Euler de França Belém
Euler de França Belém

Cartas inéditas revelam que o poeta Manuel Bandeira era um garanhão da escola de Vinicius de Moraes

Um dos mais importantes poetas e tradutores brasileiros, Manuel Bandeira manteve casos com alemã, holandesa e várias brasileiras, sempre com discrição. Cineasta disse que sua agenda amorosa era rica

Gertrud Bühler e Manuel Bandeira: alemã e brasileiro foram ‘amantes’ | Foto: Revista época

Gertrud Bühler e Manuel Bandeira: alemã e brasileiro foram ‘amantes’ | Foto: Revista época

A realidade não pode ser mudada por meras palavras. Ainda assim, vamos lá. Tire, leitor, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, Deus e Jesus da poesia patropi, e o que teremos? Muito, mas nada igual, é certo. Na ausência do mineiro e do pernambucano, reinaria absoluto o pernambucano Manuel Bandeira, cercado de súditos de qualidade, como Gregório de Matos Guerra, Sousândrade, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Raul Bopp, Oswald de Andrade, Cecília Meirelles, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Mario Quintana, Vinicius de Moraes, Haroldo de Campos, Ferreira Gullar, Afonso Felix de Sousa, Manoel de Barros e Adélia Prado. Sobre a poesia de Manuel Bandeira, graças a estudiosos gabaritados, como Davi Arrigucci Jr. e Júlio Castañon Guimarães, sabe-se muito. Porém, sobre o homem que criou alguns dos mais memoráveis poemas da história, como “Vou-me Embora pra Paságarda” — espécie de hino da poesia brasileira —, sabe-se quase nada. Por isso não deixa de ser interessante, até muito interessante, a reportagem “Magros dedos dissolutos”, de Marcelo Bortoloti, da “Época”. A vida íntima do bardo é tão secreta, ou quase, que há dúvidas sobre sua sexualidade. Maledicentes sugeriram, ao menos nos bastidores, que não era muito chegado em mulher. As cartas inéditas e as histórias divulgadas pela revista mostram que o vate “chegou a namorar três mulheres ao mesmo tempo” e não perdoava nem as casadas. Era um autêntico “garanhão”, mas doce e nada contador de vantagens.

Manuel Bandeira, que jamais se casou, morreu em 1968, aos 82 anos. Sua poesia sensual tem a ver com sua rica vida amorosa? Parece que sim, ma non troppo, a se aceitar a tese de Davi Arrigucci Jr. “Acho que existe a emoção na obra dele, mas não um vínculo com o fato real. É uma transposição mais sutil”, afirma o autor do livro “Humildade, Paixão e Morte — A Poesia de Manuel Bandeira” (Companhia das Letras, 320 páginas). O fato é que, com certa discrição — os amigos sabiam de muita coisa, mas também eram reservados —, Manuel Bandeira pode figurar na lista dos Casanovas do País, atrás, quem sabe, apenas de Vinicius de Moraes, que assediava até mulheres de amigos, se, é claro, bonitas. “Bandeira amou três mulheres ao mesmo tempo, embora não vivesse com nenhuma delas: a holandesa Frédy Blank (seu médico era Pedro Nava), que era casada, a pernambucana Dulce Pontes, que também escrevia poesia, e a mineira Maria de Lourdes de Souza, filha de um ministro do Supremo Tribunal Federal.” Como o poeta “era elegante e discreto, suas mulheres conviviam de forma harmoniosa”.

Outro que também pulava a cerca e escrevia poemas eróticos para a amante — Lygia Fernandes —, Carlos Drummond de Andrade, o Homero patropi, escreveu o poema “Tríptico” para, sem dizer nomes, falar do triângulo amoroso do amigo Manuel Bandeira. Os versos falam “em desafiar as leis da fidelidade sendo fiel a si mesmo”.

A alemã Gertrud Bühler foi uma das paixões de Manuel Bandeira, na maturidade, na década de 1960. “A evidência do affaire repousa bem guardada na cidade medieval de Esslingen”, na Alemanha. “São 30 cartas de amor que Bandeira escreveu para Gertrud. Elas falam de beijos ardentes, amor e literatura. Gertrud as preservou numa pasta encadernada com o tecido do vestido usado na última noite que os amantes passaram juntos. O material está com a filha de Gertrud, Francisca Janus”, relata “Época”. A alemã era 29 anos mais nova, mas nenhum dos dois se importava com idade.

Casada com um engenheiro brasileiro, Gertrud morou no Brasil durante algum tempo e depois voltou para a Alemanha. Em 1962, o poeta escreveu sobre o relacionamento com a alemã: “Os nossos beijos eram mergulhos perpendiculares aos azuis e rosas mais azuis e mais rosas de Chagall”. O envolvimento parece ter sido intenso.

Gertrud não está na lista das namoradas mais conhecidas — a das três “fixas”, por assim dizer. “Ela figura numa lista mais extensa e ainda mais secreta — a das namoradas esporádicas às quais Bandeira também se dedicou com grande entusiasmo.”

O caso mais sério de Manuel Bandeira parece ter sido com Frédy Blank, que era casada. Quando o marido morreu, em 1940, a holandesa e o poeta “assumiram uma vida quase marital, em casas separadas”. Autora do ótimo livro “A Trinca de Curvelo” (Topbooks, 196 páginas), Elvia Bezerra relata: “Eles iam juntos a concertos e jantares. Mas, como Bandeira sempre foi muito discreto, nem os amigos perguntavam que relação era aquela”.

A relações com Frédy Blank e Maria de Lourdes sugerem, se se pode dizer assim, uma bigamia informal. “Ele vivia simultaneamente com as duas. De dia almoçava com madame Blank e de tarde ia para a casa de Lourdes, onde jantava”, conta o poeta Thiago de Mello, de 88 anos.

Quando a poeta pernambucana morreu, em 1965, Manuel Bandeira, então com 79 anos, escreveu uma carta ao amigo Paulo Armando e disse que ele e Maria de Lourdes ficaram juntos 30 anos. “Nunca me deu um desgosto e era o meu refúgio nas tempestades da vida.”

Thiago de Mello conta que, levado à casa de Manuel Bandeira por Dru­mmond, não pôde ser atendido. “Bandeira só abriu a porta pela metade, porque estava em trajes sumários e com uma mulher que os visitantes não puderam identificar.” Joaquim Pedro de Andrade teve dificuldade para filmar “O Poeta do Castelo”, sobre Manuel Bandeira. O motivo era a “extensa agenda amorosa de Bandeira”. (Leia carta do poeta para Gertrud no site do Jornal Opção.)

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