Mario Garnero afirma que havia um Clube do Bilhão. A Camargo Corrêa e Ronaldo Cezar Coelho doaram dinheiro para o político mineiro. As sobras de campanha “desapareceram”. Filho de Tancredo Neves ataca Hélio Garcia

Ulysses Guimarães, José Sarney e Tancredo Neves: o triunvirato que garantiu a eleição do terceiro para presidente da República, em 1985, no Colégio Eleitoral. Era a aliança possível para retirar o poder dos militares sem traumas políticos e institucionais

“Tancredo Neves — O Príncipe Civil” (Objetiva, 647páginas), do jornalista Plínio Fraga, é, a um só tempo, uma biografia do balacobaco e, apesar de não ser a pretensão do autor, uma obra de história das mais rigorosas. A luta do político mineiro pela redemocratização é contada com mestria, com apoio da bibliografia e informações recém-apuradas. O livro mostra a ação consciente de um indivíduo que, se não era o dono da história, conhecia muito bem as trapaças da sorte e da política. Participou da batalha pelas Diretas Já, mas, quando a emenda Dante de Oliveira caiu, não desanimou e, ao ouvir um lamento do assessor Mauro Santayana — “governador, agora tudo acabou” —, disse: “Claro que não. Agora é que tudo está começando”. Iniciava-se a luta pela Presidência da República no Colégio Eleitoral.

A política, nas mãos de Tancredo Neves (1910-1985), ganhou status de arte. A articulação e convencimento de integrantes do PDS, como Aureliano Chaves e José Sarney, resultaram de um meticuloso e racional trabalho de formiguinha. Entre os próprios aliados havia resistência ao seu nome. Ulysses Guimarães, que queria ser presidente da República, rejeitava o homem de São João del-Rey. Este, comendo pelas beiradas, conquistou Franco Montoro, então governador de São Paulo, e depois um dos principais aliados do venerando Ulysses Guimarães, o senador Fernando Henrique Cardoso. Ao final do processo, tendo conquistado aliados entre os homens do status quo — até o presidente João Figueiredo tinha certo entusiasmo: “Tancredo Neves é um nome confiável para a conciliação nacional. É moderado e aceitável” —, tidos como conservadores, e o apoio de aliados recalcitrantes, apontados como progressistas (caso de Ulysses Guimarães), o astuto ministro da Justiça do governo democrático de Getúlio Vargas, na década de 1950, acabou eleito presidente no Colégio Eleitoral. Plínio Fraga mostra, com rara felicidade e com estilo de cronista — e de repórter atento às filigranas da história (Deus, sabe Lúcifer, está nos detalhes) —, como um político hábil pode, por vezes, tornar-se “senhor” de sua história e da história geral. Fica-se com impressão de que Tancredo Neves percebia os fatos com mais nitidez e, por isso, trabalhava de maneira mais adequada os futuros possíveis. Uma de suas habilidades era, além de ter domínio sobre suas ações, com informações precisas — e não meras opiniões —, examinar o jogo do adversário como de fato era, e não como se pensava que era.

O leitor atento perceberá, lendo a obra de Plínio Fraga, que, de algum modo, o país ainda é tributário tanto do período ditatorial — a retomada do aprendizado de se fazer política, a alta política, não tem sido nada fácil — quanto do período inicial de redemocratização. Por isso, embora toda a obra seja louvável — oferecendo ao leitor um rico painel da história do país, com destaque para o pós-1930 e até 1985 —, não se pode deixar de lado, porque interessantíssimo, o epílogo, “Dinheiro de sobra não sobra”. São 22 páginas de apuração jornalística excepcional.

Os historiadores do período não vasculharam o assunto, ao menos não com a atenção devida, mas o repórter Plínio Fraga resgata a história de como foi financiada a eleição de Tancredo Neves para presidente da República, no Colégio Eleitoral, em 1985, e o que, ao final, se fez com o dinheiro que sobrou da campanha. Trata-se de uma reportagem, é certo, mas a avaliação é de matiz mais histórico, quer dizer, o autor da biografia não está preocupado com a mera denúncia, da estirpe que leva o Ministério Público a escarafunchar ainda mais o assunto e, depois, proceder à denúncia dos políticos na Justiça.

Depois de examinar campanhas anteriores, como as de Eurico Dutra e Getúlio Vargas, e antes de descrever a campanha de 1985, Plínio Fraga vasculha a campanha de Tancredo Neves contra o candidato do PDS, Eliseu Rezende, pelo governo de Minas Gerais, em 1982. Os dois gastaram muito dinheiro, mas o postulante do PMDB acusou o pedessista de ter gastado muito mais, dado o apoio de setores do governo federal, como o ministro Mário Andreazza. (“Até 1993, os candidatos realizavam diretamente seus gastos eleitorais e recebiam recursos de pessoas jurídicas sem fiscalização. Em 1993, a legislação eleitoral mudou. As sobras de campanha foram enfim regulamentadas. Tinham de ser registradas e destinadas às agremiações.”)

