Euler de França Belém
Euler de França Belém

Livro resgata a vida sexual dos ditadores Lênin, Stálin e Fidel Castro

O puritano Lênin era adepto do triângulo amoroso, Stálin tinha várias amantes e Fidel Castro descartava as amantes como quem troca de roupa

Se o sexo é o maior tormento humano, o poder, como notou Henry Kissinger, é afrodisíaco. Na fleumática Inglaterra, os jornais há muito perceberam que não se pode dissociar vida privada de vida pública, sobretudo quando está em jogo as “grandes” vidas públicas (atores, políticos, empresários, família imperial). Talvez os jornalistas ingleses estejam obedecendo à psicanálise — e, claro, ao mercado (os jornais vendem como água mineral) — que não dissocia a vida, a biografia, das obras (as ações) dos homens. John Kennedy atribuía seu vigor político ao insaciável fôlego sexual (Bill Clinton era neném perto de Jack Kennedy). O presidente norte-americano era priápico, como o ex-senador Bernardo Cabral, ex-amante da economista Zélia Cardoso de Mello, ministra da Economia do governo de Fernando Collor, e como o presidente Juscelino Kubitschek. No Brasil, ao contrário da Inglaterra e dos Estados Unidos, a imprensa, embora também goste de sensacionalismo, é pudica em assuntos sexuais. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek tiveram amantes, mas praticamente não há registro, em livros específicos, sobre o que faziam nas alcovas. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve um filho¹ com a jornalista Miriam Dutra, mas a mídia finge, até hoje, que o sociólogo é um santo. Somos puritanos. Não na prática, mas pelo menos em termos de jornais.

Já que no Brasil, em virtude do poder excessivo dos governantes (há uma espécie de “ditadura democrática”, ou democradura), não se pode falar da sexualidade dos políticos — “sexo é baixaria”, dizem, na teoria, “os agredidos” —, as editoras apostam nas alcovas de outros países. É o que faz a Prestígio Editorial, responsável por “A Vida Sexual dos Ditadores” (318 páginas), do jornalista inglês Nigel Cawthorne. O livro é sensacionalista e isto é um alerta para o leitor. Ressalve-se que algumas histórias — e vou citar aqui apenas as menos conhecidas, a dos ditadores de esquerda, que quase sempre são protegidos pela mídia — podem ser confirmadas por alguns livros de pesquisadores sérios, como Richard Pipes, autor de “História Concisa da Revolução Russa”. Cawthorne analisa a vida sexual de Napoleão, Lênin, Stálin, Mussolini, Hitler, Mao Tsé-tung, Fidel Castro, Juan Perón, Ferdinando Marcos, Idi Amin e Saddam Hussein.

Inessa Armand: a bela amante de Lênin | Foto: Sovfoto/Universal Images Group via Getty Images)

Lênin e Inessa Armand

Vladímir Ilyich Ulyanov, verdadeiro nome de Lênin, não era um Kennedy, mas, como Fernando Henrique Cardoso e Juscelino Kubitschek, era um amante apaixonado. Seu amor de conveniência, por toda a vida, foi Nadezhda Konstantina Krupskaya, Nadya, com quem se casou. Krupskaya era uma revolucionária nata, que entendia o político Lênin como ninguém, daí a atração. Só que sabia muito pouco a respeito das carências afetivas do homem Lênin. Daí que, para assuntos pouco ortodoxos, Lênin buscou novos amores, como Apollinaria Yakubova. “Nadya parece um arenque”, disse uma irmã de Lênin. Sim, era magra, mas o que a irmã de Lênin quis dizer, mesmo, foi que era “assexuada”. “Bastava olhar para a Krupskaya [Nadya] para entender por que Lênin não se interessava por mulheres”, notou Ilya Ehrenburg, que talvez entendesse muito de mulheres e pouco de Lênin.

Inessa Armand e Lênin: amantes e apaixonados | Fotos: Reprodução

Como Fidel Castro, o precursor Lênin tinha um fraco por mulheres ricas. Foi amante, por nove anos, de Elizabeth K, uma rica aristocrata russa. Machista inveterado, Lênin “afirmou”, segundo Cawthorne, “que jamais havia encontrado uma mulher que tivesse lido ‘O Capital’ de modo correto, que entendesse os horários dos trens ou jogasse xadrez”. O bolchevique deu um tabuleiro a Elizabeth K, para que esta provasse que ele estava errado. Elizabeth não gostou e, em resposta, enviou um cartão-postal da Mona Lisa “e lhe pediu que o contemplasse e escrevesse descrevendo a própria reação”. Insensível, Lênin replicou: “Não sinto nada em relação à sua Mona Lisa. Nem o rosto, nem o vestido me dizem coisa alguma. Acredito que exista uma ópera com esse nome e um livro de d’Annunzio. Simplesmente não compreendo nada sobre o objetivo que você me mandou”. Este tipo de insensibilidade foi levado para o campo político, com o desastre que todos conhecem hoje.

