driblou o segundo,
driblou o terceiro, o quarto…
O Juca xingou a mãe dele.
Ele meteu a mão no Juca
(a garotada ficou espantada).
O Juca avançou pra ele,
ele tornou a dar no Juca
(a garotada ficou animada)
O Juca avançou outra vez.
ele então jogou o Juca no chão
(a garotada foi toda em cima do Juca)

Quando Alfredinho voltou pra casa
o pai estava se queixando
que o dinheiro que ganhava
não chegava
pra alugar outra casa
ao menos com mais um quarto
pra botar seus nove filhos;
para comprar mais comida,
feijão pra seus nove filhos;
para comprar umas roupas
pra vestir seus nove filhos;

– Papai, por que o dinheiro
que você ganha não chega?
– É pouco.
– Por que é pouco?
– Porque o patrão paga pouco.
– Papai, por que vocês
não pedem mais ao patrão?
– o patrão despede a gente,
a gente fica sem pão.
– Por que o patrão despede?
– Porque ele é o dono das fábricas,
porque ele é dono das máquinas.
– Papai, por que vocês
não fazem com ele
o mesmo que nós fizemos com o Juca?
– Quem é o Juca?
– Juca era o dono da bola.
– Que foi q
ue vocês fizeram?
– Tomamos a bola dele

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