Doações empresariais

A redemocratização do país, começada em 1982 e consolidada em 1985, com a vitória de Tancredo Neves para presidente no Colégio Eleitoral, foi financiada por “doações de empresas e empresários”, informa Plínio Fraga. “A retomada do poder civil ocorreu sob as sombras das sobras de campanha eleitoral.”

O biógrafo relata que, “apesar de ser disputada em colégio fechado, a campanha presidencial chegou aos meios de comunicação como propaganda paga. Sinal de que havia dinheiro sobrando”. Paulo Maluf, político paulista do qual derivou a palavra “malufício”, lançou filmes publicitários com o slogan: “Maluf é o único que pode mudar de verdade”. No processo para assegurar sua candidatura pelo PDS, não poupou dinheiro: torrou, em apenas dois meses, 7 milhões de reais (os valores foram atualizados pelo autor do livro).

João Figueiredo e Tancredo Neves: o presidente da República e o político mineiro articularam em prol da redemocratização; aos poucos, o general começou a aceitar o então governador de Minas e a avaliá-lo como moderado e não revanchista

Ante a fortuna de Paulo Maluf, que parecia ter o dinheiro do Banco Central à disposição, Tancredo Neves reclamou: “Eu me senti como um botequim de esquina lutando contra um supermercado”. Não era bem assim, registra Plínio Fraga. A campanha da raposa da terra de Guimarães Rosa e Carlos Drum­mond de Andrade não saiu nada barata. “Era ele quem tinha o apoio dos donos dos supermercados. Nomes como Abílio Diniz e Arthur Sendas desembolsaram mais do que víveres em seu favor.”

A campanha publicitária de Tancredo Neves era tão rica quanto a do candidato bancado pelo general Golbery do Couto e Silva (depreende-se, da leitura da biografia, que o Bruxo apoiava os dois candidatos, porque, a rigor,
eram o coroamento de seu projeto, formulado com o presidente Ernesto Geisel, de distensão e abertura). Os criadores de seu marketing eleitoral eram os profissionais Mauro Salles e Roberto Dualibi. Além da Setembro Propaganda, da Salles/Interamericana e da DPZ, mais sete agências trabalharam na campanha de Tancredo Neves para presidente. “Os publicitários diziam trabalhar sem remuneração. Os custos materiais eram pagos a partir de contribuições particulares. Os ar­recadadores empresariais de Tancredo atuavam nos bastidores e deixavam que a público viesse somente a forma alternativa de arrecadação: a irrisória venda de camisetas, botões e chaveiros.”

O empreiteiro Sebastião Camargo, dono da Camargo Corrêa — envolvida na Operação Lava Jato, atualmente —, disse que só daria dinheiro à campanha de Tancredo Neves se o próprio ou alguém de confiança o procurasse. O candidato enviou seu filho, Tancredo Augusto. Pois o caixa da campanha, José Hugo Castelo Branco, não havia sido aceito como intermediário. Ele queria entregar um cheque diretamente a Tancredo Neves. “Papai pediu que eu fosse em seu lugar, o que fiz. Só assim o China contribuiu”, confidenciou Tancredo Augusto a Plínio Fraga.

O empresário Jorge Gerdau Johannpeter, do Grupo Gerdau, conversou com Tancredo Neves, mas aceitou repassar o dinheiro ao tesoureiro José Hugo Castelo Branco. (Uma revelação: nas eleições de 1978 e 1982, Paulo Maluf doou
dinheiro para Tancredo Neves. Na segunda campanha, o intermediário foi Golbery do Couto e Silva, “que tinha simpatia pelo peemedebista”. Por que a eminência parda sugeriu a Maluf que desse dinheiro ao político de Minas? Porque planejava enfraquecer Mário Andreazza, que pretendia ser candidato a presidente. O adversário do líder do PMDB, na disputa pelo governo mineiro, era aliado de Andreazza. A grana foi repassada pelo empresário Edevaldo Alves da Silva.)

Os políticos de meados da década de 1985 eram hábeis na arte de “esconder” os gastos de campanha. Segundo Plínio Fraga, “havia cheques e títulos ao portador que facilitavam a transferência de muitos recursos sem deixar rastros. O comitê financeiro de Tancredo usou de criatividade para obter contribuições sem deixar rastros contáveis. Uma empresa doadora entregava o dinheiro que seria repassado a um banco ou corretora. Essa instituição aplicava os recursos no mercado financeiro. O lucro da operação era repassado a Castelo Branco. A soma originalmente aplicada retornava ao caixa da empresa doadora”.

