Euler de França Belém
Euler de França Belém

John Kennedy: sexo, escândalos, poder e corrupção

Livro de Seymour Hersh revela a origem corrupta da fortuna da família Kennedy, os nomes das mulheres de Jack Kennedy, as fraudes para ganhar eleições, as histórias para matar líderes políticos de esquerda e de direita e os negócios escusos com a máfia 

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Livro do jornalista Seymour Hersh escancara, sem dó nem piedade, o lado sujo da família “mafiosa” do presidente John Kennedy

Há algum tempo, a revista “IstoÉ Dinheiro” publicou uma série de pequenas biografias de escassa qualidade. Não são sem utilidade porque pequenas. E, sim, porque pouco acrescentam. O texto sobre Roberto “Globo” Marinho, quase uma defesa, não desce aos bastidores, não vasculha as origens de tanto poder e riqueza. É hagiográfico, com leves pitadas críticas, para “satisfazer” os incautos. O jornalista brasileiro — três exceções são Ruy Castro, Fernando Morais e Lira Neto (Sérgio Cabral pesquisa bem, mas não tem o charme de Castro, Morais e Lira) — tem receio dos poderosos (e não se trata tão-somente de políticos e empresários). Em geral, não tem tutano para biografar, criticamente, políticos, empresários, artistas vivos e mesmo mortos. Há sempre o medo de processos e interdições de obras, como tem ocorrido. Em Goiás, Pedro Ludovico não tem uma biografia ampla, que escarafunche até sua vida privada. É assim mesmo: somos condescendentes demais com os homens do poder, mesmo quando não estão mais no poder. Na Europa e nos Estados Unidos, o jornalismo pega mais duro e investiga a fundo a vida pública e privada dos homens públicos. Um exemplo está no livro “O Lado Negro de Camelot” (L&PM, 510 páginas, tradução de Betina Gertum Becker e Lúcia Brito), do jornalista americano Seymour M. Hersh, que faz verdadeira “carnificina” da família Kennedy, rastreia com rigor as origens de sua riqueza e do seu poder. Hersh ganhou o Pulitzer.

O avô corrupto e o peso do dinheiro
O primeiro a ser investigado não é um Kennedy, mas o avô materno de John (Jack) Kennedy — John F. ‘Honery Fitz’ Fitzgerald, um político corrupto. Honery Fitz foi eleito para o Congresso em 1918 com “votos de homens mortos em combate na Primeira Guerra Mundial” (sim, os Estados Unidos já imitaram o Brasil) e de “soldados que ainda estavam na Europa”. Joseph (Joe) Kennedy, pai de Jack, aprendeu muito com o sogro. Um de seus assessores dizia: “São necessárias três coisas para ganhar (eleições): a primeira é dinheiro, a segunda é dinheiro e a terceira é dinheiro”. Em 1946, Jack foi eleito para o Congresso e descobriu, nas palavras do jornalista Seymour Hersh, que “boa aparência, boa organização e trabalho duro não eram suficientes. Acima de tudo, ele precisava do pai — e do pai”. A família Kennedy era riquíssima. Quando morreu, em 1969, “o valor das propriedades de Joe Kennedy e de suas várias companhias foi estimado, pelo New York Times, em ‘possivelmente 500 milhões de dólares’”. Hoje, esse valor seria de bilhões de dólares, uma fortuna equivalente à de bilionários americanos e, até, brasileiros (nós “temos” as famílias Marinho, Ermírio de Moraes, Batista-JBS Friboi, Moreira Salles).

