Euler de França Belém
Euler de França Belém

“Meu nome é Deus. Mas pode me chamar de Washington Olivetto”¹

Livro de Fernando Morais resgata a história do publicitário e da agência mais premiada do país. A Holding Praz fatura 1 bilhão de reais por ano. Ronaldo Caiado processou o jornalista

Fernando Morais e Washington Olivetto (com o livro Na Toca dos Leões nas mãos)

O jornalista Fernando Morais e o publicitário Washington Olivetto (com o livro “Na Toca dos Leões” nas mãos)

O título acima já deve ter sido pensado, talvez pelo próprio Washington Olivetto, publicitário que se tornou famoso internacionalmente, mas não foi dito, pelo menos, não por escrito. Mas, convidado para uma conversa sobre a celebridade que criou a agência W/Brasil, um publicitário contou-me uma história que, cedo ou tarde, vai figurar na galeria das mitologias que engrandecem, marqueteiramente, um dos criadores do texto “o primeiro sutiã [Valisère] a gente nunca esquece”. A história (ou estória): “Roberto Duailibi, dono da DPZ, chega ao Céu e, ao ver Deus, diz: ‘Quero falar com Deus. É o senhor, não é?’ Resignado, Deus esclarece: ‘Eu era Deus até a semana passada. Washington Olivetto tomou o meu ‘cargo’ e já mudou o nome do lugar’. Agora, é W/Céu. Eu sou apenas seu diretor de arte’”. A história certamente vai figurar numa próxima edição do excelente “Na Toca dos Leões — A História da W/Brasil, uma das Agências de Propaganda mais Premiadas do Mundo” (Editora planeta, 495 páginas), do jornalista e escritor Fernando Morais.

O livro tem cheiro de “biografia” autorizada — tanto que a história do sequestro de Olivetto, saiu resumida, a pedido do publicitário — e isto tem gerado críticas de certo modo ácidas, como a da “CartaCapital” que, sem apresentar dados contundentes, sustenta que a W/Brasil vai mal. Na verdade, Fernando Morais, um dos mais competentes biógrafos brasileiros, prova que as hagiografias também podem ser muito boas, desde que se conte tudo, ou quase tudo. Ao contrário dos biógrafos anglo-americanos, que adoram mexericos (porque fazem parte da amplitude da vida), o jornalista patropi praticamente ignora a vida sexual do bem-sucedido publicitário. No Brasil, como em qualquer lugar, grana e sexo são irmãos siameses. No caso, pelo que nos conta o econômico biógrafo, Olivetto só teve duas mulheres, ou melhor, duas esposas; está no segundo casamento, com Patrícia Viotti, uma das proprietárias da Conspiração Filmes. A favor do autor pode-se argumentar que o livro tem como objetivo contar a história da agência W/Brasil, não a vida íntima de seus criadores. E a conta admiravelmente bem, com um texto refinado. O primeiro capítulo, no qual conta a história de funcionários menos prestigiados, é digno de um grande escritor.

Como não é teórico, nem historiador, Fernando Morais não se dispõe a criar discursos para provar que o sucesso de Olivetto se deve à vitalidade do capitalismo tropical, apesar de todos os percalços. Antes, e com outras palavras, o jornalista mostra como, apesar das intensas dificuldades e enfrentando as forças do atraso, o indivíduo pode vencer no capitalismo tardio. As ideias, e menos o dinheiro, foram (e são) a chave do sucesso do publicitário. Sim, ele mostra que Olivetto é extremamente vaidoso, como a maioria dos mortais, mas prova que, sem resultados práticos, a vaidade morreria na praia. Ou seja, a vaidade dele tem uma lógica, uma explicação plausível, porque celebra algo factível de ser provado. O sucesso do publicitário não é de araque. “Washington fala como uma matraca (especialmente se for a seu próprio respeito) e não esconde que adora os holofotes, mas a fama não fez dele uma pessoa soberba. Parece estar o dia todo de bom humor. Sem fazer dietas nem ginástica.”