Um dos principais doadores era o banqueiro Ronaldo Cezar Coelho (o mesmo que está envolvido com o senador José Serra, do PSDB, na Operação Lava Jato; o tucano recebeu 23 milhões da Odebrecht por meio do financista). Ele “levantou para a campanha de Tancredo 1,5 bilhão de cruzeiros, pouco mais de 1 milhão de dólares em valores atuais”.

Se hoje fala-se do Clube do Bilhão, patrocinado pela Odebrecht, pela Andrade Gutierrez, pela OAS e pela Camargo Corrêa, entre outras, o empresário Mario Garnero disse que um Clube do Bilhão bancou a campanha de Tancredo Neves para presidente. “A conta, para cada sócio, era de 1 bilhão de cruzeiros [‘300 mil dólares à época’] para ser aplicada na campanha.” Pertenciam ao clube, dirigido pelo Banco Sulbrasileiro, a empresa Líder Táxi Aéreo e as empreiteiras Andrade Gutierrez e Mendes Júnior.

Mario Garnero assegura que o próprio Tancredo Neves lhe disse que o dinheiro deveria ser repassado para José Hugo Castelo Branco. “A entrega da encomenda era discreta. Digamos assim: não havia recibo. O dinheiro passava pela Distribuidora Mil, de Belo Horizonte”, sustenta o empresário. O tesoureiro contrapôs, em 1987, que a campanha do presidente não havia recebido dinheiro de Mario Garnero. Aliados de Tancredo Neves contestam a informação de que havia um Clube do Bilhão.

Seria, Mario Garnero, um boquirroto? Ele diz que mediou contatos do presidente João Figueiredo e do ministro do Exército, Walter Pires, com Tancredo Neves. O peemedebista deu um telefone “especial” para contato. O empresário ligava: “Dr. Tancredo está?” O próprio líder do PMDB respondia, mudando a voz: “Não está, não. Quem queria falar?” O chefão do Brasilinvest respondia: “É o Mario Garnero”. Tancredo Neves respondia: “Talvez o senhor o encontre em dois minutos neste mesmo número”. A história é crível, pois o político era mesmo desconfiado, tanto que costumava dizer: “Telefone só serve para marcar conversas, não para conversar”. Ele seguia Guimarães Rosa: “Nada saber, tudo desconfiar”. Eis uma síntese do que é o mineiro.

Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Mora Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro e Fernando Henrique Cardoso: em campanha pelas Diretas Já, em 1984

Há informações de que políticos foram “comprados” tanto pelo grupo de Tancredo Neves quanto pelo de Paulo Maluf, que era mais acintoso. O Serviço Nacional de Informação anotou, num de seus informes: “O deputado federal Edison Lobão garante que a senadora Eunice Michilles recebeu a importância de um bilhão de cruzeiros e um homem que vive em companhia da senadora outros 500 milhões para que apoiasse Tancredo”. Observe-se que Edison Lobão é um dos investigados pela Operação Lava Jato — 32 anos depois.

Outro informe do SNI assinalou que Adauto Bezerra, então vice-governador do Ceará, antes de apoiar Tancredo Neves, negociou dívidas particulares com o apoio do ministro Mario Andreazza. Era o jogo duplo.
O deputado José Storopoli e o empresário Jorge Yunes forneceram serviços aos oposicionistas que organizaram um comício de Tancredo Neves, em dezembro de 1984, em São Paulo.

Um dos financiadores de Tancredo Neves era o empreiteiro Fernando Queiroz, proprietário da construtora Santa Bárbara En­genharia, de Minas Gerais. Ele pagava o aluguel de salas, telefones e despesas básicas. Pagava até os convescotes do político. O empresário chegou a repassar uma casa, em Brasília, para Antônia Gonçalves de Araújo morar. A segunda-dama era secretária e amante do peemedebista.

Murilo Mendes, da construtora Mendes Júnior, cedeu casa e gabinete para encontros e telefonemas secretos de Tancredo Neves, em Belo Horizonte e Brasília.

O Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge) teria sido usado na campanha de Tancredo Neves, segundo o SNI. O caixa da campanha do candidato a presidente, José Hugo Castelo Branco, era presidente dos estatais Bemge, Credireal e Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais. O tesoureiro tinha como aliados, no campo da busca de recursos financeiros, o engenheiro Sandoval Soares de Azevedo Filho, diretor do Credireal, e o governador de Minas Gerais, Hélio Garcia. A família de Tancredo Neves — o filho Tancredo Augusto e o genro Ronaldo do Valle Simões — participava da ar­recadação. Talvez para “vigiar” outros “caixas” de campanha.