O grande amor da vida do moralista Lênin não foi, porém, Elizabeth K, e, sim, a francesa Elisabeth d’Her-benville Armand, mais conhecida como Inessa. Ao perceber que não era páreo para Inessa, a mulher de Lênin, Nadya, aliou-se a ela. Quando voltou para Paris, Inessa escreveu para Lênin: “Fomos separados, tu e eu, meu querido! E é tão doloroso!”. Em seguida, voltaram a se encontrar, num triângulo amoroso. Nadya decidiu separar-se de Lênin, quase numa boa, mas Lênin não quis. Preferiu manter o triângulo amoroso. Nadya era a companheira revolucionária de todos os dias. Inessa, o amor, a paixão, o sexo vivo e forte. “Foram Lênin, Nadya e Inessa que planejaram a Revolução de Outubro”, diz o exagerado Cawthorne. Quando Inessa² morreu, em 1920, Lênin desabou.

O fauno Ióssif Stálin

Stálin e sua mulher, Nadya, que se matou | Foto: Reprodução

O homem de aço da Rússia, o georgiano Ióssif “Stálin” Djugachvili, só não era pior do que Lavrenti Béria em termos de conquistas amorosas. Lênin levava a sério suas amantes, ao contrário de Stálin, que, depois do ato em si, as descartava, pois preferia a companhia dos homens. Sua primeira mulher, Ekaterina Svanidze, morreu em 1910. Embora seja difícil acreditar, Cawthorne diz que o bolchevique educado pelos jesuítas ficou arrasado (autores equilibrados e respeitados confirmam o autor sensacionalista). “Essa criatura amoleceu meu coração de pedra. Agora está morta, e com ela morreram meus sentimentos pelos seres humanos”, disse Stálin. Cawthorne garante que Stálin colocou a mão no coração e acrescentou: “É tudo tão desolador aqui dentro, tão indescritivelmente desolador!” Cawthorne comenta: “Milhões morreram em consequência”. Simplista? Talvez não.

Em 1919, Stálin descobriu sua próxima vítima, Nadya Alliluyeva, de 16 anos. Nadya é mãe de Svetlana, a filha de Stálin que fugiu da Rússia e, mais tarde, tornou-se “freira” para, contou, purgar os crimes do pai. Cedo, Stálin cansou-se de Nadya, sobre a qual dizia que era “uma mulher com ideias… um arenque com ideias — pele e ossos”. Daí levou uma garçonete-governanta para sua casa de campo e a fez de amante. Nesse mesmo período, Stálin era amante de uma bailarina e engravidou uma filha do bolchevique Lazar Kaganovich. A garota tinha apenas 16 anos. Cawthorne, nesse caso, fala em “rumores”. Em 1932, ao encontrar Stálin na cama com a mulher de um funcionário do partido comunista, Nadya matou-se com um tiro. “Partiu como inimiga” — foi o único comentário de Stálin. Mas o ditador agiu: “A irmã de Nadya, Anna, foi condenada a dez anos de solitária. O irmão, Pavel, morreu de ataque cardíaco em 1938, durante o Expurgo [expulsão e assassinato de integrantes do partido comunista]. A esposa de Pavel, Eugênia, foi presa sob a falsa acusação de tê-lo envenenado. O marido de Anna, Stanilav Redens, foi preso e executado no mesmo ano”, relata Cawthorne³.

Stálin: autor do livro diz que o ditador tinha o habito de beijar homens na boca | Foto: Reprodução

Stálin era uma pessoa de uma crueldade incomparável. Quando o filho Yakov tentou suicidar-se, Stálin atacou: “Ah! Ele não consegue sequer atirar direito”. Yakov, capturado na Segunda Guerra Mundial, acabou fuzilado pelos nazistas. Os alemães ofereceram-se para trocar Yakov por um prisioneiro nazista, mas Stálin não quis: “Nenhum russo verdadeiro se renderia”. O filho caçula de Stálin, Vasily, “morreu devastado pelo álcool aos 41 anos. Um de seus filhos morreu de overdose de heroína. Uma filha era alcoólatra, e outra foi internada num manicômio.

