15 livros recentes sobre a construção de Goiânia, a mudança e a vida na capital

Há livros cruciais escritos por acadêmicos e por jornalistas e arquitetos que permitem uma compreensão ampla da cidade que “gestou” Brasília

Nilson Jaime

Especial para o Jornal Opção

Cinco anos depois do início da construção de Goiânia, em 1933, surgia o primeiro livro sobre a nova capital construída no Cerrado, cuja fundação seria determinante  para a fundação de Brasília, menos de três décadas depois. (Um dado curioso: o arquiteto que projetou Goiânia, Attilio Corrêa Lima, nasceu em Roma, na Itália. Já o arquiteto que projetou Brasília, Lucio Costa, nasceu em Toulon, na França.)

A obra veio a lume pela jornalista e escritora vilaboense Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro, que publicou “Como nasceu Goiânia” (São Paulo: Revista dos Tribunais, 1938), livro com viés ufanista, até hoje um clássico.

Coreto da Praça Cívica, em Goiânia | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

Outros livros abordaram, circunstancialmente ou incisivamente, aspectos da construção de Goiânia, e sua história, ao longo de seus 87 anos, como “Os Tempos da Mudança” (Ed. do autor, 1967), do jornalista Jaime Câmara; “Memórias” (Cultura Goiana, 1973), de autoria do fundador da nova capital, Pedro Ludovico Teixeira; “Fundação de Goiânia e Desenvolvimento de Goiás” (Oriente, 1976), do historiador espanhol e professor da UFG e Universidade Católica de Goiás Luis Palacín; e “A Construção de Goiânia e a Transferência da Capital” (Cegraf/UFG, 1988), do historiador Nasr Fayad Chaul, doutor pela Universidade de São Paulo (USP).

Surpreendentemente, nos últimos 12 anos deste milênio, mais de dez obras foram escritas sobre as circunstâncias em que se deram a mudança da capital — da Cidade de Goiás para Goiânia — e a vida social nos primeiros dois decênios da nova cidade.

A seguir são apresentadas sinopses de 15 livros escritos desde 2008, e que são importantes — alguns até essenciais — para se conhecer o mudancisno e a história primordial de Goiânia. Os trabalhos são citados por ordem cronológica de publicação. Frise-se que listas são sempre lacunares (e até idiossincráticas); se não fossem, não seriam listas, e sim “bíblias”. Há outros livros importantes, é claro.

1

A Assembleia Constituinte Goiana de 1935 e o Mudancismo Condicionado” (Editora da UCG, 2008. 278 páginas), do historiador Jales Guedes Coelho Mendonça, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG). O autor é doutor em História.

Esse livro, produto da dissertação do autor para seu mestrado em História, na Universidade Federal de Goiás, apresenta uma abordagem inovadora no estudo da mudança da capital. À luz da Constituição Estadual de 1935 (como fonte normativa legitimadora da transferência da capital) e à dicotomia “mudancistas” x “antimudancistas”, Jales Guedes Mendonça propõe a terceira via: os “mudancistas condicionados”, que apoiariam a mudança da capital desde que fossem asseguradas à cidade do Anhanguera — apontada como “a cidade dos caiadistas decaídos”, pelos aliancistas de 1930 — as condições mínimas de sobrevivência e desenvolvimento. O autor desvendou essa “zona de sombra” da historiografia regional, permitindo uma visão mais crítica do processo mudancista, doravante. E há o detalhe de que escreve muito bem, com prosa de escritor.

2

Goiânia — Cidade Pré-moderna do Cerrado 1922-1938” (Editora da PUC-Goiás, 2009, 284 páginas), da arquiteta e urbanista Jacira Rosa Pires.

Esse livro foi escrito a partir da tese de doutoramento da autora na Universidade Politécnica da Catalunha de Barcelona, Espanha, defendida em 2006.

Com dezenas de fotografias, desenhos e fac-símiles das mais diversas concepções urbanísticas em voga no período, a pesquisadora do IHGG discorre sobre o Plano de Goiânia, elaborado entre 1932 e 1935 pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima e redefinido parcialmente por Armando Augusto de Godoy.

Com exemplos de traçados urbanos de diversas regiões do mundo, Jacira Pires demonstra a influência americana e francesa no projeto urbanístico da capital goiana. Trata-se do mais relevante estudo já produzido sobre o tema.

3

A Invenção de Goiânia — O Outro Lado da Mudança” (Editora Vieira, 2013; Editora da UFG, 2019, 2ª. Edição, 681 páginas), obra de Jales Guedes Coelho Mendonça.

Esse elaborado e elucidativo livro sobre a mudança da capital goiana é um divisor de águas. Deixa no passado o ufanismo pela nova capital e aborda o tema do autoritarismo na construção de Goiânia.  Realizado a partir de sua tese de doutoramento em História pela UFG, o autor traça um paralelo entre os processos mudancistas mineiro e goiano. Enquanto em Belo Horizonte o centro das discussões era o Parlamento, mediante Lei, no caso de Goiânia, Pedro Ludovico Teixeira optou pela via autoritária, por meio do decreto.

O autor demonstra como a decisão do interventor se sobrepõe à da Comissão formada para definir o local da nova capital, propondo Campinas, e não Bomfim (Silvânia), como o município que abrigaria Goiânia.  Um livro essencial para se entender a historiografia da mudança. Livro de scholar, repito, que escreve como excelente prosador que é.

