Euler de França Belém
Euler de França Belém

Honestino Guimarães e Zé Carlos da Mata-Machado: uma história que o Brasil não vai esquecer

Gilberto Prata, que entregou parte da AP, foi presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Goiás e militou no PT

[Resenha publicada na edição de 21 a 27 de janeiro de 2001 do Jornal Opção]

José Carlos da Mata-Machado, delatado pelo cunhado, foi preso pelo Delegado Fleury e apoio de militares

Um dos casos mais curiosos de delação bem-sucedida permanecia anônimo do público. A deduragem de Gilberto Prata, espécie de Cabo Anselmo civil, já era figurinha carimbada entre os líderes da esquerda. Mas, para consumo público, a história permanecia nebulosa. Com a publicação de “Zé” (Mazza Edições, 222 páginas), livro-reportagem de Samarone Lima, ex-repórter da revista “Veja”, a história de Gilberto Prata é resgatada. O Jornal Opção tentou conversar com Gilberto Prata, que estaria morando em Caldas Novas. Localizou, de fato, um Gilberto Prata, dono de um bar, mas ele nega ser o mesmo que “entregou” os integrantes da Ação Popular. “Sou paulista, mas nunca tive militância política”, assegura, divertido com a história. “O sr. não está mentindo?”, pergunta o repórter do Jornal Opção. “Não”, disse, lacônico. E acrescentou: “Não tenho nenhuma irmã com o nome de Madalena”. Ele conta que já teve problemas em São Paulo, num cartório, por causa do nome Gilberto Prata. O presidente do Diretório do Partido dos Trabalhadores de Caldas Novas, Ciro Tomé Pereira, garante que Gilberto Prata — o “verdadeiro” ou o “homônimo” — nunca foi filiado ao partido. “Pelo menos não no nosso município”, ressalta. Dois militantes da esquerda garantem que Gilberto Prata, o “traidor” da AP, mora em Goiás. Mas o ex-militante da esquerda armada — que estaria filiado ao PT (segundo o jornalista Samarone Lima) — desapareceu do mapa. O “trabalho” de Gilberto Prata levou à morte vários militantes da esquerda, entre eles o mineiro José Carlos Novais da Mata-Machado, filho do jurista Edgar da Mata-Machado, o goiano Honestino Guimarães e Gildo Lacerda.

Sérgio Paranhos Fleury: o delegado da Polícia Civil que, a serviço de militares, contribuiu para desbaratar a guerrilha de esquerda| Foto: Reprodução

José Carlos da Mata-Machado entrou para a Faculdade de Direito em 1964. Filho de família politizada (e cristã), acabou nos braços da Ação Popular, a AP (à qual pertenceu o goiano Aldo Arantes). Em julho de 1964, já na ditadura civil-militar, José Serra, da AP, foi eleito presidente da UNE. Em 1967, Zé Carlos chega a uma das vice-presidências da UNE.

Naqueles tempos loucos, em que a política era coração e cérebro, Zé reservava um tempinho para curtir a boa música, tanto a engajada-chique de Chico Buarque como a engajada-hard de Geraldo Vandré. Quando “Travessia”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, obteve o segundo lugar no II Festival Internacional da Canção Popular, Zé Carlos explodiu, para o amigo Luís Raul Machado: “Absurdo, Raul, uma música daquela ficar em segundo lugar. Linda”.

Ioga na UnB

Enquanto Zé comandava as lutas estudantis, seu pai, Edgar da Mata-Machado, ao lado de Márcio Moreira Alves e David Lerer, tentava comandar as lutas parlamentares, em Brasília. Eles formavam a “República Socialista do Lago”. A “República” era visitada por, entre outros, Hermes Lima, Vitor Nunes Leal e Evandro Lins, ministros do Supremo Tribunal Federal. Relata Samarone Lima: “Como deputado, Edgar foi várias vezes à Universidade de Brasília e estabeleceu contato com líderes estudantis como Honestino Guimarães, já visado pela repressão. No pelotão de frente, Edgar participava de passeatas”.

Em 1968, parte da sociedade civil aumentava a reação ao governo civil-militar. Os metalúrgicos de Contagem (MG) entrevaram em greve em abril. O governador de São Paulo, Abreu Sodré, foi apedrejado durante ato público do 1º de maio. Em Belo Horizonte, as forças policiais prenderam várias pessoas. José Carlos foi preso em maio. Acusação do subprocurador militar da 4ª Região Militar: “Apontado como ocupante de alto cargo na AP e vice-presidente da UNE; promoveu reuniões da AP em sua casa; providenciou hospedagem de diretor da UNE em Belo Horizonte”.

