Euler de França Belém
Euler de França Belém

10 biografias imperdíveis que podem “amenizar” as dores dos leitores em 2021

Nós vamos ficar sabendo um pouco mais de Brizola, Ferreira Gullar, Marco Nanini, Ney Matogrosso, Villa-Lobos, Eric Hobsbawm, Kafka, García Márquez

Os diários de Kafka vão sair pela Todavia, com tradução de Sergio Tellaroli. A biografia de Lina Bo Bardi, escrita por Francesco Perrota-Bosch, já está circulando. O que prova que a arquiteta é muito mais do que a mera autora do projeto do edifício do Masp, aquele que parece uma nave no ar, quase-aterrissando. O que se espera, além dos livros citados abaixo? Que Mário Magalhães, o autor da excelente biografia do guerrilheiro Carlos Marighella, e José Roberto Pires, autor da ótima biografia do editor Jorge Zahar, nos deem, respectivamente, as biografais de Carlos Lacerda e Millôr Fernandes. Este ano, é claro.

Organizada por João Villaverde e José Márcio Rego, a autobiografia (Editora 34) do economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira merece ser lida. Bresser-Pereira talvez possa ser considerado com um dos “intérpretes” do Brasil.

A biografia de Philip Roth escrita por Blake Bailey sairá pela Companhia das Letras. O que é uma grande notícia. Bailey é autor de uma biografia excelente do escritor americano John Cheever.

1
Leonel Brizola/Companhia das Letras

Leonel Brizola, João Goulart e Jânio Quadros | Foto: Reprodução

O livro ainda não tem título, mas deve ser publicado este ano. A autora, Karla Monteiro, é uma jornalista e pesquisadora qualificada. Sua biografia de Samuel Wainer é de excelente qualidade.

Leonel Itagiba de Moura Brizola (1922-2004 — 100 anos em 2022), gaúcho que governou o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, precisa mesmo ser mais bem explicado. Era um grande político, sem dúvida. Seu radicalismo pode ter contribuído para o golpe civil-militar de 1964. Pode também ter sido o pretexto usado pelos militares e civis golpistas para derrubar seu cunhado, João Goulart, o Jango.

Brizola era socialista ou comunista? Seus adeptos apreciavam falar em “socialismo moreno”. Mas ele provavelmente era tão-somente um nacionalista de matiz socialdemocrata. Era menos “perigoso” do que acreditavam ou “fingiam” acreditar os militares.

2
Ferreira Gullar/Companhia das Letras

Há quem aposte que o maior poeta brasileiro, pelo conjunto da obra, é Carlos Drummond de Andrade — que merecia o Nobel de Literatura. O poeta mais inventivo é, apontam, João Cabral de Melo Neto. José Ribamar Ferreira, conhecido como Ferreira Gullar (1930-2016), merece figurar na lista dos maiores poetas patropis. É grande entre os gigantes.

Há facetas de Ferreira Gullar que precisam ser mais bem exploradas, como a de crítico de arte, a de colunista de jornal (que foi deixando a esquerda de lado, pouco a pouco, até se aproximar do, digamos, liberalismo). O rompimento com a ditadura dos poetas concretos — a mais longeva da cultura brasileira — merece um exame à parte. Como poeta, o maranhense superou os paulistas Haroldo de Campos (por sinal, bom poeta) e Augusto de Campos (cuja máquina publicitária, ancorada em jornais paulistanos, sempre foi muito poderosa) e ousou enfrentá-los, em polêmicas ásperas, sobretudo com Augusto de Campos (um tradutor notável).

O autor da biografia será Miguel Conde, um jornalista com ampla experiência na análise dos fatos culturais do país. É ótimo crítico literário.

3
Marco Nanini/Companhia das Letras

Marcos Nanini | Foto: Luciana Whitaker

A autora da biografia será a jornalista Mariana Filgueiras. Marco Antônio Barroso Nanini é um dos maiores atores brasileiros. É o tipo de ator que sabe tudo. E sempre representa muito bem. Comédia? É com ele. Drama? Não há ninguém melhor. Qualquer papel, em suas mãos mágicas, se torna convincente.

O único problema é que, aos 72 anos, está vivíssimo. Então, a biografia terá de ser refeita, de maneira paulatina. Mas vale mesmo publicar uma história de sua vida, que, claro, será um pedaço da história da cultura do Brasil. Ao “contar” Nanini, Mariana Filgueiras terá de falar do país e de atores que contracenaram com ele.

O teatro, o cinema e as telenovelas devem muito a Marco Nanini. Nós, espectadores-telespectadores, devemos muito — horas de prazer — a este ator de várias faces.

