Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

Sob nova direção

A venda de todo boteco, mercadinho ou birosca de rua deveria ser regulada pela mão forte do Estado.

Parece uma medida intervencionista, mas não é.

Quer dizer, até é – as questões de mercado obedecem a uma dialética bastante peculiar –, mas sempre a bem do capitalismo desenvolvido.

E a bem, também,  do consumidor mal acostumado.

Dia desses fui tomar a vitamina de sempre, na lanchonete de sempre.

Venderam a lanchonete; pior, adulteraram a vitamina.

Só o  capitalismo desenvolvido é capaz de evitar tragédias desse naipe.

E o  Brasil tem um bom exemplo. Alguém ainda se lembra do caso Ambev?

Quando Skol, Brahma e Antarctica resolveram acabar com a concorrência, muitos bebedores temeram a descaracterização de suas respectivas cervejas prediletas.

Paranóia pura. Cada cerveja seguiu com seu gosto, seu cheiro, seu malte próprio. Tudo devidamente regulado pelo Estado.

Não teve a mesma sorte a vitamina da lanchonete da esquina lá de casa, agora sob nova direção e péssimo gosto.

Num colóquio sobre as agruras da vida adulta – no propício ambiente das redes sociais, evidentemente –, descobri que o mercado vizinho à minha amiga também mudou de dono.

E mudou as coisas de lugar, a qualidade das coisas, o preço das coisas, o cheiro das coisas.

Ah, os cheiros! Alguma agência reguladora devia proibir a mudança dos cheiros das coisas e dos lugares de que gostamos.

O cheiro do pão de queijo da minha infância era muito melhor do que o pão de queijo da minha infância. (Que aliás não era mau.)

Nestes tempos bárbaros, basta uma birosca mudar de direção e ficamos nós à deriva, ao deus-dará, em total abandono — em busca do cheiro perdido.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.