Liberado em 5 de junho de 1968, Zé Carlos voltou à militância. Seis dias depois, o então coronel Octávio Aguiar de Medeiros (mais tarde, general de confiança do presidente João Figueiredo, que o preferiu a Golbery do Couto e Silva, em 1981, depois do atentado do Riocentro) recebeu ordens para prendê-lo novamente. Zé Carlos  não se entregou e viajou pelo país, com o objetivo de preparar o congresso da UNE. Seu amigo Luís Raul conta: “Nem eu nem o Zé fumávamos. Eram reuniões de horas, que varavam a madrugada, aquela fumaceira sem fim. Ele tinha uma escovinha de dentes que guardava no bolso. A cena era engraçada: um monte de gente quebrando o pau, discutindo, e de repente o Zé tirava a escova e ficava passando nos dentes”. (Mesmo torturadíssimo, em Recife, sempre pedia uma escova.)

Samarone Lima registra: “Honestino Guimarães, que havia sido preso no início do ano e solto três meses depois, já estava na semiclandestinidade. Tinha recebido ameaças de nova prisão e decidiu não voltar para a casa dos pais. Vivia grande parte do tempo dentro da UnB, que ainda tinha a aura de território livre. A UNE estava cercada. (…) Nas reuniões da UNE, Honestino punha em prática seu aprendizado de ioga. Às vezes sumia, sem dar notícia, e só era localizado algum tempo depois, num canto, de cabeça para baixo”. Ele dizia, segundo Samarone Lima: “Esta posição é ótima para relaxar um pouco”. “Depois voltava para a sala, com a mesma disposição para a luta.” Em agosto de 1968, militares invadem a UnB. Honestino é preso e espancado brutalmente. Da prisão cai na clandestinidade.

Ação Popular e fome

José Carlos, com o amigo Gildo Lacerda, decide participar do congresso da UNE em Ibiúna (SP). Um estudante de agronomia da Faculdade de Botocatu, Luís Custódio, contou a José Carlos e Gildo Lacerda: “Está uma merda geral. O pessoal está chegando em São Paulo e recebendo informações erradas. (…) Como nós da AP estamos fechados com o Jean Marc, os caras estão forçando a barra e dando informações erradas. Acho que muita gente nossa vai perder o Congresso”. No lugar de eleger Jean-Marc Van der Weid — que disputava com José Dirceu, que tinha o apoio de Vladimir Palmeira — para substituir o presidente da UNE, Luís Travassos, a elite política universitária, 739 estudantes, acabou na cadeia. José Carlos e Luís Raul foram processados, assim como outros 692 estudantes. Luís Travassos, José Dirceu e Vladimir Palmeira saíram do país, em setembro de 1969, trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, que havia sido sequestrado pela esquerda.

José Carlos da Mata-Machado e Gildo Lacerda: mortos nos tempos da ditadura civil-militar | Fotos: Reprodução

Do Dops de Belo Horizonte, José Carlos foi levado para o presídio Tiradentes, em São Paulo. Solto em julho de 1969, optou pela clandestinidade. A situação era dificílima para a esquerda. O presidente da União Estudantil de Pernambuco, Cândido Pinto de Mello (hoje, especialista em informática médica), ficou paraplégico depois de ser baleado por policiais. O padre Henrique Pereira Neto, assistente de Dom Helder Câmara, em Pernambuco, foi assassinado. Havia sido barbaramente torturado. Em novembro de 1969, a equipe de Fleury mata Carlos Marighella, o líder máximo da Ação Libertadora Nacional (ALN). A VPR e a VAR-Palmares foram duramente atingidas.