Criada por Olivetto, Gabriel Zellmeister e Javier Llussá Ciuret (o chefão da área financeira e administrativa), há 19 anos (que serão completados em julho), a W/Brasil tem 105 funcionários (fez demissões recentemente, segundo a “CartaCapital”), arrebatou 902 prêmios. Em Cannes, levou 21 Leões — sete de ouro, cinco de prata, nove de bronze. A W/Brasil faturou tudo o que se imagina em termos de premiações importantes. Olivetto é dono de 60% e os 40% restantes são divididos, em partes iguais, entre Zellmeister e Llussá. A W/Brasil gestou a Holding Prax, que comanda outros negócios, como a agência de Webdesign e TI PopCom Blue Eagle “e detém entre 30% e 40% das agências Parra Promoções, Lew, Lara e Escala”. A Prax gere “verbas publicitárias de cerca de 1 bilhão de reais anualmente”. O grupo também atua na área de bebidas, com o destilado Fogo Paulista (que derrubou Janis Joplin) e a vodca Zvonka.

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Entre os 35 clientes da W/Brasil estão (o mais poderoso, o Unibanco, para o qual Olivetto criou o Casal Unibanco, rompeu o contrato) Natura, Sadia Alimentos, Grendene, Valisère (o divórcio não deu certo e a W/Brasil e a Valisère casaram-se de novo). A W/Brasil é uma das poucas agências que dispensam clientes que faturam pouco — o que gerou uma crise com o dono da Staroup — e Olivetto não aceita que trabalhe em campanhas políticas (Fernando Morais confidencia que, secretamente, a agência trabalhou em sua campanha para deputado federal, na época da Constituinte).

Bill Gates como garoto-propaganda

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Olivetto não se contenta com pouco; se pode “contratar” Bill Gates ou Madonna (a cantora rejeitou um “bico”) como garoto-propaganda não perde tempo com a turma da Zona Franca de Manaus ou com o contrabando mais “legal” do planeta, o do Paraguai. Antes de Gates, em 1987, Nizan Guanaes, na época redator da W/GGK (aliança de Olivetto com suíços), e Kélio Rodrigues, diretor de arte, “puseram nas rádios brasileiras o presidente mundial da Sony, Akio Morita, e o cantor espanhol Julio Iglesias pedindo contribuições aos brasileiros para o projeto de restauração do Pelourinho, em Salvador”.

O golpe de mestre “viria em maio de 2000, quando os telespectadores do horário nobre depararam com o bilionário americano Bill Gates, criador e dono da Microsoft, fazendo propaganda para o Unibanco”. Os contatos com Gates foram facilidades porque o Unibanco e a Microsoft estavam iniciando uma parceria. Mas a gravação quase não saiu, ou melhor, só saiu graças ao fair play de Gates. A equipe de produção da W/Brasil, destacada para fazer a gravação na Califórnia, montou um estúdio “para alguém com mais de 1,90m” e descobriu, aterrada, que ele só media 1,78m. Os técnicos disseram que a gravação iria demorar uns 15 minutos e Gates, bem-humorado e sem frescura, pediu uma lista telefônica, colocou-a na cadeira, sentou-se em cima e fez a gravação.

Amador Aguiar rejeita proposta de Olivetto

A história de Amador Aguiar, até por um certo nonsense, é formidável. Olivetto tem um lema — “Nós não convivemos com o impossível” — e, com ele em mente, procurou o fundador do Bradesco para fazer um anúncio da camisa Wollens, das indústrias Guararapes. Depois de convencer Antônio Ermírio de Moraes — que, com quase 1,90m, entrou num Fiat —, Paulo Maluf e Akio Morita, Olivetto acreditou que seria muito fácil conquistar o conservador e simplório Amador Aguiar. Vestido no estilo chique-descolado, Olivetto foi recebido por um homem simples, “de camisa social sem gravata e usando sapatos sem meias” — ao lado, numa mesa, nada de caviar ou champanhe, e sim queijo parmesão e café.

Depois de um longo tempo perorando, tentando ser persuasivo, Olivetto leu um texto, o que seria falado por Amador Aguiar, e, satisfeito com a própria genialidade, perguntou: “O sr. gostou?” O criador do Bradesco disse que sim, mas não topou fazer o comercial. Sua explicação, que os publicitários não podem, decerto, entender: “Ninguém nem sabe como eu sou, como é a minha cara. Eu raramente viajo para não ser visto em aeroportos. Desculpe, mas não posso aceitar. Imagine, meu filho, eu aparecendo na televisão na hora do jantar”. A um insistente Olivetto, cujo lema havia sido “batido”, Amador Aguiar acrescentou, no seu estilo zen-spleen: “Se você prometer que não fala mais nisso, eu o convido para ficar aqui mais um pouco e compartilhar comigo este delicioso parmesão que acabei de receber. Aceita?”

