Euler de França Belém
Euler de França Belém

O dia em que ex-mulher de Zezé Di Camargo fez uma crítica corrosiva da barbárie da (e na) internet

Zilu Godói e o cantor sertanejo Zé Henrique: relacionamento terminado, mas maledicência não deixa a empresária em paz, pelo menos é o que diz Zezé Di Camargo e Graciele Lacerda: o novo casal não sai das revistas, sites e redes sociais. Ao contrário de Zilu, eles não parecem insatisfeitos

Zilu Godói e o cantor sertanejo Zé Henrique: relacionamento terminado, mas maledicência não deixa a empresária em paz, pelo menos é o que diz l Zezé Di Camargo e Graciele Lacerda: o novo casal não sai das revistas, sites e redes sociais. Ao contrário de Zilu, eles não parecem insatisfeitos

A maldade, a inveja e a burrice são as maiores multinacionais de todos os tempos. Os dramaturgos gregos, anteriores a Jesus Cristo, e Shakespeare, autor que viveu entre os séculos 16 e 17, escreveram peças seminais a respeito destas “desvirtudes” tão bem distribuídas entre os homens de todos os séculos. A internet não inventou nada — só potencializa os “problemas” descritos pelos gregos, Bíblia e Shakespeare (segundo Harold Bloom, o britânico inventou o homem moderno como o conhecemos). Porém, como deu voz instantânea a todos, produz uma certa barbárie — quiçá incontrolável. Na democracia, se têm direito ao voto, todos têm direito à palavra, à opinião — estapafúrdia ou não. O limite, quando aceito, é a lei. Como quase tudo é volátil na internet, raramente alguém colhe as diatribes que são ditas e decide mover processos judiciais. Pessoas com nomes falsos — ou verdadeiros, mas praticamente impossíveis de serem localizadas — dizem barbaridades e quase nada acontece. Documentar o absurdo é possível, mas localizar o autor é uma missão mais complicada. Num romance de rara excelência, “Re­produção”, o escritor Bernardo Carvalho faz uma radiografia corrosiva do mundo sem limites na internet. Não apenas anônimos são responsáveis pelos excessos — na prática, ataques brutais, eventualmente travestidos de humor. Há também figuras conhecidas, que, quando processadas e, às vezes, condenadas, saem com essa: “Era apenas humor”. A falta de humor é quase um crime, diriam Shakespeare, Bernard Shaw e H. L. Mencken. Mas qual humor? Mau humor, por certo. Grosseria é a regra.

Zilu Godói é mais conhecida como ex-mulher de Zezé Di Ca­margo e, ao ter sua vida privada devassada por sites e revistas de fofoca e redes sociais, paga um certo preço pela fama que, ansiosa e desesperadamente, buscou. Os artistas não-famosos e suas mulheres criam relações com a mídia, com o objetivo de se tornarem conhecidos, e depois, em alguns casos, tentam (parcialmente) cair fora. Aí é tarde. O pacto é faustiano. A mídia faz e, não raro, desfaz. A internet piora as coisas: a fofoca levemente divulgada num site “confiável” é potencializada e, depois, volta à publicação original, revitalizada. Zilu Godói, que sempre exibiu suas plásticas e bens com prazer, agora quer “recuar”. Talvez seja tarde. Muito tarde.

Entretanto, o fato de ter se tornado socialite e feito um “pacto” (tácito) para obter sucesso — Goethe (“Fausto”) e Thomas Mann (“Dou­tor Fausto”) certamente vibrariam com as agruras dos famosos atuais — não significa que Zilu Godói, não mais “Di Camargo”, não tenha direito e razão ao reclamar da “maldade”, às vezes articulada, de homens e mulheres que militam na internet. Como se fosse Bernardo Carvalho, ou Guy Debord, a quase-pensadora Zilu Godói escreveu (formula muito bem suas ideias), numa rede social, que “a internet é responsável por ‘tornar públicos os monstros existentes dentro das pessoas’”. A internet é o canal, os monstros somos todos nós.

“Uma das coisas que sempre me deixa pasma e triste é a capacidade humana, na verdade desumana, de julgar os outros de maneira implacável com base em impressões superficiais, ou ofender sem motivo algum, apenas pelo simples prazer de agredir”, escreveu Zilu Godói. O que difere o raciocínio de Zilu Godói do pensamento acadêmico é admitir que fica “pasma”. O sociólogo percebe a “crise” na internet como um “fenômeno” da contemporaneidade. A espetacularização da vida privada — e não apenas dos famosos — é o novo charme da internet com suas redes sociais, sites, blogs, aplicativos.

A “socióloga”, “psicóloga” ou “antropóloga” Zilu Godói continua: “A vida social se tornou infeliz e geralmente um imenso teatro coletivo, e considerando que a internet é, ao menos para mim, uma extensão do mundo real, não é difícil nos assustarmos ainda mais com a nossa chocante realidade que exala maldade. Na internet encontramos as pessoas mais próximas de como elas realmente são, sem a diplomacia exigida pelo cotidiano da vida ao vivo, e podemos ter uma ideia mais real da dimensão da intolerância e da violência que nos cerca real e virtualmente”.

Depois de concluir sua análise da sociedade moderna, Zilu Godói praticamente grita, gerando certa inveja em redutos consumistas: ‘Miami, me aguarde!” A saída da famosa é o aeroporto; a dos “mortais”, que têm de acompanhá-la a distância, são as redes sociais, notadamente o Facebook e o Twitter — misturas de divã, hospício, programa de humor, lupanar e parque de diversão.

O que, exatamente, fizeram com Zilu Godói? Os bárbaros não param de falar do relacionamento de Zezé Di Camargo com uma bela mulher, Graciele Lacerda, bem mais jovem do que a elegante Zilu Godói, e do fim do relacionamento entre a socialite e o cantor sertanejo Zé Henrique, tão jovem quanto a nova namorada do celebrado artista goiano. O elixir da juventude é a juventude. Zilu Godói, filósofa ou não, está certa. Somos, todos, responsáveis pelo monstro e o médico nos quais, diariamente, nos transformamos na internet. Seu único equívoco é eximir-se de alguma culpa. O diabo (ou o inferno) não são os outros. Somos nós.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.