José Carlos casou-se com Maria Madalena Prata Soares, militante da Ação Popular. Madalena era irmã de Gilberto Prata, presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Goiás, em 1969. “Gostei do Gilberto”, disse José Carlos a Madalena. Os três eram militantes da AP. (Em 1970, supostamente cansado de Goiânia e da militância, Gilberto decidiu morar em São Paulo.) Em 1969, a AP vira Ação Popular Marxista-Leninista (APML), adepta, como o PC do B, das “ideias” de Stálin. A organização enviou José Carlos e Madalena para Fortaleza em 1970. “A missão principal era rearticular o partido e se engajar na produção.” Aos 25 anos, era adepto das ideias de Mao Tsé-tung. Apesar da missão, “relevante”, José Carlos e Madalena não tinham dinheiro — “a AP não mandaria mais ajuda”. Passaram fome. Ao se encontrar em Recife com o goiano Alani Cardoso (de Campos Belos), integrante do movimento estudantil em Goiânia, José Carlos estava tenso e muito magro. Mesmo assim, disse, algo ingênuo mas decidido: “Alani, o caminho que a gente escolheu foi o da luta, da resistência. Eu não estou mais na UNE, mas vamos lutar de outra forma, cumprir outras tarefas”. Mais pragmático, Alani esclareceu: “Está difícil mobilizar as pessoas, Zé. A repressão é muito grande. Todas as lideranças estão sendo duramente perseguidas”.

Elegância e exterior

Faminto, José Carlos voltou para Fortaleza e se empregou na loja Cruzeiro Modas e, depois, na Companhia Calçado Clark. Em 1972, Madalena teve um filho (Dorival, em homenagem ao nome de guerra de Jair Ferreira de Sá) em Goiânia, para onde voltara o irmão Gilberto Prata. “A carne foi abolida definitivamente. A farinha, conhecida por aumentar o volume da comida, começou a ser usada com frequência. A miséria se instalava silenciosamente. (…) Durante vários dias, José Carlos e Madalena sobreviveram comendo farinha e bebendo café. O que havia melhor que isso era para os filhos. (…) Os dois passaram três dias sem comer. José Carlos dormiu no terceiro dia e começou a ter delírios. Suava, falava coisas sem nexo. O calor, a fome, os delírios, o risco de morte. Tinham chegado ao fundo do poço.”

Samarone Lima, ex-repórter da revista “Veja”, é o autor do livro “Zé”

A família de José Carlos foi salva não pela AP, mas pelo dinheiro do pai, Edgar. Conta Samarone Lima: “Pela primeira vez, depois de vários dias, José Carlos, Madalena e Grauninha (a companheira Maria do Socorro, hoje psicoterapeuta em São Paulo) almoçaram comida de verdade. Arroz, feijão, um pedaço de carne. Mesmo nas trevas, a elegância de José Carlos se destacava. Pegava o garfo, a faca, comia como se estivesse num jantar de Natal, com toda a família. A educação serena se mantinha na dura clandestinidade”.

Os líderes intelectuais da AP eram Jair Ferreira de Sá e Paulo Stuart Wright. O primeiro era o guru de José Carlos. “Nesse período, estava havendo uma profunda discussão interna, que resultaria na incorporação ao PC do B. Alguns já haviam aderido, mas Paulo Stuart e Jair Ferreira permaneciam fiéis à APML”, conta Samarone Lima. José Carlos disse aos amigos Francisco Monteiro e Helena Serra Azul: “Olha, minha situação é insustentável. Chega um ponto em que não dá mais. Tem gente caindo, deixando os pontos abertos em vários locais. A incorporação ao PC do B está sendo trágica para a AP”. Politicamente, avançou: “Eu insisto que esse negócio da clandestinidade é ruim. Neste momento, o importante é que vocês se tornem personalidades democráticas. A clandestinidade só serve para quando não há qualquer alternativa”. E revelou: “Tem um pessoal querendo montar um esquema para eu sair. Vou acabar tendo que sair mesmo. Minha situação está muito difícil, complicada. Não estou conseguindo fazer contato com mais ninguém. Só com companheiros que eu já conhecia”.

Bunda de Pinguim

Enquanto José Carlos começava a aceitar a saída da clandestinidade, seu cunhado, Gilberto Prata, que havia desistido de ser revolucionário em 1971, ao ser processado depois das greves de Contagem, começava a trilhar outro caminho político. Relata Samarone Lima: “Em fevereiro de 1973, estava voltando de férias quando tudo aconteceu. Um oficial do Exército entrou na fábrica (de telhas, Eternit, em Goiânia). Bem vestido, bronzeado, inseparáveis óculos escuros. Foi ao departamento de pessoal e começou a mexer na documentação dos funcionários. Localizou Gilberto Prata. Chamou um funcionário e avisou: ‘Quero falar com este sujeito’”.