Uma família de caso com a Máfia

John Kennedy e Jacqueline Kennedy: um casal bonito e admirado. Mas ele o traía, com frequência, com várias mulheres

John Kennedy e Jacqueline Kennedy: um casal bonito e admirado. Mas ele a traía, com frequência, com várias mulheres

Um grande economista “aconselhava” a não se vasculhar a origem das grandes fortunas: em algum momento, o pesquisador inquieto corre o risco de encontrar na base de tudo um escroque, um espertalhão. Depois de muitos anos de lavagem, a fortuna é apresentada como tendo origem nobre. Na Inglaterra, na Suíça, nos Estados Unidos, algumas fortunas foram construídas com o tráfico de escravos. Depois o dinheiro foi lavado no mercado financeiro. No Brasil, não é diferente. A fortuna da família Kennedy não tem uma origem honesta, segundo Seymour Hersh. Formado em Harvard, Joe Kennedy assumiu a presidência do banco Columbia Trust Company. Em seguida, ganhou dinheiro produzindo filmes. Habilidoso, retirou-se do mercado financeiro antes do crash de Wall Street, em 1929.

Em 1931, Joe Kennedy assumiu a caixinha da campanha de Franklin Delano Roosevelt. Eleito, “Roosevelt surpreendeu Washington e Wall Street em meados de 1934 ao nomear Kennedy, notório manipulador do mercado de ações, presidente da Comissão de Títulos e Câmbio, uma agência da política do New Deal montada para reformar e regular os mercados financeiros. Dizia-se que Roosevelt explicou a estranha escolha citando, com uma risada, um velho ditado: ‘É preciso um ladrão para prender um ladrão’”.

Na verdade, a grande fortuna de Joe Kennedy foi amealhada com negócios escusos, fora do mercado financeiro. “O que se sabe é que o dinheiro ‘começou a rolar na família’ no início dos anos 20, na mesma época em que agentes federais, que não sabiam nada de Joe Kennedy, começaram a verificar a chegada de enormes cargas de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos, estimuladas pela insaciável demanda americana por bebidas e pelo advento da Lei Seca.

Kennedy foi um dos primeiros a obter uma posição dominante na importação de bebidas alcoólicas. Usava licenças médicas para evitar as restrições da Lei Seca, adquirindo íntimo conhecimento dessa indústria, que o colocaria à frente dos competidores do contrabando quando chegou o momento. Correu para Londres no outono de 1933, quando ficou claro que a Lei Seca estava por terminar, e assinou acordos que o tornavam o único distribuidor americano de dois uísques especiais e do gin Gordon. Kennedy fundou a Somerset Importers Ltda., e dirigiu-a até sua surpreendente venda, por 8 milhões de dólares, em 1946 (equivalente a aproximadamente 55 milhões em 1997).”

Ao contrário do que especularam biógrafos condescendentes, Joe Kennedy não ficou pouco tempo contrabandeando bebidas. Não foi um negócio corriqueiro. “Joe Kennedy estivera profundamente envolvido no contrabando de bebidas alcoólicas desde os primeiros dias da Lei Seca — um negócio dominado por líderes do crime organizado como Frank Costello, de Nova York; Abner ‘Longy’ Zwillman, de Newark, e Al Capone, de Chicago.” Seymour Hersh conta que Joe Kennedy foi sócio da Máfia, o que é mais aterrador: “A afirmação mais direta do envolvimento de Kennedy no contrabando de bebidas veio de Frank Costello, o chefão mais poderoso da Máfia dos anos 40 e 50, que tentou, nos seus últimos anos, legitimar-se como negociante bem-sucedido”. Em 1973, com 82 anos, Costello contou ao jornalista Peter Maas sobre sua sociedade com Joe Kennedy. “Maas contou ao ‘New York Times’ que Costello tenha dito que ele e Joe Kennedy tinham sido ‘sócios’ no contrabando de bebidas durante a Lei Seca. Uma sociedade que começou, segundo Costello, depois de Joe Kennedy procurá-lo para pedir ajuda.” Enquanto trapaceava com mafiosos, o pai de Jack Kennedy tinha várias amantes, uma delas Evelyn Crowell, viúva do gângster Larry Fay. O mafioso Fay, segundo Seymour Hersh, “tornou-se o modelo de gângster no clássico ‘O Grande Gatsby’, de F. Scott Fitzgerald”.

