Euler de França Belém
Euler de França Belém

Possível rebeldia do menino Danilo não justifica “mau comportamento” do assassino Reginaldo Lima

O “maudrasto” teria matado o garoto de 7 anos por vingança devido ao seu suposto “mau comportamento”. Papo furado. Matou porque carrega a maldade na alma

“Crime e Castigo”, célebre romance do escritor russo Fiódor Dostoiévski, conta a história de um jovem, Raskólnikov, que pretendia produzir uma espécie de assassinato perfeito e dotado de uma lógica irretorquível. Seria um crime, digamos, teoricamente filosófico. Na realidade, a morte de uma mulher, seguida de outra morte, ocasional, que não estava no roteiro, nada tem de filosófica, de justificável. Trata-se tão-somente de um brutal assassinato.

Ao final, Raskólnikov é preso e condenado à prisão pela Justiça.

Elaborar uma morte, criar uma espécie de arte para cercá-la de uma moralidade supostamente aceitável, é uma das aberrações de alguns seres humanos. Neste mês, Danilo de Sousa Silva, de 7 anos, foi brutalmente assassinado, no bairro Santa Rita, em Goiânia.

Danilo de Sousa Silva: camisa aberta, um picolé na mão e um sorriso: assassinado aos 7 anos | Foto: Reprodução

Os jornais publicaram uma fotografia de Danilo, dono de dois sobrenomes populares, “Sousa” e “Silva”, com um picolé numa das mãos. No rosto um sorrisão de contentamento, talvez pela doçura do picolé, um picolé verde, e, sobretudo, pelo fato de ser criança, quando quase tudo é lúdico e mágico.

Mas o menino pobre e sorridente, cuja alegria pode ter sido gestada por um mero picolé, não sabia que a maldade e o perigo moravam ao lado, bem ao lado.

A maldade gratuita é menos incomum do que comumente se percebe. Na casa em que morava Danilo, com sua mãe, que certamente o amava, habitava também Reginaldo Lima Santos — seu padrasto.

A alegria do menino, sua vontade de viver, que talvez se revelasse em certa rebeldia — travessuras de crianças —, aparentemente incomodava Reginaldo Lima, cujo sobrenome “Santos” não lhe cabe bem.

Reginaldo Lima queria ajustar o comportamento do menino às suas ideias de certo e errado. Por isso, num ato racional e não puramente emotivo, decidiu matá-lo. E o matou.

Mesmo com o testemunho, até agora convincente, de Hian Alves de Oliveira, o padrasto, ou “maudrasto”, estaria negando o crime. Hian de Oliveira disse à polícia: “Fui até a beirada da mata, segurei no braço dele e ele [Reginaldo Lima] machucou o menino”. O homem que era ou deveria ser um pai substituto deu pauladas em Danilo e, em seguida, o asfixiou na lama. (Resta saber por que Reginaldo Lima precisou da ajuda de Hian Alves de Oliveira para levar Danilo à mata. O menino não confiava no “maudrasto”?)

O motivo de Reginaldo Lima para matar Danilo — repita-se: de 7 anos — teria sido “vingança” dado o suposto “mau comportamento” do garoto.

Quer dizer, matar, para Reginaldo Lima, não é “mau comportamento”. Mau comportamento, para ele, é ser criança, viver como criança e brincar como uma criança. Por certo, o assassino queria “despersonalizar” o menino, produzindo um ser “imóvel”, sem identidade, e, mesmo tendo apenas 7 anos, Danilo não teria aceitado a ditadura do “maudrasto”.

Por que, exatamente, Reginaldo Lima matou Danilo? Ao longo do inquérito e do processo, ele certamente irá apresentar outros argumentos — advogados poderão ajudá-lo a encontrar saídas, “atenuantes” (quais, Deus, quais?!). Mas o fundamental não vai assumir: é um homem com a maldade entranhada no corpo e na alma. Um assassino vil.

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