Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

O legado do pai do Miguel

“Miguel, entre outras características que o fazem muito especial, chegou com a Síndrome de Down. Seja bem-vindo, querido Miguel. Como disse seu irmão, você chegou na família certa! Agora, todos nós vamos crescer com muito amor, sempre ao seu lado.”

Com essas palavras Eduardo Campos e sua esposa Renata saudaram publicamente a chegada de Miguel, seu quinto filho.

E deram um belo exemplo de como uma família deve receber uma criança com deficiência.

Esse simples gesto amoroso pode ser visto em muitas famílias – inclusive na minha –, mas seu contrário é menos raro que o desejável.

Dias depois do nascimento de Miguel, há pouco mais de seis meses, o jornalista Elio Gaspari contou a história de uma irmã do presidente Kennedy que tinha uma depressão que lhe atrasava a aprendizagem.

Só por isso o pai lhe submeteu a uma lobotomia experimental que lhe comprometeu a fala e parte dos movimentos. Dos 23 aos 86 anos, ela viveu abandonada por sua exitosa família.

As famílias muito ricas, quando excluem seus filhos com deficiência, é por vergonha. Já as muito pobres, quando o fazem, é por ignorância.

No Tocantins, conheci crianças cegas bem pobrinhas, cujas famílias as privavam quase inteiramente de qualquer convívio social: não as levavam às reuniões familiares, à igreja, tampouco a parques de diversões.

Como consequência, essas crianças eram muito introspectivas, com pouco desenvolvimento dos sentidos e baixo rendimento escolar – quando iam à escola.

Não sei o que aconteceu com elas, mas provavelmente se tornaram adultos com desemvolvimento humano bem abaixo de seu potencial.

Minha experiência é mais parecida com a do Miguel. Tive a sorte de nascer “na família certa”, que superou muito bem o inevitável choque de saber que tinha um filho cego de nascença, no seu sexto mês de vida.

Além das vãs e caras tentativas de reverter o irreversível, aquele casal de bancários de um rincão do Mato Grosso chamado de Vale dos Esquecidos teve a preocupação de jamais me privar de uma infância feliz.

Tanto que fui imperador da bandeira do Divino Espírito Santo em festejos, cavalheiro nuns bons casamentos, tive barulhentos brinquedos, subi em árvore, tomei banho de cachoeira, e até arranjei um amigo que vendia picolé na cidade, com quem travei sociedade e fugi de casa por um dia – o que me rendeu merecidas palmadas.

Quando cheguei à idade de entrar na escola, meus pais se mudaram para a capital e pude aprender a ler e escrever — as duas habilidades que mais me enriquecem na vida.

A amorosa saudação de Eduardo e Renata ao seu filho Miguel leva a crer que ele será uma criança feliz. Sua deficiência – mais uma “entre outras características que o fazem muito especial” –, certamente merecerá cuidados, mas não o impedirá de realizar plenamente suas potencialidades.

Por uma atroz fatalidade, Miguel não terá seu pai por perto. Mas para ele, Eduardo Campos deixou um inestimável, fundamental e indelével legado – o legado do amor.

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