Outro sócio de Joe Kennedy no contrabando de bebidas foi o mafioso Owney Madden. O juiz federal Abraham Lincoln Marowitz, de Chicago, disse a Seymour Hersh: “Joe Kennedy contrabandeava lá em New England, e conhecia todos os caras. Tinha conexões com a Máfia. Kennedy não poderia ter atuado daquela forma sem a aprovação da Máfia. Ela também o teria derrubado”. Em 1923, roubaram uma carga de Joe Kennedy e ele ficou furioso com a Máfia. Alguns mafiosos diziam que a fúria de Robert (Bob) Kennedy contra a Máfia, quando procurador-geral, era influência do pai. Era um ódio familiar.

Eleição “roubada” e o peso da grana
Em 1946, Joe Kennedy saiu do negócio de bebidas. Havia pelo menos uma diferença entre Kennedy e os outros mafiosos: ele mantinha um pé firme na legalidade, era um homem da elite branca (católica). O segredo do mafioso Joe Kennedy era não ser considerado mafioso. O motivo de ter abandonado o negócio lucrativo de bebidas tem a ver com a entrada de Jack Kennedy na política. No segundo governo de Roosevelt, Joe Kennedy tornou-se embaixador em Londres. Este texto não explora o capítulo do livro que trata do assunto. Mas um trecho mostra seu interesse: “Joe Kennedy, sem aprovação do Departamento de Estado, buscou repetidamente um encontro pessoal com Hitler às vésperas da blitzkrieg nazista ‘para tentar um maior entendimento entre os Estados Unidos e a Alemanha’”.

Agora deixemos um pouco a vida de Joe Kennedy e tratemos um pouco de Jack Kennedy (1923-1963), embora esclarecendo que os dois são indissociáveis. No Brasil, alguns intelectuais e até políticos têm raiva de pesquisas ou, como costumam dizer, do “pesquisismo”. Jack Kennedy adorava pesquisa, já no início da década de 60. Escreve Seymour Hersh: “No verão de 1960, com o irmão Bobby como gerente de campanha e o pai Joe como cérebro político — e financiador secreto —, Jack Kennedy chegou na convenção do Partido Democrata em Los Angeles liderando as pesquisas, e praticamente garantira o direito de ser candidato à Presidência concorrendo, e ganhando, as eleições primárias do partido em todo país”.

O glamour que cerca a família Kennedy impede que muitos biógrafos enxerguem o seu lado podre. Tal não ocorre com Seymour Hersh: “Os Kennedy não dependeram apenas do trabalho duro e de energia para o lançamento da candidatura do Partido Democrata. Gastaram como jamais fora visto antes na história política americana. Em West Virginia, os Kennedy gastaram pelo menos 2 milhões (quase 11 milhões em 1997) e possivelmente o dobro dessa quantia — em grande parte em suborno direto de funcionários estaduais e municipais”. O suborno era distribuído “pessoalmente por Bob e Ted Kennedy”.

A história de como a Máfia ajudou a eleger John Kennedy é contada, de modo detalhado, por Seymour Hersh, com informações novas e, às vezes, retrabalhadas. A aliança com o mafioso Sam Giancana, amigão de Frank Sinatra, é mostrada sem piedade. Sinatra — que se considerava, mais tarde, como “um embaixador entre o governo dos Estados Unidos e a Máfia” — ajudou a convencer Giancana de que Kennedy era um “bom” candidato. Jimmy Hoffa também “apoiou” Kennedy, pressionado pela Máfia, mas odiava Jack Kennedy e seu irmão Bob.

“Joseph Kennedy fez mais do que investir seu tempo e dinheiro na sua incansável campanha para eleger o filho presidente, em 1960. Arriscou a reputação da família — e o futuro político de seus filhos Bobby e Teddy — fazendo um acordo com Sam Giancana e o poderoso sindicato do crime organizado de Chicago. (…) O acordo incluiu uma garantia de que os homens de Giancana conseguiriam votos para Kennedy entre os filiados dos sindicatos de trabalhadores controlados pela Máfia, em Chicago e em outros lugares, e um compromisso de arrecadar contribuições de campanha dos corruptos fundos de pensão do Sindicato dos Motoristas de Caminhão. Jack Kennedy e o irmão iniciaram seus mandatos conscientes de que o crime organizado e Giancana tinham ajudado a vencer a eleição de 1960. O que Joe Kennedy prometeu em troca a Giancana não se sabe. Mas o gângster estava convencido de que tinha dado o golpe de sua vida ao apoiar um vencedor na campanha presidencial. A pressão sobre a corporação de Chicago agora desapareceria.” Depois, foi perseguido de modo implacável por Bob Kennedy.