4
Ney Matogrosso/Companhia das Letras

O jornalista Julio Maria escreveu a melhor biografia de Elis Regina e é um dos mais atentos críticos de música do país. Tem todas as qualificações para biografar Ney de Souza Pereira, Ney Matogrosso (fará 80 anos em agosto), um dos maiores cantores brasileiros. A palavra precisa, ao se falar deste artista, é “intérprete”. Ele não repete outros artistas. Uma vez na sua voz — e, nos shows, com seu gestual —, a música passa a ser outra. É como Elza Soares, que, quando canta, “recompõe” a música.

Ney Matogrosso contou sua vida no livro “Vira-Lata de Raça — Memórias” (Tordesilhas, 288 páginas). O título é excelente e a obra tem qualidades. Até porque, sendo um “documento”, é o ponto de partida para qualquer biografia. Há pistas enganadoras? Pode até ser. Mas o texto continua dando conta da vida do cantor.

O problema — se é problema, num livro de memórias — é que o livro de Ney Matogrosso não tem nuances. É a apresentação de seu ponto de vista, de suas versões, por exemplo, sobre o Secos & Molhados.

Nas mãos de Julio Maria, que sabe perceber a grandeza de um artista — notando que só pode ser capturada a partir de suas contradições e não deixando de reconhecer que a obra final, a arte, é mais importante do que as opiniões —, teremos, por certo, um Ney Matogrosso até maior do que aquele exibido pelo cantor.

5
Villa-Lobos/Companhia das Letras

Ao escrever a biografia de Wilson Baptista, grande artista, Rodrigo Alzuguir certamente foi polindo a pena para, um dia, escrever a vida de um compositor erudito (que sabia entender a força da música popular) como Heitor Villa-Lobos (1887-1959).

A importância de Villa-Lobos é reconhecida no Brasil, mas falta uma biografia atualizada que explique sua importância como compositor, maestro, violoncelista, pianista e grande incentivador da cultura. É provável que o compositor seja mais conhecido no exterior do que no Brasil. Ele é uma espécie de Mário de Andrade da música erudita no Brasil.

6
Autobiografia de Mark Twain/Editora Zouk

Não se trata de uma biografia, e sim da polêmica “Autobiografia” de Mark Twain (trata-se do primeiro volume), o escritor que, com Abraham Lincoln, é um dos principais responsáveis pela prosa enxuta de Ernest Hemingway.

O livro terá tradução de Livia Koeppl. Twain é mais conhecido pelas “Aventuras de Huckleberry Finn”, um livro delicioso sobre um menino espertíssimo. Mas sua literatura e seus demais escritos vão muito além disso.

7
“Muhammad Ali: Uma vida”

O livro de Jonathan Eig já está nas livrarias, saiu no início do ano pela Editora Record (“Muhammad Ali — Uma Vida”, 770 páginas, tradução de Maria Lucia de Oliveira). É, seguramente, a melhor biografia do lutador de boxe Cassius Clay-Muhammad Ali.

Jonathan Eig revela um Muhammad Ali muito mais rico do que aquele que é descrito por David Remnick (seu livro comete o equívoco de não comentar a luta de Ali contra George Foreman, na África) e Norman Mailer (“A Luta” é uma excelente história da célebre luta entre Foreman e Ali, no Zaire, em 1974).

Claro, Muhammad Ali vencia seus oponentes nos ringues. Mas a vitória começava a ser desenhada fora deles. Porque, antes da luta, o boxeador já desmoralizava seus adversários. Dentro do ringue, provocava os rivais, irritava até os mais calmos e conseguia desconcentrá-los. Picava como uma abelha e escapava como um falcão. Outras vezes, apanhava, cansando os adversários, e, em seguida, partia para o ataque.

As lutas de Muhammad Ali (de 1,91m) elevaram o boxe à categoria de arte. Sua língua rápida e viperina era destrutiva. Suas lutas contra Joe Frazier, um peso-pesado de 1,82m — pequeno para a categoria (pouco maior do que Mike Tyson) —, são, digamos assim, “Ulysses” e “Em Busca do Tempo Perdido” das lutas de boxe. Arte pura. Violência? Ah, sim, mas estilizada. Rodin não disse (até porque morreu em 1917), mas deveria ter dito: “Quando luta, Ali esculpe o próprio corpo e, também, o corpo dos adversários”. Se tivesse dito isto, Rodin seria conhecido como o maior intérprete do boxe. Como não disse, continua como um brilhante escultor.

Jonathan Eig captura bem o ativista político, por assim dizer. Faziam a sua cabeça? O mais provável é que fingisse que estava sendo controlado. Na verdade, nenhum establishment controlou o maior lutador de boxe da história.

