Euler de França Belém
Euler de França Belém

Rogéria, o “travesti da família brasileira”, revela que teve caso com piloto de Fórmula 1

A travesti-símbolo do país conta que teve relacionamentos com vários homens casados e heterossexuais. A biografia relata como se tornou uma personalidade do meio artístico

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Os críticos literário Iúri Rincon Godinho, Paulo Lima, Anderson Alcândara, Carlos Willian, Afonso Lopes, Arnaldo Bastos, Alberto Nery, Marcelo Franco, Carlos César Higa e Marco Lemos (Talmon Pinheiro, advogado de primeira linha, ainda não definiu se vai ler) dizem que a biografia “Rogéria — Uma Mulher e Mais Um Pouco” (Sextante, 272 páginas), de Márcio Paschoal, encabeça as suas listas penelopianas de leituras. Seria imperdível

Autointitulada a “travesti da família brasileira”, Astolfo Barroso Pinto, de 73 anos, que a torcida da seleção brasileira conhece apenas como Rogéria, é uma personagem do país — do tipo Chacrinha e Didi de “Os Trapalhões”. Ninguém fica indiferente às suas performances. Eu mesmo fui ao Teatro Goiânia para vê-la, num espetáculo divertidíssimo. Quando ela sentava no colo de alguns homens, eles ficavam constrangidíssimos, com suas mulheres, ao lado, rindo fartamente (mulheres são sempre mais abertas à graça e à diferença). O livro está sendo apontado como explosivo e certamente o é (transcrevo trechos, selecionados pelo jornal “O Globo”, não tão explosivos assim). Rogéria conta que manteve relacionamento com um piloto de Fórmula 1. Qual é a pessoa que, viva-respirando, não quer saber de quem se trata? Pois bem: leia alguma coisa a mais nas últimas linhas deste texto. Se a curiosidade for grande — admito que sou curioso —, dê um longo salto e vá ao final. Eu iria.

Rogéria (ainda Astolfo) maquiando a cantora Emilinha Borba

Rogéria (ainda Astolfo) maquiando a cantora Emilinha Borba

Rogéria começou a ganhar a vida como maquiador — o nome ainda era Astolfo — na TV Rio. Mas sabia-se artista e logo se tornou vedete. Cantava mais ou menos e dançava bem.

Atenção: Rogéria não tem papas na língua. Portanto, se é pudico, pare aqui. Não prossiga. Relatou toda a sua vida ao biógrafo, não proibiu que ele consultasse outras fontes nem censurou trechos. Leu o livro depois de pronto, não antes. “Quando li, percebi que comi muita gente, mas é a mais pura verdade”, disse (minha fonte, no caso, é “O Globo”).

Sexo e drogas

Rogéria concedendo entrevista para Jô Soares

Rogéria concedendo entrevista para Jô Soares

Rogéria não escondeu nada, garante. Falou de sexo, sempre farto, quanti e quali, e drogas. Ela relata que mantém relacionamento com vários homens, alguns deles casados e, supostamente, heterossexuais. Múcio foi o amor de sua vida. O sobrenome não é revelado, o que deve deixar os Múcios do Rio de Janeiro com as pulgas e percevejos atrás das orelhas. Os casos são contados, livremente. Mas os nomes das pessoas? Ah, leitor, deixa de ser enxerido: você gostaria que Rogéria, como Astolfo Barroso Pinto, processada? Por certo, não. Mas sei que, tão curioso quanto eu, gostaria de alguns nominhos apontados, assim meio de esguelha.

Por que Rogéria não revela os nomes dos muitos homens de sua vida — alguns deles famosíssimos? “Já não conto os nomes dos meus casos, porque, se contasse, seria um escândalo, ia arrumar muito problema”, esclareci a mais famosa travesti do Brasil. A Justiça teria de criar uma vara (sem segundas intenções) específica para acolher os processos.

Liv Brandão, de “O Globo”, pergunta a Rogéria sobre engajamento. Ela responde como autêntica revolucionário-sem movimento que é: “Engajada? Eu preciso ser engajada? Eu sou o engajamento em pessoa, porra! Se as outras travestis estão aí, agradeçam a mim, que sou uma bandeira, e os brasileiros gostam de mim”. Lembre-se: “O Globo” é um dos jornais da família brasileira e, por isso, reproduzo o palavrão — não seria justo mutilar a linguagem de Rogéria.

Ah, Rogéria afirma que Lázaro Ramos fez o melhor homossexual gay do cinema patropi: no filme “Madame Satã”.

Pois é, leitor, se você chegou até aqui, saltando ou não linhas, sinto decepcioná-lo. Eu também fiquei decepcionado. Rogéria não é de mentir, como se sabe, mas, apesar de mencionar o caso com o piloto de Fórmula 1, não quis revelar o nome. O motivo é o de sempre: receio menos de escândalo do que de processo judicial. O Brasil é um país cada vez mais judicializado.