Sobra de campanha

Plínio Fraga aponta que os principais doadores da campanha presidencial de Tancredo Neves foram os empresários Sergio Quintella [vice-presidente da Montreal Engenharia] e João Pedro Gouvêa Vieira [presidente do conselho de administração do Grupo Ipiranga e do Banco Francês e Brasileiro]. Os dois “arrecadaram cerca de 20 milhões de dólares para a campanha”. O valor, em valores atualizados, representa “quase 45 milhões de dólares”.
Se o colégio eleitoral contava com apenas 686 integrantes, concentrados no Congresso Nacional, as duas campanhas deveriam ter sido baratas. Mas o fato é que Paulo Maluf e Tancredo Neves circularam pelo país, cabalando votos. “Os argumentos de um lado e de outro para obter votos eram os mesmos: dinheiro”, diz Sergio Quintella. “Um senador nordestino apresentou como condição para apoio ao candidato oposicionista a quitação de dívida que tinha com o Banco do Nordeste. Como o banco era administrado pelo governo federal, empresários doaram o dinheiro que quitou as dívidas”, escreve Plínio Fraga. “Muitos parlamentares foram cooptados pelo vil metal”, relata Sergio Quintella.

Com a arrecadação farta de recursos financeiros, é natural que tenha sobrado dinheiro. Antônia Gonçalves de Araújo teria devolvido a Tancredo Augusto um cheque de doação de campanha. A goiana de Pires do Rio “acreditava que as sobras de campanha em 1974 tinham sido destinadas para o Hospital da Baleia, instituição filantrópica de Belo Horizonte, e para obras de caridade na cidade de Cláudio [MG]. Após a morte de Tancredo, foi questionada se tinha conhecimento de contas no exterior por parte do presidente eleito. Negou que houvesse”, relata Plínio Fraga.

Sergio Quintella e João Pedro Gouvêa Vieira afiançam que, concluída a campanha, sobraram 4,5 milhões de dólares (10 milhões de dólares, em valores atualizados). “Havia dólar em espécie, cheques ao portador, títulos diversos.” Tudo foi levado ao escritório de José Hugo Castelo Branco, no Rio de Janeiro. O caixa da campanha explicou que deixaria o dinheiro com Risoleta Neves, a viúva oficial de Tancredo Neves.
Mas Tancredo Augusto, em relato a Plínio Fraga, é peremptório: “Conversa fiada de que o dinheiro foi doado a instituição de caridade ou que tenha chegado à minha mãe! No final das contas, quando teve umas sobras, nós levantamos aquele negócio todo. Meu pai falou: isso vai para o partido em Minas, o PMDB. Ele falou para combinarmos com o Hélio Garcia”. Este era governador de Minas.

Depois do enterro, Tancredo Augusto procurou Hélio Garcia (conhecido como Ébrio Garcia, costumava dizer: “Não tenho tempo nem de fazer novos amigos, quanto mais inimigos”) para o acerto. “Cheguei lá e o Hélio não quis prestar conta, não. Eu mandei ele à puta que pariu. Falou que não tinha nada, não. Que coisa. Que filho da puta. Aquele tempo era tudo ao portador, cheque, certificado de depósito bancário. Você compensava. Não tinha nada nominativo”, denuncia o filho de Tancredo Neves. Plínio Fraga termina o livro com uma frase atualíssima: “Comprovou-se que sobras de campanha nunca sobram”.

Ronaldo Cezar Coelho (ligado a José Serra), Mario Garnero, Sebastião Camargo (criador da empreiteira Camargo Correa), Murilo Mendes (da Mendes Júnior) e Jorge Gerdau Johannpeter contribuíram com a campanha de Tancredo Neves para presidente da República, entre 1984 e 1985

O empresário

Plínio Fraga conta que, além de político, Tancredo Neves era um empresário relativamente bem-sucedido. Fez tráfico de influência? É provável. Mas não há evidência de que fosse corrupto, de que se apropriava de dinheiro público. Deixou um patrimônio razoável, não incompatível com sua atuação, tanto política quanto empresarial. Frise-se que viveu 75 anos. “Os imóveis que Tancredo deixou, se vendidos a preços de mercado hoje, valeriam pelo menos R$ 22,7 milhões.” Um apartamento no edifício Golden State, em Co­pacabana, vale atualmente 12 milhões de reais. Em bancos, deixou 116 mil reais para a família.

O livro de Plínio Fraga vale pelo conjunto da obra. É uma biografia de Tancredo Neves, claro, mas também é uma biografia do Brasil, pois o peemedebista militou, na política mineira e nacional, por várias décadas, tanto no poder quanto em suas proximidades. Vale muito mais do que os R$ 74,90 cobrados pela editora Companhia das Letras e pelas livrarias. É um portento histórico-editorial. É um diamante lapidado sobre a história do país. l