Maria Madalena Prata Soares, mulher de José Carlos da Mata-Machado | Foto: Reprodução

O oficial disse a Gilberto: “O senhor está preso em nome da Lei de Segurança Nacional”.

Na verdade, o militar sabia que Gilberto estava fora da guerrilha. O objetivo era cooptá-lo. “A repressão montava um esquema nacional para prender as principais lideranças da Ação Popular. (…) Não poderia escapar ninguém. A lista dos procurados circulava nos DOI-Codi: Honestino Guimarães, Paulo Stuart Wright, Gildo Macedo Lacerda, Grauninha, Doralina, José Carlos Novais da Mata-Machado, Jair Ferreira de Sá etc. Se fossem presos, não escapariam.”

Samarone Lima conta que, “levado para uma casa na Vila Militar de Goiânia, Gilberto passou 45 dias de ‘molho’. O Centro de Informações do Exército (Ciex) preparava cuidadosamente uma estratégia de convencimento. Nesse período, mostraram-lhe várias listas com nomes e fotos de militares da AP. Entre eles, Maria Madalena Prata Soares, sua irmã, e o cunhado José Carlos Novais da Mata-Machado”.

Depois, levado para Brasília, Gilberto conversou com um oficial, “Dr. César”, que lhe disse: “Olha aqui, você não nos interessa. Já sabemos tudo sobre sua militância, não tem importância política nenhuma. Mas você é um ‘Bunda de Pinguim’”.

Bunda de Pinguim, na versão do Dr. César, “é uma cara que passou, foi dos movimentos, mas deixou o rabo de fora”.

O dr. César resumiu: “A gente quer o Zé Carlos”. O militar perguntou: “Onde está o Zé Carlos?” Gilberto respondeu: “Não sei. Perdi contato com ele há muito tempo”. O militar insistiu: “Mas, Gilberto, o Zé Carlos é casado com a sua irmã, a Madalena”. O coronel suavizou: “A gente quer o Zé Carlos. Tua irmã a gente não vai maltratar. Preste atenção no que eu vou te dizer. Você vai encontrar o teu cunhado de qualquer jeito. Ele pode estar no inferno, mas você vai encontrá-lo. Nós vamos te ajudar nisso, dar orientações”.

Samarone escreve: “Didático, o oficial continuou a conversa já sabendo que Gilberto aceitava a missão. Conhecia os ‘Bunda de Pinguim’”. O coronel deu a dica: “Você vai refazer os contatos com o pessoal da AP. Vai dizer que foi preso, que teve problemas com a repressão, que está voltando. Para quem já foi militante, não é difícil fazer essa conversa pegar. Nós vamos te dar toda a infraestrutura para viagens, contatos, telefonemas. Vai ter gente te acompanhando 24 horas por dia”.

Em Belo Horizonte, Gilberto procurou Edgar da Mata-Machado e tentou extrair a informação sobre o paradeiro de Zé Carlos. Não conseguiu. Edgar ficou de ligar se conseguisse alguma informação. Edgar contou a Madalena, em Belo Horizonte, que o irmão Gilberto havia sido “preso” e “torturado”. Madalena telefonou para Gilberto. “Ela ficou surpresa com a decisão de Gilberto, mas, diante da insistência do irmão, passou o endereço de onde estavam. (…) José Carlos ficou feliz em saber que o cunhado estava na luta.”

Caçada do delegado Fleury

Em agosto de 1973 o Exército levou Gilberto Prata para Recife. O relato de Samarone Lima: “Cada passo agora era cercado de cuidados especiais: rádio, comunicação através de códigos, agentes armados. A impressão era de que uma grande operação de guerra estava em curso. No caminho para o Recife, Cerqueira reforçava as instruções. Prestar atenção em tudo, transmitir todas as informações aos agentes nos mínimos detalhes, puxar assunto, saber onde poderiam estar Honestino Guimarães, Gildo Lacerda, Paulo Wright e outros militantes da AP”.

Bem recebido pelo cunhado José Carlos, Gilberto foi avisado pelos agentes: “O Fleury deve chegar esses dias”. José Carlos abriu: “Olha, Gil, vou ter que sair daqui. Estão insistindo para que eu saia do país, mas acho que não é a hora. Vou ter que ir para o Sul”.

