Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro resgata a história de um poema perdido de James Joyce

O escritor irlandês escreveu “Et Tu, Healy” em 1891, quando tinha 9 anos, para homenagear o líder político Parnell, recém-falecido

CGW

Trecho do poema desaparecido de James Joyce: “Seu estranho ninho de águia nas escarpas do Tempo/Onde o rude estrépito deste… século/Já não pode incomodá-lo”

“Alguém Viu a Mo­na Lisa? — His­tórias Sobre O­bras de Arte e Literatura Desaparecidas” (Record, 264 páginas, tradução de Ales­sandra Bonrruquer), de Rick Gekoski, é um desses livros interessantíssimos, diriam o escritor Mário de Andrade e o pedronavista Marcelo Franco, mas pelos quais não damos, às vezes, um real furado. Os textos são misteriosos e envolventes. O escritor e comerciante de livros raros sabe como conduzir e seduzir o leitor. Há histórias enviesadas, que ainda não têm como serem esclarecidas, mas o ex-presidente do Prêmio Man Booker International sabe torná-las um pouco mais luminosas.

“Uma história de fantasmas: ‘Et Tu, Healy’, de James Joyce” é um texto fascinante sobre um poema perdido do escritor irlandês. O poema-panfleto foi escrito quando o autor de “Ulysses” e “Finnegans Wake” tinha 9 anos.

“Trata-se de um fragmento e é impossível fazer qualquer comentário sério a respeito de sua qualidade. Tudo que se conhece do poema — não existem versões impressas — são os seguintes versos, que presumivelmente o encerram: “His quaint-perched aerie on the crags of Ti­me/Where the rude din of this… century/Can trouble him no more”. Tradução de Alessandra Bon­rruquer: “Seu estranho ninho de águia nas escarpas do Tempo/Onde o rude estrépito deste… século/Já não pode incomodá-lo”.

Gekoski diz que quer “possuir” uma cópia do “folheto de impressão barata”. Frisa que é “assombrado por sua ausência, pela débil possibilidade de sua descoberta e pelos aspectos inacabados do texto pouco promissor”.

Stanislaus Joyce, irmão mais novo de Joyce, chamava o escrito de 1891 como “o poema de Parnell”. Trata-se de Charles Stewart Parnell, político irlandês falecido naquele ano. O texto contém versos elogiosos a Parnell, mas o título latino escolhido por James Joyce foi “Et Tu, Healy”. Os versos citados acima decorrem da memória de Stanislaus.
O poema era, segundo Stanislaus, “uma diatribe contra o suposto traidor Tim Healy, que se transformara em delator a serviço dos bispos católicos e era um virulento inimigo de Parnell; assim, o poema era um eco dos rancores políticos que compunham o tema das fúrias noturnas e semiembriagadas de meu pai”.

O pai de James Joyce, John Joyce, era admirador de Parnell. Em­polgado com o texto do filho, relata Stanislaus, “imprimiu e distribuiu os folhetos entre os admiradores. Tenho a distinta lembrança de meu pai trazendo para casa uma pilha de trinta ou quarenta folhetos”.
Inquirido por Jake Schwartz, da Livraria Ulysses, sobre os folhetos, John Joyce disse: “Se me lembro? Como não lembraria? Pois não paguei pela impressão e enviei uma cópia ao papa?” O papa, por certo, não leu. Pes­qui­sadores vasculharam a Biblioteca do Vaticano, mas não encontraram nenhuma cópia do poema.

“Et Tu, Healy” tem importância literária? Tudo indica que nenhuma e que “Dublinenses”, “Retrato do Artista Quando Jovem”, “Ulysses” e “Finnegans Wake” são o que o irlandês escreveu de melhor. Será lembrado por “Ulysses” e “Finnegans Wake”. Mas o poema-panfleto, com James Joyce “interferindo” na realidade, reagindo aos interesses políticos do pai, vale como curiosidade histórica. Porém, desaparecido, não pode ser avaliado.

Gekoski assinala que não existe “praticamente nada escrito sobre ele. Nenhuma consideração prolongada nem mesmo um simples artigo, mas apenas algumas menções de passagem”. Por quê? Porque, sublinha o au­tor do livro, “não existe material su­ficiente para trabalhar”. Ele chega a dizer que imaginou uma história, no estilo bibliomistério, mas acabou desistindo. O titulo seria “Et Tu, Borys”.