Seymour Hersh recupera um personagem mafioso pouco citado nos livros traduzidos no Brasil — Murray Humphreys. Ele era o cérebro da Máfia e, inicialmente, era contra o apoio a Jack Kennedy. Numa votação, da qual participaram os mafiosos Paul Ricca, Anthony Accardo e Frank Ferraro, ele foi voto vencido. E teve que apoiar o candidato do Partido Democrata. Sua mulher, Jeanne, contou a Seymour Hersh que alguém assegurou à Máfia que a perseguição iria diminuir: “A garantia era de que os investigadores iriam relaxar a pressão sobre a organização. Essa foi a promessa que (eles) conseguiram de Joe Kennedy”. Joe não era muito de cumprir acordos. Nem seus filhos.

Jeanne acrescenta: “É irônico que a maioria dos que participavam nos bastidores da campanha de Kennedy não puderam votar porque tinham fichas criminais”. Quem mais sabia das ligações dos Kennedy com a Máfia? O habilidoso J. Edgar Hoover (Seymour insinua que ele era gay e amante do subordinado Clyde Tolson; Hoover era mesmo homossexual), chefão do FBI, sabia de tudo. Uma amante de Kennedy, Judith Exner, conta que levou dinheiro do presidente para Sam Giancana. Judith também levou dinheiro de empresários da Califórnia para Kennedy.
Kennedy ganhou de Richard Nixon por uma diferença de apenas 118 mil votos —“num total de mais de 68 milhões de votos”.

Garanhão insaciável e suas amantes

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Bob Kennedy, Marilyn Monroe e John Kennedy: a atriz teria sido apaixonada pelo presidente dos Estados Unidos

 

Entre uma fraude e outra, Jack Kennedy devorava atrizes de Hollywood, esposas de gente importante e até prostitutas. Marilyn Monroe é o seu caso mais notório. Há especulações de que fez um aborto no México. Jack Kennedy seria o pai da criança. Eles se sentiam fortemente atraídos um pelo outro. “A atração ia além do sexo. Marilyn tinha um senso de humor sutil e uma tenaz vontade de aprender. ‘Marilyn fazia Jack rir’, explicou Patrícia Newcomb, que trabalhava como agente de publicidade de Monroe.” Seymour Hersh nota que a família de Kennedy encobria suas escapadas com Marilyn e outras mulheres. Apesar de Marilyn dizer que era um “soldado” de Jack Kennedy, várias vezes ameaçou romper a “hierarquia” e declarar publicamente o seu amor pelo presidente. Deprimida, disse a um amigo: “Sou Marilyn Monroe. Todo mundo acha que o telefone toca o tempo todo com homens me convidando para sair. Na realidade, todo mundo tem medo de sair com Marilyn Monroe ou de convidá-la para sair”. Ela dizia que, de vez em quando, encontrava um rapagão bonito, mas na hora agá ele falhava. “Tomamos uns drinques e vamos para a cama. Então, vejo seus olhos embaçarem e sei o que está passando na sua cabeça: ‘Meu Deus! Vou t… com Marilyn Monroe’, e ele não consegue levantar a coisa.” Seymour Hersh não conta, mas outros autores revelam: o priápico John Kennedy nunca falhava. Porém, como ninguém é perfeito, era tão rápido quanto um coelho.

Marilyn Monroe era apenas uma das muitas amantes de John Kennedy. A polonesa Barbara Maria Kopszynska (Alicia Darr), um de seus casos mais explosivos, garantia que havia sido noiva de Jack Kennedy. E teria até ficado grávida. Era, na verdade, prostituta e cafetina. Alicia extorquiu Jack Kennedy.

