Hélio Rocha
Hélio Rocha

Joaquim Cardozo, engenheiro da confiança de Niemeyer, era um grande poeta

Ele escreveu um belo poema, muito bem urdido, sobre a atriz Ítalla Nandi. A qualidade refinada de sua arte evitou um escândalo

Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo e Paulo Werneck | Foto: Reprodução

Em fevereiro de 1971 o governo de Minas Gerais estava construindo uma grande obra no bairro da Gameleira, em Belo Horizonte, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer e cálculo do engenheiro Joaquim Cardozo. A barreira da obra desabou, matando 70 operários e ferindo mais de 100. Joaquim Cardozo fora o calculista das   principais obras de Brasília. A tragédia de Belo Horizonte arruinou a saúde dele. Nascido no Recife em 1897, ele morreria em 1968.

Íttala Nandi: atriz | Foto: Reprodução

Grande engenheiro, Joaquim Cardozo foi, também, notável poeta, e ainda escreveu peças de teatro. Certa vez ele escreveu um poema sobre o órgão genital da atriz   Ítalla Nandi.

De tão bem escrito e formulado, o poema foi recebido com naturalidade. Quando jovem, já engenheiro, Joaquim Cardozo sofreu perseguições sob o regime do Estado Novo. Já renomado passaria a ser o predileto de Niemeyer como calculista. Vamos ver um poema dele.

O Espelho
Joaquim Cardozo

Pisando na areia fina

Passaste de lado a lado,

Agora te vejo rindo

No espaço recuperado.

Marchaste, enfim, resoluta

sobre cascalho e restolhos,

Chegaste à fonte do vidro,

Nas águas banhaste os olhos.

Depois ficaste indecisa,

Quase inumana e confusa,

Moldando gestos dolentes

Na cera da luz difusa.

Cuidado! Há sempre um sorriso

De irrefletida maldade:

As coisas se estão reunindo

Por detrás da realidade.

Num brilho de claro céu

— Lampejo de meio-dia,

Unidos, iluminados

Orgulho e melancolia.

Neves do tempo dos anjos;

Véus de noivas e de monjas,

Bem tramados, bem tecidos

De renúncias e lisonjas.

Comparo, combino, arrisco,

Passagens procuro a esmo

sobre o profundo intervalo

Que vai de mim a mim mesmo.

Lua cheia, emoldurada,

Semblante da claridade

Luzindo as asas de um voo

Recluso na intimidade.

De diamante ou de prata?

Ou são cristais de adulárias?

— Este é o fiel da balança

Entre as paixões solitárias.

“Joaquim Cardozo” por José Mário Rodrigues

 

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