“Entre 2004 e 2010, a Biblioteca Nacional da Irlanda gastou mais de 10 milhões de euros em esboços manuscritos de ‘Ulysses’ e ‘Fin­negans Wake’. Descendentes de Stanislaus Joyce e John Quinn (o advogado e colecionador nova-iorquino que, nos anos 1920, comprou de Joyce uma versão manuscrita de ‘Ulysses’), amigos de Joyce e o amanuense Paul Leon venderam material que altera nosso entendimento de sua obra. Além disso, manuscritos apresentados por um livreiro de Paris lançaram nova luz sobre a história da composição tanto de ‘Ulysses’ quanto de ‘Finnegans Wake’. E eu soube que a biblioteca de T. S. Eliot — visitada apenas por um punhado de acadêmicos — contém quatorze cartas, até então não registradas, de Joyce para Eliot”, anota Gekoski.

“Se existir um exemplar do panfleto — tem de existir um —, ele certamente estará em algum lugar de Dublin”, sugere Gekoski. Se encontrado, quanto valeria o poema de James Joyce? “Vendas recentes de material relacionado a Joyce conseguiram preços altos o bastante para incluir um iate modesto.”

James Joyce vale ouro no mercado dos colecionadores. “Um bom exemplar dos cem livros autografados da primeira edição de ‘Ulysses’ vale hoje 250 mil libras [uma libra vale, em 2015, 6 reais]. Majestosa em seu azul egeu, essa é a edição mais desejada do livro mais importante do século [20]. ‘Et Tu, Healy’ valeria mais do que isto? Ele não é tão belo nem tão importante, porém é mais raro. É um fantasma.”

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Livro de Rick Gekoski conta a história de obras desaparecidas ou destruídas

Além dos colecionadores particulares, a Biblioteca Nacional da Irlanda e a Universidade do Texas têm interesse em tudo que se refere a James Joyce. “No leilão de objetos da família de Stanislaus Joyce realizado pela Sotheby’s, alguém — não um dos colecionadores habituais — pagou 240.800 libras por uma das cartas eróticas que Joyce escreveu para a esposa Nora (‘minha puta de olhos alucinados’) em 1909, louco de desejo durante uma breve separação. Ninguém sabia quem era o comprador, embora rumores sugerissem Michael Flatley, o bailarino de ‘Riverdance’, que vem construindo uma biblioteca. Será que ele — se era ele — acharia ‘Et Tu, Healy’ mais excitante do que a carta erótica?” É provável que Gekoski acharia, mas não o bailarino; afinal, uma carta erótica é mais atraente e, até, glamorosa.
Depois das várias “voltas”, Gekoski retoma a questão do preço provável de “Et Tu, Healy”. Ele perguntou a Tom Staley, diretor do Centro Harry Ramson, da Univer­sidade do Texas, em Austin, “o maior repositório de material sobre literatura moderna do mundo, e joyciano”, sobre o valor do poema de James Joyce.

Na opinião de Tom Staley, o poema vale 1,4 milhão de dólares. Gekoski quis saber se o diretor da Universidade do Texas compraria o panfleto de James Joyce. “Eu teria de encontrar um doador, mas poderia comprar”, declarou.

Peter Selley, do departamento de livros da Sotheby’s, sugeriu que o poema vale de 300 mil a 500 mil libras. “Embora, em sentido imediato, o poema seja bem menos sensual do que a carta erótica, ele tem a óbvia imensa vantagem de estar ausente de todas as grandes coleções públicas ou particulares, além de apelar ao profundo interesse atual, aqui e nos Estados Unidos, pelo nacionalismo irlandês”, disse Peter Selley.

Se descoberto, o poema poderia ser publicado em livro sem autorização da família de James Joyce — dado o fato de que sua obra caiu em domínio público (o escritor faleceu há 74 anos)? Stephen Joyce, neto do autor do conto “Os Mortos”, “é tão litigioso que mesmo a Christie’s, quando ilustrou um manuscrito de Joyce, decidiu borrar a imagem discretamente, como se fossem os pelos públicos de uma modelo em uma velha fotografia erótica. E, embora sua obra previamente publicada já não esteja protegida por direitos autorais, não está claro se uma nova peça o seria. Afinal, ela foi publicada — não foi? — e, assim, os direitos autorais teriam vencido. É possível ter direitos autorais sobre um fantasma?”

Gekoski conclui o texto de maneira deliciosa: “Espero que o folheto nunca seja encontrado. Gosto mais dele perdido”. Mas logo acrescenta: “A não ser, é claro, que seja eu a encontrá-lo”. Só não explica se, como comerciante de livros, o venderia…

Uma resposta para “Livro resgata a história de um poema perdido de James Joyce”

  1. Um saboroso texto sobre um panfleto! Eis o segredo de fazer de quem sabe temperar até um “sola de sapato” (à la Schopenhauer!).

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