Trechos da biografia de Rogéria

As reinações de Tofinho

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Astolfinho não gostava de brincar de bonecas (na verdade, tinha pavor delas), mas já se notavam nele alguns trejeitos femininos. Descia as escadas puxando um pano, como se fosse um vestido longo. Alguns comentários de que o filho parecia uma menininha não abalariam nem modificariam o comportamento de sua mãe.

Com espírito de liderança, Astolfinho logo se tornou chefe da sua turma de amigos. Falante e carismático, comandava o grupo que se aventurava pela vizinhança, descobrindo novidades. Havia uma ponte nas proximidades, e os meninos iam lá para pegar rã. Tofinho deu com uma cobra-d’água e ficou em pânico, histérico. Os meninos estranharam, mas ninguém se atrevia a zombar dele. Tinha faniquitos, mas era bom de braço. Todo mundo já desconfiava que ele era meio viadinho, mas ninguém falava nada. Pelo menos, na sua frente.

Adolescência

Rogéria aos 17 anos, quando ainda era Astolfo Barroso Pinto

Rogéria aos 17 anos, quando ainda era Astolfo Barroso Pinto

A cada dia aumentava nele a vontade de se vestir de mulher. Seria uma forma de se expressar, relacionada a roupas, sapatos, maquiagem, adereços e acessórios, enfim, com a caracterização feminina. Já se sentia meio mulher, e era como se, ao se vestir assim, acalmasse uma angústia com a qual ele mesmo não conseguia atinar. Era Carnaval, e Astolfinho, então com 14 anos, viu ali uma oportunidade única: colocou um maiô Catalina preto, uma saia amarela e um chapeuzinho para disfarçar o cabelo curto. Não se maquiou nem pôs peruca. Era o suficiente. Todos que passavam por ele mexiam “Que lindinha!”, “Vai aonde, gracinha?”. Astolfinho estava adorando. O azar foi sua tia Neusa o flagrar passando e logo contar a Eloah. Resultado: uma bronca daquelas e, como castigo, o fim do Carnaval para ele. Na realidade, a bronca da mãe não era propriamente por ele se fantasiar daquela maneira, mas sim por deixar-se ser visto.

Travestis

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Astolfo vivia a postura mais neutra dos travestis. Não precisava sobreviver da venda de sexo, não se intoxicava de drogas e álcool, não deformava o corpo com injeções de silicone industrial ou óleo Nujol, não passava pelas agruras que eles passavam na tênue linha que separava o normal e o aceito da marginalidade. Astolfo era gay e adorava fantasiar-se de mulher, mas não praticava o estilo travesti de vida. Também se sentia feliz como homem. Especialistas em sexualidade entendem que os travestis, em sua grande maioria, são biologicamente identificados com o seu sexo de nascimento. O padrão comportamental é sentirem-se, ao mesmo tempo, como homens e mulheres, não cogitarem mudar o sexo biológico e terem, geralmente, atração por pessoas do mesmo sexo.

Vedete do Carlos Machado

A Boate Fred’s ficava na avenida Atlântica, próximo ao Leme, no local onde depois foi construído o Hotel Méridien, que hoje é o Windsor-Atlântica. Naquele tempo havia um posto de gasolina no lugar, e a boate ocupava o andar de cima. Sérgio Porto costumava brincar que “o cliente enchia o tanque do carro embaixo e a cara em cima”. E, quase que invariavelmente, tinha razão. Vivia-se um tempo de mudanças e inseguranças. Com o surgimento dos travestis, um novo e inusitado tipo de vedete aparecia. Isso em plena ditadura, período obviamente contraindicado a transgressões. Machado temia que suas relações com o governo anterior pudessem atrapalhar os negócios. Ainda assim, arriscou na montagem do Pussy Cats. À procura de nomes, o de Rogéria foi indicado pela atriz Irene Ravache, que a conhecia desde os tempos de maquiador na TV Rio.

Teatro Rival

A censura mantinha-se presente. Para se ter uma noção, havia na primeira fila do palco do Rival três cadeiras reservadas aos censores. Quando eles apareciam, Gomes Leal avisava que, naquela noite, não se poderia falar em política, nada de cacos com segundas intenções ou críticas veladas ao regime. Várias vezes a censura proibiu os espetáculos, e os travestis tiveram que arrumar as suas coisas e se retirar do local. Depois, com a liberação do show, voltavam com suas malas de roupas. Isso porque não podiam sair na rua vestidos de mulher, somente no Carnaval, ainda assim somente se aparentassem ser homens com roupas femininas – se parecessem mulheres perfeitas seriam presos. Ainda havia o dinheiro curto, já que os travestis ganhavam menos do que gastavam com os figurinos. Mesmo assim, as “meninas” seguiam no seu ritmo e ditavam uma moda que ameaçava se firmar.