Uma história mal contada é a do primeiro casamento de Jack Kennedy, do qual não se tem prova documental, só depoimentos. Antes de casar com Jacqueline Bouvier, Jack se casou com a socialite Durie Malcolm, em 1947. Um amigo de Jack, Charles Spalding, destruiu os documentos. “Fui até lá (tribunal do Condado de Palm Beach) e removi os papéis (do casamento)”, disse Spalding a Seymour Hersh.

Perto de morrer, Kennedy começou a se reaproximar de Jackie, mas não deixava de sair com outras mulheres. Correndo atrás de uma mulher, numa piscina, Kennedy caiu e se machucou. “O presidente foi forçado a usar um suporte rígido que se estendia dos ombros à virilha.”

Lee Harvey Oswald, o assassino
A morte de Kennedy, em 1963, por Lee Harvey Oswald, ainda é um assunto polêmico. Há várias versões. No livro de Seymour, o leitor se decepcionará se esperar encontrar a história definitiva. O suspeito número um de ter contratado Lee Oswald era Sam Giancana, que reclamava muito do ex-aliado Jack Kennedy. Julius Draznin, especialista em trabalho ilegal do Conselho Nacional de Relações Trabalhistas, e outros agentes investigaram o caso assassinato-Máfia. “Mas o grupo não conseguiu encontrar nenhuma evidência de que os capangas de Sam Giancana tivessem qualquer coisa a ver com o assassinato de Kennedy.”

Draznin garantiu a Bob Kennedy que Jack Ruby, o assassino de Lee Oswald, agiu sozinho. “Ruby achou (que matar Oswald) era um ato patriótico”, disse Draznin a Seymour Hersh. “Acredito nisto até hoje. Não levantei absolutamente nada ligando aquilo aos homens da máfia de Chicago”, frisa Draznin. (Um livro instigante é “A História de Lee Oswald”, de Norman Mailer. É, talvez, muito especulativo. Mas há um depoimento muito interessante de Ruby.) “Em cinco anos de reportagens para este livro [‘O Lado Negro de Camelot’], não encontrei nada que mudasse as conclusões instintivas de Julius Draznin, ou as descobertas muito mais detalhadas da Comissão Warren. Oswald e Ruby agiram sozinhos”, sustenta Seymour.

Seymour acrescenta: “Robert Kennedy não fez nada em 1964 para perseguir a verdade por trás da morte de seu irmão. Ele não teria feito nada mesmo que tivesse conquistado a indicação para a Presidência em 1968. O preço de uma investigação completa era alto demais: tornar pública a verdade sobre o presidente Kennedy e a família Kennedy. Foi este o temor, com certeza, que impediu Robert Kennedy de testemunhar perante a Comissão Warren”. O mistério continua.

A tragédia da família de um falecido político baiano é relativamente parecida com a dos Kennedy. Se o “rei da Bahia” enterrou dois filhos — uma garota (suicídio) e um deputado federal —, Joe Kennedy enterrou quatro filhos — Kathllen, Joe, Jack e Bob (os dois últimos assassinados). A sensação é de que Seymour não contou tudo e está preparando outro livro.

O Velho mandava no presidente JFK
A influência de Joe Kennedy era forte no governo de Jack Kennedy. “Eu não sei o que fazer com Bobby. Ele se sacrificou por mim. O Velho (Joe) quer que Bob seja procurador-geral”, disse Jack a George Smathers, ex-procurador do Estado. Smathers retrucou: “Ele nunca ganhou um caso como advogado. Nunca discutia na sala de tribunal. Sempre fazia acordos prévios, sem ir a julgamento. Se você o nomear secretário assistente da defesa, ele terá bastante poder. É um cargo apropriado pra quem nunca fez nada que prestasse”. Jack Kennedy sugeriu: “Por que você não diz isso pro Velho?”