José Carlos conta a Gilberto que a esquerda estava muito preocupada com Fleury. “Temos que tomar uma decisão sobre este cara. Há informações terríveis sobre as torturas que ele comanda. Temos que dar um jeito nisso o mais rápido possível.” (O jornalista Percival de Souza diz que a esquerda chegou a tentar sequestrar Fleury. A ideia era promover um duelo entre Fleury e Carlos Lamarca.)

Fleury conversou com Gilberto e “pediu detalhes de tudo”. Gilberto revelou ao chefão do Dops: “O Zé Carlos está preocupado com as quedas da AP. Pensa em seguir para São Paulo ou Rio para ajudar o pessoal”. Segundo Samarone Lima, “Fleury sorriu, acendeu um cigarro. Era o que queria. Se José Carlos fosse para São Paulo, certamente encontraria gente importante da APML. (…) Os agentes sabiam de uma coisa: até o final de outubro, o que restava da APML seria liquidado. A ordem era prender, arrancar o que pudessem e depois matar”.

Fleury não autorizava nenhuma ação, acreditando que poderia pegar “peixes maiores”. José Carlos iria para o Rio de Janeiro e, depois, para São Paulo. Mas antes decidiu passar em Salvador, “para tentar rever o velho amigo Honestino Guimarães”. “Preciso falar com o Honestino. Temos muita coisa atrasada para colocar em dia”, disse. Honestino era chamado de Gui pelos amigos. Foram para Salvador José Carlos, Madalena e Gilberto.

Oldack Miranda recomendou que José Carlos da Mata-Machado saísse do país, mas ele preferiu ficar para ajudar os companheiros presos | Foto: Reprodução

Em Salvador, José Carlos foi recebido por Oldack Miranda (autor, com Emiliano José, de um livro sobre Lamarca), que havia sido integrante da AP. Oldack sugeriu: “Acho que está chegando a hora de você sair do país, Zé”. “Não, Oldack. Temos quer ajudar os companheiros que estão presos. Precisamos fazer alguma coisa.” Gilberto “não dava notícias, sumia e voltava como o vento”. E nenhum dos “companheiros” estranhava. Só Madalena estranhava a excessiva curiosidade do irmão, “sempre querendo saber onde estavam as pessoas, os planos para o futuro. Não parecia o mesmo. Ela aproveitou um momento em que estavam sozinhos e perguntou indecisa: ‘’Gil, você está trabalhando para a repressão?’” Mesmo perturbado, respondeu, rápido: “Que é isso, Madá? Tá me estranhando? Logo teu irmão…”. Ela insistiu: “Você está com uma conversa de policial, Gil”. Ele negou.

No dia 4 de outubro de 1973, José Carlos pegou o ônibus em Salvador. Ele iria para o Rio de Janeiro. (A mulher, Madalena, pressentia que algo de ruim iria acontecer.) No ônibus encontrou-se com Humberto Albuquerque Câmara Neto, o Beto. José Carlos disse para o amigo: “Acho que estão me seguindo”. No Rio de Janeiro, a confirmação de que estava sendo seguido: “Fui descoberto. Estou sendo seguido. Peguei o reflexo de guardar o rosto de cada pessoa que vejo mais de uma vez. Hoje, na hora em que íamos sair para a feira, notei um homem de calça marrom e camiseta branca passando umas duas vezes do outro lado do passeio. De repente, dou com ele de calça jeans e camisa laranja, olhando para mim na feira, uns quinze minutos depois”.

Cercado, José Carlos saiu da casa em Santa Teresa (onde moravam Tessy Callado, o compositor Márcio Borges e, entre outros, o teatrólogo Eid Ribeiro. Eles eram visitados por Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes), no Rio de Janeiro, empurrando um carrinho de bebê vazio.

Paulo Stuart Wright: sua queda abalou José Carlos da Mata-Machado | Foto: Reprodução

Paulo Stuart Wright (“João”) havia caído, o que abalara José Carlos. Cercados pelos policiais, José Carlos tentou uma autocrítica: “O que a direção está fazendo para enxergar a realidade? Por que exige coisas tão absurdas?” Ele chegou a escrever um documento reavaliando a sua luta. Tessy Callado, que estava na mesma casa com José Carlos, contou ao pai, Antônio Callado, que o amigo estava sendo seguido. Amigo de Edgar da Mata-Machado, Callado convidou José Carlos para um jantar. Callado aconselhou: “Meu filho, você precisa largar isso. Não dá mais para continuar. Você desfaz todos os contatos e sai”.

