Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

O comício em que a vaca foi pro brejo

A Rosa me levou ao comício pra ouvir o discurso do meu tio.
Insisti com a avó pra que fosse ela mesma, mas alegou doencinha mole e não foi, não pôde, não quis.
A rosa me contou logo a verdade: que o candidato do avô não era o mesmo do meu tio, e que por isso a família andava meio desunida.
Eu gostava muito da Rosa, porque ela me contava as coisas. Se não sabia, inventava.
A avó andava aflita pelo que diziam ao avô de uns discursos do meu tio.
Coisa de gente velha, mas eu queria muito ir ao comício. E a Rosa também.
O avô não queria deixar, mas a avó disse a ele que criança não vota – e a Rosa não contava.
Que a Rosa prestasse muita atenção no discurso do velho, foi a ordem que a avó deu, longe do avô.
Mas que não me deixasse perceber, porque eu não era lá de muita confiança: perguntava mais que filho de padre.
A Rosa era meio moca pra palavra bem falada, coitada. Dependia de mim até pra entender programa de rádio.
Na ida pro comício, entre uma volta e outra, me pediu pra prestar muita atenção no discurso do meu tio.
Ora, se era só o que eu queria!…
Antes do meu tio falou muita gente. Depois, só o candidato dele, e eu pensei que aquilo era bom.
Meu tio era tão engraçado que nem parecia irmão do avô.
Não era homem palhaço: tinha sido subprefeito e dono de fazendas de gado gordo.
Só sabia rir do que tinha — e do que não tinha também.
Quando começou o discurso, nem a Rosa conseguiu parar de prestar atenção.
Falou dos tempos de subprefeito, que fizera uma coisa e outra e que fulano e beltrano ali se lembravam. Os outros não, que eram pequenos.
Depois contou que ficou pobre, por causa da crise, dos posseiros e de uma briga com uns padres canhotos.
(Perguntei pra Rosa sobre os padres, ela se benzeu e respondeu que canhoto não é de Deus. Acho que não entendeu nada).
Meu tio pediu o voto de cada um, falou que às vezes nem a própria família apoia, por causa das rixas políticas, e explicou que, por isso, na outra eleição a vaca foi pro brejo.
Quis saber da Rosa que vaca era essa, e ela me mandou prestar atenção. Era o que ela fazia quando não tinha o que dizer ou o que inventar.
Não consegui mais prestar atenção em nada. Tive dó do meu tio por causa da vaca – vai ver era a última das suas fazendas de gado gordo!
Em casa, perguntei pra avó por que a vaca do meu tio foi pro brejo.
“Por causa das rixas políticas dele”, o avô falou bravo, do quarto.
Meu tio perdeu a eleição. O avô não votou nele, “por causa das rixas políticas”. Mas a avó votou escondido, a Rosa me contou.
Passado um bom tempo, meu tio apareceu na casa do avô. Os dois tomaram café, muito animados.
Quando encontrei maneira, perguntei: “Por que a sua vaca foi pro brejo, tio?”
Ouvi primeiro um pigarro seco do avô. Logo meu tio riu, dizendo:
“Porque desobedeci meu pai, menino. Ele me disse pra nunca brigar com gente de saia: mulher, padre e juiz. Briguei com os três e a vaca zangou.”

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