8
“Eric Hobsbawn — Uma Vida na História”

Richard Evans é um dos mais importantes historiadores da Segunda Guerra Mundial. Pois, depois de ter publicado três volumes alentados sobre a batalha de Churchill, Stálin, Roosevelt e De Gaulle — além de milhões de soldados — contra Hitler e Mussolini, o pesquisador britânico decidiu contar a vida de Eric Hobsbawm.

Pode-se não gostar do marxismo de Eric John Ernest Hobsbawm (inglês nascido em Alexandria), o que não se deve é sugerir que não se trata de um historiador notável — um dos melhores intérpretes do século 20, que chamou de “breve” (frise-se que escreveu uma valiosa história social do jazz, publicada pela Editora Paz e Terra).

O título em inglês é “Eric Hobsbawm — A Life in History” (352 páginas). Para quem aprecia história, como eu, é um livro imperdível. No curso de História, na Universidade Católica de Goiás (UCG), aprendi muito sobre a Revolução Industrial e outras temas lendo os livros de Eric Hobsbawm (1917-2012). A biografia vai sair no Brasil pela Crítica.

9
“Ninguém pode com Nara Leão”

Nara Leão foi, digamos assim, apropriada por certa turma de Ipanema, ou da ex-Ipanema. O que Tom Cardoso faz, no excelente “Ninguém Pode Com Nara Leão — Uma Biografia” (Planeta do Brasil, 232 páginas), é mostrar que, para além de estilos e movimentos, a artista tinha identidade, especificidade.

Ninguém fazia a cabeça de Nara Leão. Ela era mutante, sempre tentando avançar para conquistar novos ares e refazer sua arte. Não se repetia — era como um artista de jazz. Por isso, quando se falar de Nara, é melhorar escrever “Naras”, no plural, que, para defender seu poder criativo, em busca do novo a partir do velho e do velho a partir do novo, se tornava um verdadeiro Leão.

Tom Cardoso não diz, mas quase diz: Nara Leão, por si, era praticamente um movimento cultural, muito além da Bossa Nova. Com seu jeito tímido mas empático, deve ser considerada responsável pela “descoberta” da grande cantora baiana Maria Bethânia. E soube valorizar compositores quase esquecidos e reforçar o talento dos conhecidos.

Tom Cardoso é dono de uma prosa ágil — duvido que alguém interrompa a leitura para comer churrasco ou sanduba — e escreveu um livro que, embora não alentado, “revisa” parte da música do período de Nara Leão. Um portento.

10
“A Vida de García Márquez: solidão e companhia”

Fale “mal” de Gabriel García Márquez, sobretudo pela amizade indecorosa com o ditador Fidel Castro, de Cuba. Mas, como diz Billy Wilder, ninguém é perfeito — nem Deus, que criou o homem, este ser imperfeito que mata quase todos os outros seres e se considera o mais importante na face da Terra (o dono de todos os direitos).

Por sinal, o escritor Norberto Fuentes, cubano como Lezama Lima (este, sim, a maior revolução da história de Cuba) e Guillermo Cabrera Infante, conta que Fidel Castro mandou filmar as atividades sexuais, tidas como intensas, de García Márquez em Cuba.

Mas o que importa mesmo? O que vale é que Gabo escreveu uma das melhores novelas da história, “Ninguém Escreve ao Coronel”. O García Márquez que conta é o autor excepcional dos romances “Cem Anos de Solidão” (um símbolo literário — praticamente um mito — da América Latina) e “O Amor nos Tempos do Cólera” (que chegou até nós na tradução esmerada do “aristocrata” Antonio Callado). Tais livros engrandecem qualquer literatura, qualquer país, qualquer povo.

“A Vida de García Márquez — Solidão e Companhia” (Crítica, 288 páginas, tradução de Carla Fortino), de Silvana Paternostro, não deixa de contar a história da surra (na verdade, um único murro, mas que levou o colombiano a desmaiar) que o escritor peruano Mario Vargas Llosa deu no ex-amigo.

Latin lover, Vargas Llosa trocou a mulher por outra. A ex lamuriou-se com García Márquez. Depois, Patrícia Llosa voltou com o autor de “Conversa no Catedral” e relatou que “não era de se jogar fora”, pois outros homens, como o autor de “Crônica de uma Morte Anunciada” (que li, quase paralisado, com a alma suspensa), haviam se interessado por ela, no período da separação. O autor de “Travessuras da Menina Má”, acreditando que o colega havia cantado sua mulher, partiu para a briga, no México, num cinema. Mas, afinal, Gabo saiu mesmo com Patrícia Llosa? Tudo indica que não. O chifre, talvez inconscientemente desejado, era imaginário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.