Agência é igual jornal: o trabalho é sempre coletivo, ainda que o brilho individual deva ser estimulado para que não predominem a burocracia e o texto insosso, igual demais, mesmo quando bem-feito. Na W/Brasil não é diferente. Olivetto é dono do brilho maior, sobretudo no início da carreira — hoje, segundo o mercado, há talentos formidáveis, como Ricardo Freire —, mas as principais criações, se tiveram o seu dedo, propondo ou pontuando, tiveram também as mãos de outros criadores.

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O “Garoto Bombril”, protagonizado por Carlos Moreno, “que entrou para o Livro Guinness de Recordes pelo tempo de permanência no ar, é uma invenção da W/Brasil. Victor Fasano, antes de se destacar como ator da Globo, apareceu num anúncio da Valisère “comprando lingerie para a namorada”. A atriz Letícia Spiller fez comercial para a Fotoptica. A modelo Fernanda Lima ganhou destaque anunciando o chocolates Garoto. Ana Paula Arósio, antes da fama, “fez sua primeira aparição pública em um comercial” para o Boticário. Depois do “Garoto Bombril”, o maior sucesso talvez seja o “casal Unibanco”, que ficou dez anos no ar. A propaganda da fábrica de amortecedores Cofap mudou, de vez, o nome da “raça” dachshund, hoje mais conhecida como “cofap”.

A W/Brasil reinventou a publicidade brasileira? Fernando Morais, narrador que mantém certo distanciamento, apesar de sua paixão, visível, por Olivetto, cita um comentário de Nizan Guanaes, que repõe a história em seu devido lugar: “A Almap [de Alexandre José Periscinoto, o Alex] mudou tudo, tal e qual a Bossa Nova, que aposentou os vozeirões, os versos empolados, e deu uma interpretação refinada ao samba”. É a técnica, eficiente, de Fernando Morais: se precisa deslocar o foco de Olivetto, que se coloca como centro da história, talvez até o seu fim, em termos de publicidade, ele cita outra fonte, que faz o papel corretivo.

O acaso e o talento do golden boy

O leitor, sobretudo o que se interessa por publicidade, certamente está se perguntando como surge um gênio do ramo? “O Golden Boy da propaganda brasileira [como Olivetto é chamado] começou sua brilhante carreira por mera casualidade”, garante Fernando Morais. Em 1971, seu Karmann-Ghia furou um pneu na porta da HGP — Publicidade e, no lugar de solicitar ajuda, pediu um emprego. “Acho que posso bolar uns anúncios geniais para o senhor, tenho certeza de que vou ser muito bom nisso”, explicou-se a Juvenal Azevedo, um dos donos da Harding Gimenez Publicidade.

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Juvenal Azevedo não demonstrou qualquer interesse, mas Olivetto, vestido como hippie, insistiu: “Só entrei aqui porque furou o pneu do meu carro na sua porta. Acho melhor o senhor me dar esse emprego, porque meu pneu não costuma furar duas vezes no mesmo lugar”. A insistência e o exagero renderam-lhe o emprego e, dois anos depois, estava consagrado. Olivetto assistiu aulas na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), mas não terminou o curso de Comunicações. Os professores, como Rodolfo Konder, não o empolgavam. Quem fez sua cabeça foi Neil Ferreira, publicitário notável que fez uma palestra na FAAP.

Como a HGP ficou pequena para Olivetto, este buscou outros caminhos. Recusado pela Almap e pela Lage, Dammann Publicidade, Olivetto procurou Ercílio Tranjan, diretor de criação da Denison, que não o contratou mas propagou suas qualidades entre os colegas. “Você tem que ver o trabalho desse garoto. É absolutamente fora de série”, dizia. Acabou contratado por Sérgio Graciotti, da Lince Publicidade. “Exatos 120 dias após conseguir seu primeiro emprego, ele fora contratado por R$ 7500, um salário quase três vezes maior que o da HGP”, escreve Fernando Morais.

Seu primeiro comercial, feito para o fabricante de torneiras Deca, ganhou o Leão de Bronze do Festival de Cannes de 1971. “Era a segunda vez que o nome do Brasil era pronunciado no pódio do mais importante festival de propaganda”, anota Fernando Morais. Perplexo, Olivetto desconfiou (ou fingiu): “Mas é o primeiro filme e eu só tenho 20 anos! Quem errou: eu ou o júri?”