Smathers procurou Joe Kennedy e disse: “Jack e eu estávamos falando sobre Bobby. Ele quer fazer alguma coisa por Bobby. Achei que ele poderia ser secretário assistente da defesa, e, dentro de um ou dois anos, ser promovido”. Joe chamou Jack e bronqueou: “Vou dizer uma coisa a você. Seu irmão Bobby deu o sangue por você. Você sabe disso e eu também. Meu deus, ele merece ser procurador-geral, e por Deus, é isso que ele vai ser. Está entendendo?” Jack respondeu: “Sim, senhor”. Bob ganhou o cargo de procurador-geral. Os Kennedy eram assim: lealdade total em família.

Fidel Castro, a caça americana

Fidel Castro (na foto com o soviético Nikita Kruchev): o líder político e, agora, “espiritual” de Cuba quase foi assassinado pela CIA antes do governo de Kennedy e no governo deste

Fidel Castro (na foto com o soviético Nikita Kruchev): o líder político e, agora, “espiritual” de Cuba quase foi assassinado pela CIA antes do governo de Kennedy e no governo deste

A articulação para matar Fidel Castro não começou com John Kennedy. Em agosto de 1960, Richard M. Bissel, diretor de planejamento da CIA e ex-professor de Yale e do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), começou a preparar o assassinato do líder cubano, que estava no poder há um ano. Conta Seymour Hersh: “A CIA estava convencida de que a Máfia tinha acesso a assassinos profissionais de confiança em Cuba, mas era preciso alguém para servir como intermediário — para agenciar o acerto. Sheffield Edwards (diretor da CIA) e seu auxiliar, James O’Connell, concordaram que o homem para a missão era um ex-agente do FBI chamado Robert A. Maheu, um investigador particular conhecido por seus amplos contatos em Los Angeles e Las Vegas”. Maheu, a pedido de O’Connell, entrou em contato com o mafioso Johnny Rosselli, “diretamente subordinado a Sam Giancana”.

Seymour Hersh revela que Jack Kennedy trabalhou para que Fidel Castro não fosse assassinado antes das eleições. Acreditava que, se isso ocorresse, Richard Nixon seria eleito. Por isso, ele trabalhou para que Castro não fosse derrubado. Orientados pelos aliados democratas, os mafiosos participaram das conspirações contra Fidel Castro, mas não tentaram matá-lo. Eleito, “Kennedy pediu a Richard Bissell, diretor da CIA para operações clandestinas e espionagem, que criasse dentro da Agência condições formais para assassinatos políticos. (…) O assessor de segurança nacional de Kennedy, McGeorge Bundy, ex-diretor de faculdade em Harvard, admitiu que, pouco depois de assumir, discutira a ampliação do esquema da CIA para assassinatos políticos”.

Enquanto se estudava formas de matar Fidel, a CIA começou a preparar o assassinato de outros líderes políticos. Relata Seymour Hersh: “Em meados de janeiro de 1961, (Patrice) Lumumba (do Zaire) foi persuadido a deixar a proteção das Nações Unidas. Foi aprisionado por tropas rivais, levado para a Província de Katanga e morto entre 17 de janeiro e o início de fevereiro. O exato papel da CIA em relação à sua morte é desconhecido, mas telegramas apresentados à Comissão Church mostraram definitivamente que os funcionários da CIA na África sabiam que Lumumba seria assassinado assim que deixasse seu santuário junto às Nações Unidas”.

O direitista Rafael Trujillo, líder da República Dominicana, “foi assassinado a 30 de maio de 1961 por um grupo de dissidentes que, segundo foi determinado posteriormente por um estudo da CIA, havia recebido armas americanas no início daquele ano”.

Mas o principal objetivo da família Kennedy era mesmo matar Fidel Castro. Robert Maheu reuniu-se com Sam Giancana, Johnny Rosselli e Santos Trafficante, na primavera de 1961, com o objetivo de traçar um projeto para invadir Cuba e liquidar Fidel. A invasão foi um fracasso: “O exército e as milícias de Fidel Castro derrotaram a brigada de 1.400 cubanos recrutados e treinados pela CIA que tentara um desembarque anfíbio na Baía dos Porcos, na costa sul de Cuba. (…) Na época, foi mantido em segredo que Kennedy havia pessoalmente cancelado um segundo ataque aéreo, considerado crucial para o sucesso do desembarque. Oito aviões de ataque partiram da Nicarágua dois dias antes do desembarque, mas os pilotos exilados, voando em bombardeiros B-26 da época da Segunda Guerra Mundial, sem identificação, não conseguiram derrotar a pequena mas eficiente força aérea cubana”.

