Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

Protesto existencialista

Alguns anos depois daquele insólito levante, eu obtive do escritor Roberto Amaral, nosso professor de português à época dos fatos, o seguinte depoimento:

“Coincidiu que naquele momento eu lia Sartre – ‘O existencialismo é um humanismo’ –, e vivia, vivíamos, a angustiante ameaça de demissão coletiva, afinal consumada.

De súbito, no intervalo de umas pachorrentas aulas matinais, uns minguados pirralhos entoaram um grito de guerra que me fez supor um delírio sartreano:

‘Queremos ser! Queremos ser! Queremos ser!’

Progressivamente, os infantes subversivos da quinta e sexta séries foram secundados pelos grandalhões imberbes da sétima e até da oitava.

Eis que, num átimo, meninos vigorosos e meninas saltitantes ecoavam por toda a escola o grito que, aos meus ouvidos, soava como uma sentença existencialista:

‘queremos ser! Queremos ser! Queremos ser!’

‘O quê? O quê? O quê?’ Era a pergunta que corria de boca em boca entre professores, funcionários e mesmo entre uns poucos alunos desavisados (ou alienados, como anacronicamente classificavam os próceres da miniestudantada.)

Aliás, foi a parcela mais alheada dos estudantes que me ajudou – a mim e aos meus pares – a entender as razões do movimento.

E essas razões eram, por assim dizer, assaz existenciais.

A nova direção do colégio (Rudá) cancelara a semana esportiva, uma espécie de olimpíada interna durante a qual as aulas eram suspensas.

O cancelamento da Semana Esportiva do Rudá – a SER — retirara dos estudantes seu troféu coletivo. E era por ele aquele prosaico brado com sotaque sartreano:

‘Queremos SER! Queremos SER! Queremos SER!’

Enquanto o protesto se dissolvia sem sucesso aparente, eu cogitava haver naqueles alunos a centelha do engajamento proposto pelo filósofo d’O ser e o nada.

Ao descobrir que existiam, eles agora queriam ser.

E o ser tem lá suas urgências – ainda que seja uma mera (a olhos alheios) semana esportiva”.

O que o Roberto Amaral só viria a saber depois é que o ser — pelo menos o meu ser – tinha lá outras urgências.

Quando lideramos aquele improvável protesto, o Augusto e eu queríamos provar à Luiza que a injustiça não prevaleceria. E vê-la sorrir de novo.

A Luiza era filha e sobrinha das duas irmãs recém-apeadas da direção da escola.

A alegre menina (ou estonteante mulher) nem entrada nos 15 anos agora andava tristíssima.

E o Augusto e eu, à frente do inoperante grêmio, só no que pensávamos era numa ação capaz de devolver à Luiza o riso perdido.

A causa era nobre. Veio o mote da semana esportiva, e com ele o apoio das camadas inferiores (quinta e sexta séries).

Fortalecidos pela base, estabelecemos uma aliança pontual com a elite da escola: os brutos fisiológicos da sétima e da oitava.

Fizemos, enfim, a boa e velha política.

Mas quando fomos chamados pela nova direção para uma “conversa”, questões pessoais tumultuaram o processo.

Acusados de “amiguinhos” da Luiza, cujos interesses estavam calcados no nepotismo, fomos taxados de complacentes com a antiga direção e seus malfeitos.

A semana esportiva foi rapidamente esquecida, e a nova direção criou seus fatos novos.

O Augusto se declarou à Luiza, tão mais bela quanto triste. Pra mim ela disse que explodiu em indignação, mas ele me contou foi outra coisa. E pediu segredo.

No fim do ano a escola fechou. O terreno, de origem filantrópica mas em área nobre, foi vendido a uma grande universidade privada.

Ah, e os professores foram

Demitidos coletivamente. Não consta que tenham protestado.

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