Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

O lugar do Poema

É corriqueira a crença de que poetas não devem se misturar à vida e aos (corriqueiros) problemas da humanidade.

Daí que tais entidades — os poetas — deveriam viver apartadas de seus semelhantes, ou pelo menos distantes deles uns bons degraus, acima ou abaixo, para evitar contágio.
E desde a “República” de Platão, inúmeros vates não só acreditaram nessa sentença, como a cumpriram fielmente.

Tanto é assim que já houve poetas malditos, exilados, isolados, flagelados, aniquilados, divinizados. E não só por vontade alheia, mas também por decisão própria.

Esse estranhamento é mais um dilema da própria atividade poética, e menos um fruto da propalada inadaptação dos fazedores de versos. Ele contém em si o engano equivalente a se atribuir argúcia aos advogados, zelo aos enfermeiros, organização aos bibliotecários. Essas são, na verdade, características peculiares às atividades pelas quais os indivíduos vocacionados — e somente estes — são absorvidos.

Minha hipótese para o estranhamento como dilema peculiar à atividade poética está diretamente relacionada ao lugar do poema na linguagem, que para mim é o de instantâneo perfeito da existência.

O escritor Milton Hatoum diz que o poema é a forma perfeita da literatura. Para ele, com quem concordo, o romance, o conto, a crônica — pobre crônica! — podem conter, e não raro contêm, altos e baixos que não necessariamente comprometem sua qualidade literária.

(O escritor Erre Amaral, por exemplo, estudioso de Guimarães Rosa e aficionado por seu “Grande sertão: veredas”, indaga a quem passa qual a serventia e o destino de um certo personagem Gramacedo, que surgiu e sumiu do romance sem dizer a que veio. Mas a presumida lacuna não compromete um vintém da qualidade literária da obra-prima rosiana.)

Já o poema — o bom e belo poema –, seja como forma perfeita da literatura, seja como instantâneo perfeito da existência, não comporta altos e baixos. Como tudo que é belo, enquanto forma perfeita da literatura, o poema requer inteireza e simetria. E enquanto instantâneo perfeito da existência, ele requer a radiância, o “quê da coisa”, ou, numa palavra, o “encantamento do coração”.

A atividade poética, tão inequivocamente submetida ao bom e ao belo — e, por mera exclusão, também ao seu contrário — traz em si uma forte carga de estranhamento. Por um lado, a ideia de poema como forma perfeita da literatura conduz ao inumano estranhamento da perfeição. Por outro, o lugar do poema como instantâneo perfeito da existência leva a outro estranhamento: o da perfeita captura do humano, não por um ente divino ou diabólico, mas pelo próprio humano.

Daí a inadaptação, intrínseca ou extrínseca, de grande parte dos indivíduos absorvidos pela atividade poética. Afinal, como podem conviver sem estranhamento o poeta com o homem comum, o homem comum com o leitor de poesia, o leitor de poesia com o poeta?

Essa tensão é aumentada quando leitor de poesia, poeta e homem comum habitam o mesmo indivíduo. Alguém que lê Camões e ainda assim se arrisca a fazer poemas, não estando por isso isento de cuidar bem de sua vida e da dos seus, carece de muito prumo para não perder o rumo — com o perdão pela rima pobre.

Felizmente estamos numa crônica, em si mesma imperfeita. Mas basta aparecer A Musa que valha a pena, e lá vou eu a rascunhar uns versos. Mas logo eu, que li Maquiavel e gosto de genética?

Resta saber Qual será mesmo o lugar da musa nesses versos que rascunho…

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Adriane Garcia

Excelente crônica. Gosto muito destes textos que pensam a poesia. Um grande abraço. Obrigada.