Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

Ode descontínua e remota para flauta e oboé

As eleições fervilhando país afora e eu aqui metido em poesia.

E nem se trata de poesia brechtiana, do tipo “o indivíduo tem dois olhos / o partido tem mil olhos”.

Trata-se de Hilda Hilst e sua “Ode descontínua e remota para flauta e oboé — de Ariana para Dionísio”.

O título em si já é um verso lírico, e diz muito.

Em dez imbricadas canções, uma trovadoresca Ariana canta seu belo e resignado amor por um exuberante Dionísio – o grande ausente.

Zeca Baleiro, numa pegada de gênio, musicou esse decálogo lírico de Hilst, e confiou cada uma das dez canções a uma tarimbada intérprete.

É gente do quilate de Mônica Salmaso, Ângela Ro Ro, Zélia Duncan  e Maria Betânia. (Ângela Maria destoa um pouco, mas é bom revê-la em boa companhia.) Lançado em 2006 sem qualquer apelo comercial, “Ode descontínua e remota …” foi o disco da década.

Esgotado, pode ser ouvido livremente na Internet.

Foi a própria Hilda quem propôs a Baleiro a parceria, após se encantar por seu primeiro trabalho (“Por onde andará Stephen Fry?”). Morta em 2004, a poeta não viu o projeto concluído.

Mas Zeca não decepcionaria a autora de “Júbilo, memória, noviciado da paixão”.

Nos sofisticados arranjos, nas harmonias pontilhadas por raros instrumentos – como flauta e oboé –, no lírico jogo melódico que alinhava as dez canções, Zeca Baleiro urdiu uma legítima obra-prima a partir da “fonte de prata” de Hilda Hilst.

E obra literária, porque as canções surgiram primeiro como poemas, e têm a força destes.

Como prova (no sentido de degustação), segue a Canção I. Mas vale a pena degustar as dez, porque “Ariana pode estar sozinha / sem Dionísio, sem riqueza ou fama (…”.

Canção I

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.

Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu, Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

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