Os documentos políticos de José Carlos ficaram com Tessy, que pediu apoio à psiquiatra Nise da Silveira. Nise sugeriu: “O Luís Carlos Prestes caiu por causa de umas cadernetas. Acho melhor a gente destruir isso tudo”. (Na verdade, militantes do Partido Comunista Brasileiro caíram devido às cadernetas de Prestes.) Os papéis foram queimados.

Honestino Guimarães

Em São Paulo, José Carlos recebe a informação do amigo Joaquim Martins, o Quincas: “O Honestino foi preso”. José Carlos concluiu: “Ele caiu depois de se encontrar comigo. Há poucos dias tive um ponto com o Gui”. José Carlos escreveu um documento e mandou para Salvador, para a casa de Oldack Miranda. “Nunca se soube o destino desse documento. O CIEX estava controlando todas as correspondências que iam para a casa de Oldack Miranda, onde Gilberto sempre fazia ponto. As cartas eram lidas e xerocadas, depois fechadas novamente, sem deixar vestígios de que tinham sido violadas.”

Ao amigo Quincas, José Carlos admitiu que, agora sim, estava decidido a sair do país. Quincas já estava preparando um esquema para mandá-lo para o exterior.

Gilberto decide procurar o cunhado em São Paulo. “A repressão não se conformava em tê-lo perdido de vista”, conta Samarone Lima. Gilberto localiza Quincas. Amigos da família de Edgar da Mata-Machado decidiram buscar José Carlos em São Paulo, mas foram seguidos.

Honestino Guimarães: denúncia de Gilberto Prata levou ao estudante de Geologia da UnB | Foto: Reprodução

De repente, Gilberto aparece e pergunta: “E você, Zé? Tá indo para onde?” Sem desconfiar, José Carlos abre o jogo: “Estou saindo. Vou agora com o Quincas e o Anatólio para Beagá”. Gilberto insiste: “Você acha que está sendo seguido?” “José Carlos admitiu com a cabeça. Gilberto sugeriu que os dois trocassem de blusa. ‘Fica mais fácil enganar’. Trocaram de blusa. Do lado de fora, em movimentos nervosos mas disfarçados, os agentes, comandados pelo delegado Fleury, estavam de prontidão para pegar José Carlos.” (A blusa ajudou a identificar José Carlos.) Ao sair, José Carlos abraçou Gilberto e disse: “Te cuida, Gil. Tem muita gente caindo”.

Na estrada para Belo Horizonte, vários agentes armados cercaram o carro onde estava José Carlos, que, parecendo tranquilo, disse: “Deixem os outros. O único comunista aqui sou eu”. “Um dos agentes o reconheceu e começou a urrar: ‘pegamos o cara. Porra, pegamos o Mata Machado! É esse mesmo o cara!’” José Carlos era um “troféu”.

José Carlos foi levado para o DOI-Codi. Ele disse ao amigo Adalberto: “Eu vou morrer”. “Em São Paulo, (o agente) Cerqueira comunicou a Gilberto Prata: ‘Tudo certo. Teu cunhado foi preso’.” Foram presos também Oldack Miranda e Gildo Lacerda.

Em Recife, José Carlos foi torturado pelo DOI-Codi. As estudantes Fernanda Gomes e Melânia Albuquerque viram o militante da AP. “Um homem escoltado por dois carcereiros caminhava com dificuldade. Tinha uma venda nos olhos, mas o desenho do rosto, os cabelos eram perfeitamente reconhecíveis. Fernanda chamou rapidamente sua amiga Melânia, que estava deitada no fundo da cela: ‘Melânia! O Zé! É o Zé Carlos!’ (…) Mal entrou numa cela, bem próxima à de Fernanda, José Carlos foi submetido a uma selvagem sessão de tortura. Os gritos ecoavam como estilhaços, espalhavam-se pelos corredores, pelas celas, entravam pelos ouvidos e se alojavam num lugar secreto da cabeça. Gritos cujo eco permaneceria por mais de duas décadas. Gritos de dor, desespero, agonia. A tortura cruel, impiedosa, que continuaria por várias horas”, relata Samarone Lima.

José Carlos morreu no dia 28 de outubro de 1973, aos 27 anos, desfigurado pela tortura. O “Jornal Nacional”, pela voz de Cid Moreira, anunciou a morte de José Carlos da Mata-Machado e Gildo Macedo Lacerda, militantes da APML.

