Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

Pequena história de amor

Histórias de amor em paz não costumam dar em grandes romances, em belos poemas ou em
qualquer outra obra-prima dos gêneros maiores.

Mas esta, para que não se perca nos desvãos do tempo – e principalmente para que não se
perca a esperança – merece ao menos uma singela crônica. (O gênero menor tem lá suas
vantagens.)

Quando ele veio ao Brasil pela primeira vez, ela atravessava um daqueles longos namoros sem
presente.

Embora vivamente interessado, ele se resignou. Afinal, O romantismo alemão, não custa
lembrar, é grave, respeitoso, paciente.

Somente quando ela terminou um namoro que no fim das contas já fora vencido pela inércia,
os dois puderam enfim encurtar o caminho para a distância. Mas esse foi, como veremos, um
lento e sinuoso percurso.

No início, nosso feliz casal podia viver seu idílio com o fogo e a folga dos estudantes. Durante
pelo menos metade do ano, ou ele vinha pro Brasil,, ou ela ia pra Alemanha.

Mas nem só de fogo e de folga vive um grande amor, ainda que feliz.

O muito trabalho, o parco dinheiro  e outras chatices do gênero acabaram por minguar os
encontros dos nossos namorados a meros dois meses por ano – durante as férias de cada um.

Foi então que ela decidiu que precisava ir morar na Alemanha. Não necessariamente com ele,
mas perto dele.

Terminou seu mestrado na obscura Goiânia, e foi fazer doutorado em plagas germânicas.

Seu objeto de estudo? A produção de insumos naturais para  a progressiva melhora do plantio
e da colheita dos víveres.

Simples assim, mas apenas pra quem tem a força propulsora do amor, a coragem dos amantes intrépidos, e pelo menos uma pedra no meio do caminho. Numa palavra, pra quem sabe “amar: verbo intransitivo”.

Era noite.  Ouvia essa história extasiado como o adolescente de outrora, tanto pela verve narrativa da nossa heroína à minha frente, quanto   pela arrebatadora beleza da amiga que eu
tinha ao lado e a  quem fulminava com olhos postiços de esperança e contemplação.

No ponto alto da noite, nossa heroína deu a senha para que minha amiga e eu instaurássemos
a realidade naquela senda de sonho improvável e de riso docemente constrangido.

Foi então que amanheceu. Resta a prometida crônica de um amor feliz, e alguns poemas
guardados na gaveta, como belo e terrível espólio de um – quem sabe? – amor também.

Ambos os amores sem filhos,  que pudessem desfrutar a ingente e promissora colheita dos
víveres.

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