Em 1972, tido como a principal revelação da publicidade brasileira, passou a ser assediado por agências, como a Standard. Resultado: seu salário subiu para 18 mil reais. Na JRM/Lince, Olivetto conheceu Gabriel Zellmeister, diretor de arte. Neste texto, concentro-me mais na história de Olivetto, por motivo de espaço, mas a história de Zellmeister, assim como a de Javier Llussá, é muito interessante. Discreto, portanto sem o renome de Olivetto, é tido como um dos mais criativos diretores de arte do país. Foi o primeiro a se aproximar da DPZ Propaganda, agência criada por Roberto Duailibi e pelos artistas catalães Francesc Petit e José Zaragoza em 1968. Mas só foi contratado 15 anos depois. Primeiro trabalhou na Lótus e Hot Shop. Ele e Olivetto se conheceram na Agência Casabranca, e não se entenderam. Llussá conheceu Olivetto já na DPZ. Petit disse: “Javier, presta atenção neste menino, porque ele ainda vai ser muito famoso”.

Crise com a DPZ. Traição?

Em 1973, Olivetto pede emprego na DPZ. Roberto Duailibi viu seu material e aprovou, mas o entusiasmado foi Petit: “Roberto, traz essa cara para cá, porque ele é muito bom. Quero que ele venha trabalhar comigo”. Olivetto espantou-se: “Eu no texto e você [Petit] na direção de arte? Mas, meu Deus, aos 22 anos vou fazer dupla com Nossa Senhora da Propaganda!”.

Mesmo irritado com Olivetto, porque este teria “traído” a DPZ, Petit, ouvido por Fernando Morais, disse que ele e Olivetto fizeram “a melhor dupla de criação da propaganda brasileira em todos os tempos. (…) Foi um tempo muito legal. Eu sempre fui acusado de encher demais a bola do Washington, de dar importância excessiva a ele. Ué! Ele tem que ser importante, sim: ele é bom. Ele é um talento, então ele tem quer ser importante. Você não pode esconder um talento. (…) Ele [Olivetto] acrescentava cultura à propaganda, que é uma coisa muito rara”. Para uma campanha da Olivetti, ele introduziu uma poesia de Fernando Pessoa.

Encarregados de fazer a publicidade do escritório imobiliário Clineu Rocha, Olivetto e Petit pegaram a foto de uma igreja, o primeiro fez o título: “Faça como Deus. More numa casa grande, bonita e bem decorada”.

Os grandes criadores publicitários, como os escritores, quase sempre são inseguros. Um megalômano como Olivetto também é? O próprio Olivetto esclarece: “De vez em quando eu acordava e pensava: putz, e se eu não tiver mais nenhuma ideia? E se eles descobrirem que sou um engano? E se chegar a polícia?” Ele e Petit criaram para o Banco Itaú “Rodolfo” e “Anita”, “o primeiro e mais célebre da série de casais de garotos-propaganda da TV moderna”.

Em 1975, com o anúncio Homem de 40 anos, sobre o desemprego de pessoas na faixa dos 40 anos, ganhou o primeiro Leão de Ouro da propaganda brasileira. “Que maravilha! Então as pessoas não estão enganadas. Eu sou mesmo muito bom nesse negócio”, concluiu Olivetto.

A guerra posterior entre Olivetto e o trio da DPZ obscureceu o trabalho do publicitário na agência. Mais uma vez, Fernando Morais recorre ao supostamente imparcial Nizan Guanaes, que também brigou com Olivetto (“Eu sou o Olivetto amanhã”, poderia ter dito ao deixar de ser empregado do dono da W/Brasil), para pôr as ideias no lugar: “Não se pode falar da DPZ sem falar de Washington Olivetto. O W era, na realidade, a quarta letra da DPZ. Nenhum criativo produziu tanto quanto ele. O Washington está para a propaganda como João Gilberto está para a música brasileira”.

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Uma das histórias mais divertidas de Olivetto diz respeito ao seu encontro com o banqueiro Olavo Setúbal, dono do Itaú. Setúbal perguntou se Olivetto achava a propaganda para o banco “boa mesmo”, e o publicitário respondeu: “Doutor Olavo, o senhor acha que se essa campanha não fosse boa pra cacete eu teria coragem de vir aqui de tênis Miss Pig cor-de-rosa?” Setúbal respondeu: “A campanha está aprovada”. Como não inventou a criatividade, Olivetto pelo menos inventou, segundo Fernando Morais, a “técnica” de ele mesmo, o criador, expor seu trabalho para os empresários e diretores de marketing.