4

A Construção — Cimento, Ciúme e Caos nos Primeiros Anos de Goiânia” (Contato Comunicação, 2013, 428 páginas), do jornalista e pesquisador Iúri Rincón Godinho.

Os livros sobre Goiânia da lavra de Iúri Rincón Godinho, da Academia Goiana de Letras (AGL) e do IHGG, são pictóricos e escritos em linguagem jornalística. A ausência de notas de rodapé facilita a leitura pelos não especialistas. Herdeiro e curador do acervo bibliográfico do primeiro prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas Borges, Iúri Godinho insere centenas de fotografias dos primeiros anos da nova capital, sem se descuidar do texto, fluente e leve como os de uma revista, porém com linguagem literária. As primeiras moradias, construídas com folhas de palmeiras, as casas em construção, os prédios públicos, o desconforto e o caos da nascente capital, que se somam às histórias inseridas com linguagem literária, fazem de “A Construção” um livro de agradável leitura.

O capítulo inicial “1932 – a velha capital encontra seu cavaleiro do apocalipse” é uma rica narrativa da vida cotidiana na cidade de Goiás, nos anos que antecederam à mudança. Esse capítulo, “por si”, já valeria o livro.

5

Goiânia em Guerra — Sangue, Sede e Escuridão nos Anos 40” (Contato Comunicação, 2018, 376 páginas), de Iúri Rincón Godinho.

Este livro retrata os duros tempos da vida em Goiânia uma década após sua fundação. Da mesma forma que o anterior, com muitas fotografias, legendas e textos recheados do bom humor e da irreverência peculiares ao autor, “Goiânia em guerra…” trata dos temas do subtítulo: sangue, sede e escuridão. Mas, também, da poeira e da lama das ruas não pavimentadas, dos nostálgicos estabelecimentos comerciais e das propagandas que recheavam os jornais e apontavam para a pujante esperança de tempos menos árduos. O livro aborda a falta de gêneros alimentícios básicos, como gasolina, açúcar, sal, nos duros tempos de racionamento da guerra. É um retrato da capital nos anos 40, como o livro anterior o foi da década de 1930. Detalhe: mostra a participação de militares goianos na Segunda Guerra Mundial, mencionando, inclusive, o primeiro goiano a ser morto na Itália, Aldemar (e não Ademar) Fernandes Ferrugem.

6

O Estudo que Construiu Goiânia” (Contato Comunicação, 2018, 180 páginas), edição fac-similar, por Iúri Rincón Godinho.

Essa obra é sobre um dos mais importantes documentos da mudança da capital, denominado “Relatório”, encomendado a uma Comissão que procedeu estudos que definiu o município para a instalação da nova capital. O documento, de 200 páginas, foi apresentado ao chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas, pelo interventor em Goiás, Pedro Ludovico Teixeira, em 1933.

7-11

Livros da série “Ruas de Goiânia — Décadas de 1940 e 1950”, diversos títulos coordenados pelo escritor Ubirajara Galli.

A série “Ruas de Goiânia”, com cinco títulos já publicados, foi idealizada pela arquiteta Narcisa Abreu Cordeiro, cujas publicações são coordenadas pelo escritor Ubirajara Galli, presidente da Academia Goiana de Letras.

A ênfase da série é na biografia e no cotidiano dos moradores pioneiros das ruas da capital nas décadas de 1940 e 1950.

12

Goiânia — A História em Documentos” (Trilhas Urbanas, 2018, 146 páginas), organizado por Gustavo Neiva Coelho e Milena d’Ayala Valva. Além do já citado Relatório, o livro apresenta documentos elaborados pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima e Armando de Godoy, autores dos projetos urbanísticos de Goiânia.

Consta da obra também o Plano de Obras de Goiânia, de Abelardo Coimbra Bueno.

13

Goiânia — Cidade Bem Nascida” (Prime, 2019, 159 páginas), organizado pela arquiteta Narcisa Abreu Cordeiro.

Trata do urbanismo, arquitetura, literatura, música e artes plásticas, desde os primórdios da nova capital, nas penas de Jacira Rosa Silva, Simone Borges Camargo de Oliveira, Lena Castello Branco, Maria Lucy Veiga Teixeira, Custódia Spencieri e Maria Abadia Silva, respectivamente.

14

História de Goiânia para Escolas” (Icebo, 2019, 146 páginas), do escritor Bariani Ortêncio. Em linguagem simples, apropriada a escolares, o livro aborda os motivos para a transferência da capital da Cidade de Goiás para Campinas, e a construção de Goiânia.

15

Some-se aos anteriores “Uma Cidade Ecologicamente Correta” (AB Editora, 1996, 200 páginas), do biólogo, agrônomo, advogado e doutor em Ciências Ambientais Osmar Pires Martins Júnior, da Academia Goianiense de Letras (AGnL).

Apesar de lançado em 1996, constitui o primeiro livro que aborda a temática ecológica, a formação dos parques e a transformação de Goiânia em “cidade verde”.

Nilson Jaime, escritor, é doutor em Agronomia pela Universidade Federal de Goiás. É colaborador do Jornal Opção.

Uma resposta para “15 livros recentes sobre a construção de Goiânia, a mudança e a vida na capital”

  1. Muito obrigado pela materia!
    Há tempos que gostaria de ter visto esse compilado

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