A transformação

Com os hormônios, cabelos louros, depilada e magra, unhas longas e quadradas (dica dos tempos de vedete com Carmen Verônica), só lhe faltava uma correção no nariz. A cirurgia de um dia foi realizada numa clínica no 6ème arrondissement. Pronto! O encontro de Astolfo com seu lado mulher estava terminado. Agora Rogéria passaria a incorporar o lado feminino em seu cotidiano parisiense 24 horas por dia. O teste final aconteceria no metrô de Paris, entre as estações de Pigalle e Montparnasse, na companhia da transformista Dany Dan e da transexual Capucine. “Vamos ver se você passa por mulher, vagabunda, bicha ou homem”, disseram. Rogéria, de rabo de cavalo, vestido simples e um salto não muito alto, recebeu alguns olhares de cobiça, mas ninguém riu nem debochou dela. A maioria das pessoas sequer tomou conhecimento. Rogériahavia passado no teste, com louvor. Estava pronta. O veredicto foi de Dany: “Tu es prêt à voler!” Você está pronta para voar.

Drogas e prostituição

Com a prostituição, a relação de Rogéria sempre foi transparente. Não conseguia ter sexo com alguém pelo qual não sentia atração. Se transasse e gostasse, não via razão para cobrar nada. Uma vez, ainda no Hotel Ódeon, em pleno verão de Paris, viu um mecânico, sem camisa, consertando um caminhão. Na mesma hora foi até ele e o convidou para subir ao hotel. Ele se justificou o tempo todo, explicando que não tinha dinheiro, e foi um castigo até Rogéria conseguir convencê-lo de que era de graça. O homem, desconfiado, foi até o fim não acreditando no que acontecia.

Sexo sem amor

Rogéria sempre teve consciência dos riscos assumidos e dos enfrentamentos claros que sua opção traria. Ser travesti impunha certos limites intrínsecos que ela pretendia superar. E não havia maneira melhor para vencer essas barreiras do que se esmerar na arte. Nesse momento de vida começou, então, a busca por trabalhos que pudessem reafirmar sua escolha artística. Sabia que suas atuações como vedete e show-woman eram receitas de sucesso. Havia o escárnio, a curiosidade sobre sua figura dúbia e o humor escrachado. Mas sonhava em ousar mais. Já que a televisão e a música vetavam sua aparição, sob o ranço preconceituoso da censura, Rogéria voltava-se para o cinema e o teatro.

Falas de Rogéria

“Todo mundo me atazanava, dizendo que eu devia arriscar e buscar meu espaço. Fernanda Montenegro estava fazendo uma novela na TV Rio, e eu a maquiava. Perguntei a ela:

– Será que um dia vou poder fazer teatro?

– Claro, por que não?

– Como é que eu vou para o palco vestida de mulher?

– Arte independe de sexo. Se você tem talento vai dar certo, não custa nada tentar – disse Fernanda. Aí eu fui e aconteceu.”

“Entrei no concurso do República, com uma fantasia que era só um espartilho preto bordado com flores, cinta-liga, salto alto e um chapéu com um rabo de galo verde em cima, e empatei em primeiro lugar com a bicha mais rica da festa, Suzy Wong, deslumbrante numa fantasia de canutilho, toda em dégradé, do verde ao branco, com um leque de pluma enorme. Quando anunciaram o resultado, fui falar com ela, meio que pedindo desculpas, e Suzy me disse:

– Você é uma estrela!

O locutor, então, anunciou meu nome:

– Ele é Rogério, maquiador da TV Rio.

E o povo começou a gritar:

– Ro-gé-ria! Ro-gé-ria! Quer dizer, meu nome artístico foi dado pelo público, melhor batismo não há…”.

“Foi uma sensação indescritível ver meu nome estampado no letreiro do fantástico Teatro Rival, coração da Cinelândia, rua Álvaro Alvim, 36. Me deu um arrepio e um frio na barriga. Era que ali eu me sentia no paraíso. A verdade é que ninguém é vedete pra valer sem passar pelo palco do Rival. O pessoal que ia ao Fred’s era esnobe e tinha vergonha de aplaudir forte. Mas no Teatro Rival era a glória, o melhor público do mundo”.

“Rogéria — Uma mulher e mais um pouco”

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mallory white

Fora homofobia! Crivella apoia a comunidadse LGBT https://www.youtube.com/watch?v=VFZTCF-OVkU

Marilia

Gosto dela ,mas nao gosto de ver rapazes de barba roupa de menino com baton vermelho.Sou da antiga mas tento entender.Rogeria venceu e é amada mas nos não sentimos nela a agressão e sim sendo ela mesma.

tio mendez

Rogeria deveria ter sido bivitelina/gemea, ou seja, uma seria rogeria e outro astolfo para nenhum dos 2 morrer.