Durante anos, Olivetto e Petit brigaram pela paternidade do Garoto Bombril. A briga acirrou devido à sua saída de Olivetto da DPZ, em 1986, quando tomou os 12 milhões de dólares da conta da Bombril. Depois de muita encrenca, ambos admitem que se trata de uma criação da dupla. “Os dois somos os autores do personagem e da campanha. O Washington é redator, eu sou diretor de arte: ambos fomos os criadores”, diz Petit. “Quando, em 1978, Francesc Petit e eu criamos a campanha do lava-louças Bombril”, admite Olivetto.

Para muitos, a imagem cristalizada de Olivetto é apenas a de um homem que gosta muito de aparecer — e ele gosta mesmo, pelo menos até o sequestro de 2001 (contado no final do livro). Mas, além de criativo, é um publicitário rigoroso. Um redator escreveu, para a publicidade do cigarro Continental: “Vai ver se eu estou no bar da esquina”. A Souza Cruz não queria ponto final no outdoor, porque contrariava seu marketing. Olivetto foi ao Rio de Janeiro duas vezes e, depois de uma discussão intensa, manteve o ponto final. “Tem que ter o ponto, senão o título ficará solto no outdoor. Tirar o ponto tira a força da frase”, explicou o publicitário, que venceu a parada.

Na DPZ, Olivetto ganhava 50 mil reais e recebeu uma proposta irrecusável da Denison Propaganda — salário de 200 mil reais, o cargo de diretor de criação, um automóvel importado e um apartamento na Vieira Souto. Ele achou que não era o momento de sair da DPZ, que já faturava, no início da década de 1980, 250 milhões de reais. Olivetto ganhou o cargo de diretor de criação da DPZ e um aumento de salário. Recebeu convite para trabalhar na GGK, na Alemanha, mas não foi.

Na década de 80, Olivetto, Zellmeister e Llussá estavam na DPZ. Llussá saiu em 1985. Depois, Zellmeister foi demitido. Olivetto percebeu que havia ficado só e acabou aceitando convite para ser sócio da suíça GGK, que, no Brasil, ganhou o nome de W/GGK. Olivetto disse aos jornalistas: “Não queremos ser a maior agência do Brasil, apenas a melhor. (…) O que tem que ser grande é a ideia, não a agência”. Além de levar Nizan Guanaes e Camila Franco, ambos criadores, Olivetto conquistou clientes da DPZ, o que provocou uma guerra. A Grendene e a Bombril mudaram de barco. Um prejuízo de 30 milhões de dólares para a DPZ.

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A W/GGK virou uma máquina de ganhar prêmio. “O primeiro Valisère [ou sutiã] a gente nunca esquece” ganhou o Leão de Ouro de Cannes, entre outros prêmios. No fim da década de 1980, a W/GGK vira W/Brasil e passa para o controle de Olivetto (60 por cento), Llussá (20 por cento) e Zellmeister (20 por cento).

A W/Brasil é, hoje, uma das mais importantes agências de publicidade do país e crises pontuais, como aponta a “CartaCapital” (cuja reportagem é maldosa e sugere mais do que informa), certamente não abalam seus alicerces. Olivetto perdeu a capacidade criativa? Não, é claro; e mais: há na sua equipe publicitários como Ricardo Freire, o novo golden boy, e Camila Franco. A perda de um anunciante é grave, mas a W/Brasil recuperou a Valisère e, por isso, pode recuperar, mais tarde, o Unibanco.

Ronaldo Caiado vai processar um sócio da W/Brasil

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O deputado federal Ronaldo Caiado (PFL) é citado duas vezes no livro de Fernando Moraes, na página 301. Primeiro, depois de ter mencionado Paulo Maluf, que fez publicidade para vender sapato, Washington Olivetto faz o que Fernando Morais chama de “piadinha de publicitário”: “Só não dá para fazer [publicidade] para o Ronaldo Caiado, porque a Vulcabrás não fabrica botinas”.