Por causa da luta da advogada Mércia Albuquerque, a família conseguiu ter acesso ao corpo de José Carlos, que já havia sido enterrado. “José Carlos havia sido enterrado num caixão de taliscas de madeira, sem tampa. Mércia ficou impressionada com a imagem. O corpo do rapaz revelava as atrocidades a que tinha sido submetido no DOI-Codi do Recife. Dedos contorcidos, quebrados, o couro cabeludo arrancado.”

Depois da exumação e embalsamento, o IV Exército encrespou e não quis liberar o corpo. A notícia saiu no “New York Times”, no “Le Monde”, no “Avenire D’All Itália” e no “Dal Mondo”. Só então a ditadura cedeu. O coronel Cúrcio Neto exigiu: “O caixão lacrado não poderia ser aberto em hipótese nenhuma”. Em 14 de novembro de 1973 o corpo de José Carlos chegou em Belo Horizonte e sua família pôde enterrá-lo.

Edgar da Mata-Machado disse à mulher e aos seis filhos: “Vamos nos dar as mãos e rezar para que Deus nos dê forças para perdoar os assassinos”. Depois, passou a repetir uma frase de Leon Bloy: “Sofrer passa. Ter sofrido não passa nunca”. Edgar, jurista eminente, morreu em 1995.

Segundo o jornalista Samarone Lima, Gilberto Prata continuou recebendo dinheiro do governo militar. No Natal de 1983, “Gilberto bebeu muito e foi à casa da sua irmã, Madalena. Queria ‘falar umas coisas’. Os dois sentaram-se na sala, com um gravador ligado, e Gilberto começou a falar tudo. Que tinha sido contatado pela repressão, que tinha ajudado a localizar o cunhado, como era o esquema etc. Madalena escutou horrorizada. (…) Madalena pegou as duas fitas gravadas e passou para ex-militantes da AP. Até hoje, as fitas não foram divulgadas.” (O deputado Aldo Arantes contou ao Jornal Opção, durante uma entrevista, que sua ex-mulher, que mora em São Paulo, guardou as fitas com as confissões de Gilberto Prata por dez anos.)

Envolvido com organizações não-governamentais e ligado ao Partido dos Trabalhadores (página 219), Gilberto relutou em divulgar seu depoimento. Mas, em dezembro de 1992, no Congresso Nacional, à comissão que apurava os desaparecimentos políticos, Gilberto contou sua história. “Não falou tudo o que sabia”, alerta Samarone Lima. Mesmo o livro de Samarone não é inteiramente esclarecedor.

Nascido em 20 de março de 1946, José Carlos estaria hoje com 54 anos. Rubens Lemos, preso em Recife, viu Zé devastado pela tortura. “Respirou fundo tentando arranjar forças, ergueu a cabeça e viu um rapaz sentado, somente de cueca, com a cabeça escorada numa mesa de madeira que estava no centro. Tinha hematomas por todo o corpo e sangrava muito. Ao fundo, o corpo de um outro homem, que parecia estar morto.” O rapaz que estava sentado, sangrando pela boca e ouvidos, disse para Rubens: “Meu nome é José Carlos Novais da Mata-Machado. Sou dirigente nacional da Ação Popular Marxista-Leninista. Se você puder, se tiver condições, avise aos companheiros que eu não abri nada”.

Clarice Lispector foi assediada por Jânio Quadros

Uma história curiosa é contada rapidamente por Samarone Lima. Jornalista do Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP de Lourival Fontes, Clarice Lispector, assediada por um colega, pediu ajuda ao jornalista Geraldo Mendes Barros.

Geraldo sugeriu que Clarice fosse passar uns tempos na casa de amigos, em Belo Horizonte. Como sua casa era pequena, Edgar de Mata-Machado providenciou um quarto num hotel. Ela ficou muito amiga da família de Edgar.

Com sua beleza exótica, Clarice era vítima de cantadas frequentes. A escritora era casada com um diplomata, durante o governo de Jânio Quadros. Colocada ao lado de Jânio, Clarice sentiu uma mão entre suas pernas. Ficou petrificada. Quando se recuperou, pediu licença e deixou a mesa. Não voltou mais. Jânio era menos discreto e refinado do que Juscelino Kubitschek.

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