Euler de França Belém
Euler de França Belém

Fidel Castro criou transnacional da pistolagem para matar executores de Che Guevara

Matadores da esquerda foram enviados por cubanos e bolivianos para executar envolvidos na morte do guerrilheiro tanto na Bolívia quanto em outros países

Che Guevara morto na Bolívia, em 9 de outubro de 1967, depois de tentar repetir a Revolução Cubana na América do Sul com o apoio de apenas 50 guerrilheiros | Foto: Reprodução

Quando Ernesto Che Guevara foi morto por militares bolivianos, depois de ser capturado por rangers treinados por boinas-verdes dos Estados Unidos, em 9 de outubro de 1967, o dirigente cubano Fidel Castro e o Exército de Libertação Nacional (ELN) decidiram vingá-lo. Criaram, por assim dizer, uma transnacional da pistolagem política. A ordem era vingar a morte do guerrilheiro argentino que se pretendia um revolucionário global. A história está documentada em vários livros, como “Che Guevara — Uma Biografia” (Objetiva, 920 páginas, tradução de M. H. C. Côrtes), do jornalista americano Jon Lee Anderson, e “Caçando o Che” (Record, 279 páginas, tradução de Flávio Gordon), dos jornalistas americanos Mitch Weiss (Pulitzer de Jornalismo Investigativo) e Kevin Maurer.

Autor da mais rigorosa biografia do revolucionário que perdeu a vida na Bolívia, Jon Lee Anderson sugere que havia uma “maldição do Che”. Porque alguns dos que participaram, direta ou indiretamente, de sua morte foram mortos ou feridos por comandos revolucionários guiados por assassinos monitorados e financiados pelos cubanos. A obra é de 1997. O livro de Mitch Weiss e Kevin Maurer saiu em 2013 nos Estados Unidos e em 2015 no Brasil. Portanto, suas informações são mais atualizadas.

A vingança

René Barrientos Ortuño, Roberto Quintanilha, Andrés Selich, Joaquín Zenteno Anaya, Juan José Torres, Gary Prado Salmón: os homens que lutaram contra a esquerda foram vítimas da “maldição do Che”? | Fotos: Reprodução

Mitch Weiss e Kevin Maurer relatam que, “mesmo no auge da fama, Che só liderou cerca de cinquenta guerrilheiros” (apenas três saíram vivos da Bolívia). A revolução do comunista talvez deva ser chamada de uma missão suicida. Mas seus matadores não tiveram, no geral, melhor sorte.

O presidente-general René Barrientos Ortuño — que, contrariando os Estados Unidos, deu a ordem para executar o guerrilheiro — ficou mais forte depois da morte de Che Guevara. “Mas, em abril de 1969”, relatam Mitch Weiss e Kevin Maurer, “dezoito meses após a morte de Che, as hélices do helicóptero presidencial chocaram-se contra cabos de eletricidade sobre um cânion rural. Barrientos morreu no acidente”. Jon Lee Anderson informa que o helicóptero “caiu em circunstâncias inexplicáveis”. Dos implicados na morte do revolucionário, foi o primeiro a morrer.

O fazendeiro Honorato Rojas, que entregou a patrulha de Joa­quín (Juan Vitalio Acuña Núñez, oficial cubano), foi assassinado por comunistas, em julho de 1969. Jon Lee Anderson menciona o bo­liviano como “camponês” e su­blinha que foi morto pelo “segundo” Exército de Libertação Nacional.

O sargento Mario Salazar, que participou da caçada a Che Guevara, disse a Mitch Weiss e Kevin Maurer: “Ninguém neste país [a Bolívia] aprecia o que fizemos. Só se fala de Che. Nós matamos o Che. Nós o derrubamos. Mesmo na morte, ele ficou com toda a glória. Quando se pensa nisso, percebe-se que não temos nenhum crédito”. Che Guevara, vivo, havia sido derrotado; morto, tornara-se vencedor. O ensaísta Christopher Hitchens escreveu que “o estatuto de ícone foi garantido porque ele fracassou. A sua história versa sobre derrota e isolamento, e por isso é tão sedutora. Se ele tivesse sobrevivido, o mito Che já estaria morto há muito tempo”.

Chefe do serviço secreto boliviano, Roberto Quintanilha Pereira teria sido responsável por cortar as duas mãos de Che Guevara, para facilitar sua identificação ou crueldade desnecessária (afinal, todos sabiam, inclusive a CIA, que se tratava mesmo do guerrilheiro de Sierra Maestra). O ELN e o governo de Fidel Castro jamais o perdoaram e o colocaram na lista dos que deveriam morrer. Em 1971, bolivianos e cubanos enviaram uma agente alemã, Monika Ertl, a Imilla, para Hamburgo com o objetivo de matá-lo. Frise-se que o general Alfredo Ovando Candía “queria decapitar Che e conservar a cabeça como prova. O agente da CIA Félix Rodríguez, que não queria a morte do guerrilheiro, disse que seria um ato bárbaro e sugeriu que cortassem um dedo. “Ovando adotou uma solução intermediária: amputariam as mãos de Che. As mãos foram decepadas e colocadas num vidro cheio de formol. O corpo foi jogado numa cova secreta, cavada por um trator em algum ponto do terreno coberto de moitas e arbustos perto da pista de pouso de Vallegrande, enquanto outra cova coletiva foi cavada perto dali para enterrar os camaradas de Che”, registra Jon Lee Anderson. O relato de Mitch Weiss e Kevin Maurer sobre a amputação: “Os médicos fizeram o inimaginável — cortaram fora ambas as mãos de Che. [Fidel] Castro poderia negar a sua morte, disseram. Assim, eles [os militares bolivianos] teriam provas de que Che realmente falecera”.