Além do fracasso da invasão da Baía dos Porcos, a Máfia também não conseguiu sequer chegar perto de Fidel. O que Seymour Hersh mostra, com base em depoimentos, sobretudo de agentes da CIA mas também de altos funcionários do governo, é que Jack e Bob Kennedy estavam por trás de todas as articulações para matar Fidel.

Quem sai muito mal do livro de Seymour Hersh é o grande jornalista Tad Szulc, ex-repórter do “New York Times”. Tad Szulc (falecido biógrafo de Fidel e do papa João Paulo 2º) se ofereceu para trabalhar para Kennedy e formulou planos (a Operação Mangusto) para invadir Cuba.

Negociações misteriosas de Jack e Kruschev
Seymour Hersh mostra que as negociações de Jack Kennedy e Nikita Kruchev ainda não foram devidamente exploradas. Georgi N. Bolshakov, “agente profissional da espionagem” soviética, era o contato dos irmãos Kennedy, principalmente de Bob Kennedy. Era o canal não oficial de contato de Jack Kennedy e Kruchev. Algumas vezes, Bolschakov ludibriou os Kennedy.

Na crise dos mísseis, Kennedy tinha um discurso radical para o público, mas nos bastidores, com o canal não oficial, negociava com Kruchev. A União Soviética, sob pressão, retirou os mísseis de Cuba, mas Kennedy também retirou os mísseis da Turquia. Mas, antes disso, iludido por Bolshakov, o governo Kennedy não percebeu com total nitidez que a URSS havia levado 134 ogivas nucleares para Cuba.

Fidel mandou matar americano?
As teorias conspiratórias sobre a morte de Jack Kennedy são infindas. Entra ano, sai ano, e novas versões são divulgadas. A mais recente dá conta que Fidel Castro, que estava há poucos anos no poder, foi um dos principais articuladores do assassinato do presidente norte-americano.

A morte de Kennedy é, como diria Umberto Eco, uma das obras abertas da história.

Marilyn Monroe era um soldado de Kennedy
Trecho de uma fita gravada de Marilyn Monroe, a atriz que se matou involuntariamente com remédios, a pedido de um psicanalista (o texto foi publicado pela primeira vez por Seymour Hersh):

“Marilyn Monroe é um soldado. Seu comandante-em-chefe é o maior e mais poderoso homem do mundo. O primeiro dever do soldado é obedecer a seu comandante-em-chefe. Se ele diz: faça isso, você obedece. Esse homem vai mudar nosso país. Nenhuma criança vai passar fome, ninguém vai dormir nas ruas ou comer da lata de lixo. As pessoas que não tiverem condições receberão assistência médica decente. Os produtos industrializados serão os melhores do mundo. Não estou falando de utopia — não se trata de uma ilusão. Mas ele vai transformar a América de hoje como Franklin Delano Roosevelt fez nos anos 30. Vou dizer uma coisa, Doutor, quando tiver terminado suas realizações, tomará seu lugar ao lado de Washington, Jefferson, Lincoln e Franklin Roosevelt como um de nossos maiores presidentes. Fico feliz que ele tenha Bobby a seu lado. É como na Marinha — o presidente é o capitão e Bobby seu imediato. Bobby faria qualquer coisa pelo irmão, assim como eu. Eu nunca o envergonharei. Enquanto tiver memória, terei John Fitzgerald Kennedy”.

2 respostas para “John Kennedy: sexo, escândalos, poder e corrupção”

  1. Avatar ivahy rodrigues. disse:

    Vichi!!! O mundo político é mesmo asqueroso em todo o planeta, né?

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