Cawthorne sugere que Stálin tinha tendências homossexuais, mas, ao mesmo tempo, ressalva que o ditador “tinha horror ao homossexualismo” (ódio em excesso pode ser amor inconsciente ou até muito consciente). “Em 1933, [Stálin] tornou ilegais todos os atos homossexuais.” O jornalista mexeriqueiro conta que, na visão de Stálin, “os gays estariam formando uma quadrilha para derrubar o Estado”.

Embora sem apresentar documentação, ou citar bibliografia, Cawthorne escreve: “Havia rumores de que Stálin tinha tido um relacionamento homossexual em meados dos anos 30 com o chefe de seus guarda-costas, o judeu húngaro K. V. Pauker4. Pauker teria sido o parceiro passivo no relacionamento”. Stálin certa vez agarrou o ditador iugoslavo Tito e dançou com ele. “Stálin dançou com tanta exuberância que até ergueu o bestificado iugoslavo nos braços várias vezes.”

Agora, o pior. O embaixador dos Estados Unidos na União Soviética nos anos 30, William Bullit, contou: “Stálin era muito afetuoso comigo. Certa vez, quando tinha bebido um pouco demais, deu-me um beijo bem na boca — foi uma experiência horrorosa!” Os russos costumam beijar os homens na boca, como cumprimento, mas, beijo de língua, aí já é demais (ou será que não é?). Bullit era um homem bonito e elegante, ao contrário de Stálin, que era feio e baixinho (usava botas altíssimas). Mas o que Cawthorne toma por homossexualidade tem a ver, possivelmente, com os costumes russos, pelo menos no caso da dança e do beijo na boca.

Fidel era o Casanova cubano

Célia Sánchez e Fidel Castro | Foto: Reprodução

Fidel Castro não fica atrás (ops!) de Lênin e Stálin, mas talvez seja ainda mais conquistador. Fidel faz5 questão de se apresentar como um homem solteiro, como muitos cantores e atores famosos. Um homem disponível. Só mais recentemente, encanecido, decidiu apresentar sua mulher, Dalia Soto del Valle (não tem o sobrenome do marido), aos visitantes. Ele certamente era casado com a Revolução.

Filho ilegítimo de Angel Castro com uma copeira, Lina, Fidel foi educado em escolas de ótimo nível (a educação em Cuba sempre foi muito boa, assim como a prostituição hoje já supera a de 1959). Só não gostava de trabalhar — fazia política o tempo todo, embora, no início, não fosse marxista, e talvez não o seja até hoje. No campus da universidade, por ser violento, tinha a reputação de gângster. Lá, apaixonou-se, pela primeira vez, pela bela Mirta, garota rica de olhos verdes e cabelo loiro escuro. Casaram-se em 1948. Mirta é mãe de Fidelito. Oportunista, Fidel “até dormiu com uma mulher que tinha o rosto marcado de varíola porque ela controlava os votos mais importantes do partido — e a descartou quando deixou de ser útil”.

Tido como insaciável, o priápico Fidel logo partiu para nova conquista — Natália Revuelta, a Nati, rica e loura. Depois, Nati, caiu fora de Cuba, com Alina, filha de Fidel e hoje oposicionista do regime cubano. No México, Fidel tornou-se amante de Tereza Casuso. Mas Fidel estava de olho mesmo era em Isabel Custudio, de 16 anos. Parecido com um revolucionário goiano, Fidel, “usando o dinheiro que fora doado para a revolução, bombardeou-a com presentes caros”. Mesmo assim, Isabel o rejeitou. Fidel, que nunca gostou muito de tomar banho, passou dias com a mesma roupa, acabrunhado.

Marita Lorenz: recrutada pela CIA, acabou por se apaixonar por Fidel Castro e desistiu de matá-lo | Foto: Reprodução

Em Cuba, Fidel descobriu a sua Krupskaya: Celia Sanchez, igualmente revolucionária. Foram amantes durante 20 anos. Em Cuba, todos falam dos vários casos de Fidel, mas apenas na surdina. Um piadista pode ser fuzilado, se for pego falando “bobagens”, pela polícia política do ditador.