Monika “Imilla” Ertl, que mantinha ligações com esquerdistas alemães e com o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli (publicou Boris Pasternak e Tomasi di Lampedusa) — que teria lhe dado o revólver para a ação e financiado sua viagem para a Europa —, depois de ser treinada na Bolívia, no Chile e em Cuba, foi para a Alemanha e matou Roberto Quintanilla, que era cônsul-geral em Hamburgo.

Os livros dos jornalistas Jon Lee Anderson, Mitch Weiss e Kevin Maurer contêm radiografias precisas das ações de Che Guevara e guerrilheiros cubanos e bolivianos que lutaram contra o governo militar e foram derrotados | Foto: Reprodução

Um dos primeiros interrogadores de Che Guevara, o tenente-coronel Andrés Selich foi morto, de maneira brutal, por militares áulicos do presidente-general Hugo Banzer Suárez, em 1973. Se tem a ver com a “maldição do Che”, a morte não pode ser creditada à esquerda.
O coronel Joaquín Zenteno A­naya foi morto em Paris, em 1976, pela Brigada Internacional Che Guevara, que, segundo Jon Lee Anderson, era “desconhecida”.

O general Juan José Torres, como um dos chefes do Estado-Maior do presidente Barrientos, deu voto favorável à execução de Che Guerra e seu nome entrou para a lista dos assassináveis. Deposto da Presidência, exilou-se na Argentina, onde foi assassinado, em 1976, “por um esquadrão da morte argentino”.

O capitão Gary Prado Salmón, treinado pelos boinas-verdes, foi decisivo na captura de Che Guevara e, segundo Mitch Weiss e Kevin Maurer, queria que fosse julgado por um tribunal, e não executado. “Durante uma operação para debelar uma revolta armada em Santa Cruz de la Sierra em 1981, recebeu um tiro e ficou paralítico da cintura para baixo. Depois de se reformar do Exército como general, ingressou na política, alinhando-se com a centro-esquerda, e serviu durante algum tempo como embaixador da Bolívia em Londres”, relata Jon Lee Anderson. Mitch Weiss e Kevin Maurer ampliam a informação: “Em 1981, ele foi atingido nas costas enquanto lutava contra a tentativa de uma falange de extrema direita de tomar uma filial da Occidental Petroleum, na Bolívia”. O ferimento de Gary Prado, o homem que prendeu Che Guevara, não pode, portanto, ser debitado na conta dos revolucionários bolivianos e cubanos. Mas entra, quem sabe, na cota da “maldição do Che”. Gary Prado tem 80 anos.

O sargento Mario Terán (Mitch Weiss e Kevin Maurer dizem que era soldado) foi um dos voluntários que aceitaram participar da execução de Che Guevara. Ele queria vingar três companheiros que haviam morrido em confronto com o guerrilheiro. Ao vê-lo, Che Guevara teria dito: “Sei que você veio para me matar. Atire, covarde, você só vai matar um homem”. Jon Lee Anderson relata: “Terán hesitou, depois apontou seu fuzil semi-automático e puxou o gatilho, atingindo Che nos braços e nas pernas. Então, enquanto Che se contorcia no chão, aparentemente mordendo um dos pulsos numa tentativa de evitar gritar, Terán disparou outra rajada. A bala fatal penetrou no tórax de Che, enchendo seus pulmões de sangue”. O médico revolucionário morreu, aos 39 anos.

Mario Terán, aos 76 anos, está vivo. Jon Lee Anderson o encontrou na década de 1990 e o descreveu assim: “O carrasco, Mario Terán, é uma figura patética, um homem que continua vivendo às escondidas — às vezes usando perucas e outros disfarces — temendo por sua vida, convencido de que há muito tempo foi marcado para ser assassinado por Cuba e seus aliados. Terán é um homem profundamente amargurado, considerando-se bode expiatório dos seus oficiais superiores, que escreveram livros e ganharam glórias e títulos por sua participação na morte de Che. Ele se dispõe a falar sobre os acontecimentos que aconteceram em La Higuera em 9 de outubro de 1967, mas só se for pago”.

O cubano Félix Rodríguez, de 77 anos, vive nos Estados Unidos. O agente da CIA “acredita que foi marcado por Cuba para ser assassinado e fala de um incidente, nos anos 70, em que foi avisado pela Inteligência norte-americana de um plano para sequestrar um avião em que pretendia viajar”. “Ele ainda se arrepende de não ter feito mais para salvar a vida de Che”, anotam Mitch Weiss e Kevin Maurer.

O tempo transformou Che Guevara numa logomarca mais do capitalismo do que do socialismo. Politicamente, era apocalíptico, mas o capital tornou-o integrado.

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Adalberto de Queiroz

Os comunistas não perdoam.