Candidato a presidente da República, em 1989, Ronaldo Caiado, então líder consagrado da União Democrática Ruralista (UDR), procurou Washington Olivetto para fazer a sua campanha. Relata Fernando Morais: “Chegou acompanhado de uma dúzia de agroboys, como eram chamados seus seguidores, e foi recebido por Gabriel e Washington. Mas a conversa durou pouco”. Gabriel Zellmeister relata: “O cara [Ronaldo Caiado] era muito louco. Contou que era médico e tinha a solução para o maior problema do país, ‘a superpopulação dos estratos sociais inferiores, os nordestinos’. Segundo seu plano, esse problema desapareceria com a adição à água potável de um remédio que esterilizava as mulheres. Fiuuu! O papo acabou aí”.

Na quarta-feira, 6, o Jornal Opção fez o que o jornalista Fernando Morais não fez: ouviu a versão do deputado Ronaldo Caiado, um dos principais líderes do PFL. O parlamentar ainda não sabia que havia sido mencionado no livro, mas, confrontado com o teor da declaração de Zellmeister, contestou-a, com veemência, e garantiu que vai interpelar o publicitário. “Se confirmar o que está publicado, vou processá-lo. O jornalista foi irresponsável ao não me ouvir.” Na quinta-feira, 7, o assessor de imprensa do deputado, Edmar Oliveira, disse que ele contratou o advogado Wanderley de Medeiros para processar tanto Gabriel Zellmeister quanto Fernando Morais.

A versão de Ronaldo Caiado: “Eu estive uma vez com Washington Olivetto, na sede da W/Brasil, em São Paulo. Em nenhum momento conversei com um de seus intermediários, como o sr. Gabriel, de quem ouço falar pela primeira vez. Olivetto estava sozinho e não conversamos sobre o tema ‘denunciado’ pelo sr. Gabriel, até porque, como médico, político e ser humano, não diria o que ele pôs na minha boa. Não penso assim, pois tenho respeito por todo o povo brasileiro, seja de qual Estado for”.

Na conversa “curta” (diz o deputado) com Olivetto, Ronaldo Caiado garante que disse apenas que queria fazer uma campanha para mostrar que o setor produtivo primário não era resistente à reforma agrária, à modernização da economia. “Olivetto me disse que a W/Brasil só trabalhava com grandes empresas e não fazia campanhas políticas. Mas sugeriu que, se fosse fazer a minha campanha, diria que o setor rural é responsável pela produção de alimentos e, para combater a tese de que a candidatura do PSD era de direita, que o estômago fica no centro, não nas partes esquerda ou na direita do corpo. Encerramos a conversa, de forma diplomática, sem qualquer conflito”, garante Ronaldo Caiado.

Paulo Maluf compara Duda Mendonça a um computador boliviano

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Em 1989, candidato a presidente, Paulo Maluf procurou a W/Brasil. Washington Olivetto rejeitou o convite e indicou José Eduardo Mendonça, o Duda.

Maluf reagiu, meio irado: “Mas Washington, meu querido, quando eu ligo para a W/Brasil para contratar seus serviços é como se eu ligasse para o Vale do Silício, na Califórnia, e pedisse o mais moderno computador do mundo. E você me oferece um computador boliviano? Um publicitário baiano deve ser tão eficiente quanto um computador boliviano…”.

Notas

¹ Minha resenha foi publicada na edição de 10 a 16 de março de 2005 do Jornal Opção e é reproduzida integralmente. Optei por não fazer mudanças. O leitor precisa ser alertado que o texto foi publicado há 11 anos. Portanto, muita coisa mudou nos negócios de Washington Olivetto e de seus sócios ou ex-sócios, o que pode ser verificado em consultas ao Google e à Wikipédia. Pelo menos uma pessoa mencionada no longo comentário, o advogado Wanderley de Medeiros, já morreu.

² Quando o Jornal Opção ligou para o então deputado federal Ronaldo Caiado, para colher sua opinião, ele ainda não sabia da existência do livro. Lida a resenha e, depois, o livro, o parlamentar do DEM processou o autor da obra, Fernando Morais (não deixa de ser curioso que foi a resenha, e não o livro, que motivou a ação judicial e, em seguida, a repercussão na mídia nacional). Este, embora um pesquisador qualificado, não conseguiu apresentar provas do que publicou sobre o político de Goiás, o que resultou em condenação judicial. Sua principal fonte, Gabriel Zellmeister, negou em juízo que tivesse feito o comentário que lhe é atribuído no livro.

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Adalberto De Queiroz

Eis um texto que pode figurar no livro de testemunhos sobre o nosso século, com as notas de rodapé e tudo. Parabéns, Euler. Um livro o espera e o mercado leitor espera lê-lo, fora das quatros linhas do jornal. Abraço,
Beto.