Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

Sobre cidades… E saudade

(“That was Laura, but she’s only a dream”)

Saio de Goiânia, mas Goiânia não sai de mim.

Se perto, toda cidade é melhor que a minha. Se longe, nenhuma cidade é  páreo pra minha.

(Pode-se substituir “cidade” por “mulher” e se chegará à mesma — e melancólica — conclusão.)

São Paulo, por um megaexemplo, é o maior barato. Mas na minha Goiânia a comida é barata, e a água, abundante.

(Como o amor da mulher amada, que era pouco e se acabou.)

Que os novos bandeirantes não me ouçam, não me leiam, não me interroguem. Terá sido uma profecia a bravata do Anhanguera?

Desembarco na Estação Tietê. Por certo havia um rio por lá. O Tietê?

Agora há só uma estação sem chuvas e muitos paulistanos perdidos. Aliás, para cada estação – sem chuvas, diga-se — há muitos paulistanos perdidos.

Estação da Luz, enigma que o autofalante me decifra. Pra quê tanta escada, meu Deus! Cadeirantes de todas as estações, uni-vos.

Em Goiânia não há metrô nem autofalante, mas tampouco há escadas. Nem calçadas., Ai de mim que sou andante! E romântico.

Agora é Estação Ana Rosa, sussurra o pregão. E eu me lembro da mulher amada: “que é da Rosa nos cabelos?”

Não é hora. Mulher amada em Goiânia não há mais: já era. Por Deus, sem mais nem menos?

“Estação Paraíso”, avisa a anódina voz. Terei perdido o meu para sempre? “Senhora, por que me abandonaste?”

Vila mariana. Viva Mariana! Eis uma rima fácil para uma vaga esperança.

“…saída à esquerda do vagão”. Será a Praça da árvore? Ainda bem que não ando só: dois vagabundos, o Nei e eu, vagões adentro, vagões afora. Vagamundo!

Na Praça da Árvore chove uma chuvinha imaginária a que costumam chamar garoa. Não dá pro gasto, mas já é um alento.

No bar do Pincel, os amigos do Nei me desenham um coração corintiano. É falso, mas não deixa de ser um coração-reserva, já que o titular anda meio mal das pernas.

Falar em pernas, com um par daquelas eu ia até pra Irlanda. Mas a proverbial sisudez das beldades paulistanas – será solidão? — me faz querer voltar mesmo é pra minha Ítaca sem Penélope.

Ah, as mulheres de Goiânia! Ah, uma mulher em Goiânia. Sigo sendo um gavião fiel.

Enquanto leio a “Ode Marítima”, descemos a Santos: lá sou amigo do Nei.

Praia, sol e cerveja. E os novos amigos de infância me protegem do excesso de praia, de sol, de cerveja. E de cidades, e de saudade…

São Paulo, cidade dos excessos. Até a falta d’água é um excesso. E o recesso da chuva, e a chuva, quando vem.

“Em Goiás não havia navios e tivemos de inventar tudo, até as palavras”, me explica o poeta exilado. Ele agora reinventa ideias de esquerda para um Partido vivo – e canhoto, graças a Deus.

O poeta Adalberto Monteiro me abre a casa, me dá do melhor vinho, arranca-me a verdade e me acalenta o combalido coração – o titular – com versos assim:

“Renascer

(por Adalberto Monteiro)

 

O encanto fugiu, avoou e se acabou.

Não há o que fazer, nem mesmo ouvir um tango.

 

No amor o desencanto

Equivale à morte. Ele expele,

Afasta, finda, sepulta, crema.

Com a mesma força que o encanto

Atrai, aproxima, entrelaça.

 

Por ora não há nada a fazer

Senão ocupar-me da terrível tarefa

De retirar milhares de camadas de ti

Que se fixaram em mim.

De tanto dormires sobre o meu peito,

A máscara do teu rosto ficou moldada

Por sobre o meu coração.

 

Quando, novamente, o infortúnio atravessar

Uma faca enferrujada na minha carne

Não terei as tuas mãos para sacá-la

De minhas entranhas.

Quando for lua cheia

Não te terei ao lado,

Para aos berros anunciá-la a ti

Como se estivesse a anunciar a descoberta

De um astro novo.

 

Inúteis as lágrimas. Dispensável pôr –me de joelhos.

Se alegre, se saltitante,

À tua frente, como um potro adolescente,

Deixei de te encantar,

Não seria com a espinha dobrada

E os olhos nevados de sal

Que eu faria o teu coração

Novamente bombear

Carinho por mim.

 

Nada a fazer.

Exceto aprender, com a aurora

A renascer”.

 

E eu, paulistano só por um instante, me perco a cada estação, a ver navios que não há – posto que jamais os tenha visto. Só os invento, porque sou goiano. Renascerei?

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Adalberto Monteiro

Alissom, amigo querido,

Li tua crônica, tem verve, tem seiva, tem saliva, tem sangue
Vem ao mundo um novo cronista. A dor transmuta-se em literatura.
Meu poema fica lisonjeado de você tê-lo acolhido na tua crônica.
Abraço,
Adalberto

Adriane Garcia

Estou encantada por ter lido essa crônica tão verdadeira, tão fluida, tão crítica e tão gostosa de ler. Também muito feliz por conhecer mais um escritor “dos bons!” e pelas referências: muito Gente! Que é assim que é bom que seja. Um presente nesta noite. Um abraço, Alisson Azevedo. Parabéns!