Um caso célebre de Fidel foi com Gloria Gaitán, “a rosa escura de Bogotá”. Gloria era casada com um professor universitário. “O que faz na cama com esse filósofo grego que você tem por marido?”, perguntou-lhe Fidel. Glória respondeu: “Ele é um homem muito inteligente”. Fidel, que odeia intelectuais sérios, redarguiu, irônico: “Obviamente, mas Karl Marx poderia ser mulher que nem assim eu me casaria com ele”. (Marx, por sinal, teve um filho com a empregada doméstica de sua casa e forçou o amigo Engel a assumir a “paternidade”.)

Fidel e Ava Gardner: a atriz demonstrou interesse pelo ditador | Fotos: Reprodução

Depois da revolução, Fidel, que sempre gostou de garotinhas (mas ninguém tem coragem de chamá-lo de pedófilo), apaixonou-se por Marita Lorenz, uma alemã de 17 anos. Segundo Cawthorne, numa conversa com a mãe de Marita, Fidel disse: “Eu sou Cuba” — numa imitação, exacerbada, do rei francês que disse: “O Estado sou eu”.

Numa visita aos Estados Unidos, para a qual levou Marita, Fidel foi assediado por várias mulheres bonitas, como Ava Gardner. Bêbada, Ava agrediu a jovem companheira de Fidel e disse que ela era a “pequena megera que está escondendo Fidel”. A revista “Confidential” publicou uma reportagem na qual se dizia: “Atraída a Cuba por Castro, Marita Lorenz, 18, foi raptada, estuprada e então sofreu um aborto cruel”. Há um certo exagero, produzido pela máquina de propaganda da CIA. Pode-se dizer que Fidel seduziu Marita e que esta se deixou seduzir. A CIA tentou usá-la para matar Fidel, mas Marita desistiu do projeto, ao reencontrar o ex-amante. “Ninguém pode me matar, Marita”, teria dito o “deus” Fidel. No caso de Marita, sobretudo, a apuração de Cawthorne é deficiente, embora seja a única em que, a rigor, cita fontes, mesmo que duvidosas.

Marita Lorenz e Fidel Castro: paixão | Foto: Reprodução

Depois das paixões mais duradouras, que, ao final, fugiam, Fidel teve vários casos. Segundo Cawthorne, “Castro não era o mais atencioso dos amantes — uma dançarina da Tropicana reclamou que ele lia enquanto fazia amor; uma atriz francesa, que ele fumava o tempo todo; outra mulher, que ele jamais tirava as botas. (…) A queixa mais comum era que ele falava incessantemente” (pelo menos disso, de falar muito, não é de se duvidar). Outra paixão de Fidel é a aristocrata Dalia Soto del Valle Jorge, com quem teve cinco filhos, todos educados na União Soviética. É sua atual mulher. Oficialmente.

Pois é, os ditadores (e os democratas), como todos nós, têm sexo e, como quase todos os seres humanos, são, na prática, pouco convencionais. Na teoria, todos nós somos santos. Oh, como somos!

[Resenha publicada em novembro de 2009 no Jornal Opção]

Notas

¹ Fernando Henrique Cardoso reconheceu a paternidade de Tomás e sustentou seus estudos. Mas um exame de DNA provou que ele não é seu filho. Mesmo assim, o relacionamento foi mantido — o que mostra a grandeza do ex-presidente.

² O texto sobre a vida sexual dos ditadores é de 2009. Depois disso, saíram biografias de Inessa Armand: “Inês Armand — O Grande Amor de Lenine” (Verso do Kapa, 240 páginas), de Ritanna Armeni, e “A Amante de Lenine” (Edições Vieira da Silva, 323 páginas), de Luís Ferreira. Os livros foram editados em Portugal — daí as grafias “Inês” e “Lenine”. Robert Service trata extensamente do caso entre Lênin e Inessa no livro “Lênin — A Biografia Definitiva” (Difel, 630 páginas, tradução de Eduardo Francisco Alves. Ele é professor de Oxford.

³ “Stálin — A Corte do Czar Vermelho” (Companhia das Letras,860 páginas, tradução de Pedro Maia Soares), de Simon Sebag Montefiore, formado por Cambridge, documenta as estrepolias do ditador (que, sim, era poeta).

4 O biógrafo Simon Sebag Montefiore não faz menção a relacionamento homossexual entre Pauker e Stálin. De fato, era muito próximos.

5 Fidel Castro morreu em 25 de novembro de 2016.

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