Alisson Azevedo
Alisson Azevedo

Milagre da ciência ou pontapé “padrão Fifa”?

O pontapé inicial dado no primeiro jogo da copa por um rapaz paraplégico, se visto com os óculos da esperança, foi alviçareiro; mas se visto com as lentes obtusas da promessa, foi chocho.

Quem, como eu, nasceu e cresceu com alguma deficiência, foi acompanhado desde a infância pela vaga, mas renitente, promessa do milagre.

No meu caso, da insuspeita Santa Luzia aos mais renomados oftalmologistas do país no seu tempo – passando por médiuns, curandeiros e pastores igualmente renomados –, todos prometeram que eu enxergaria em breve. E nenhum teve sucesso, pelo menos até agora.

Pelo milagre, tomei periódicas e caras vacinas nos primeiros dois anos de vida, fiz a dieta do peixe para esperar, dormindo, a visita de um invisível doutor Fritz, e fui compelido, por uns homens que me enchiam os olhos (e a barriga) de água benta, a ter fé na conquista de uma visão que eu sequer supunha o que era.

Um pouco mais tarde, quando minha família já havia desistido do milagre que eu nunca esperara, fui fisgado pela sedução da promessa.

Ali pelos sete, oito anos, uma prima com uns três a mais — e uma precoce mitomania — me disse que eu iria enxergar aos nove.

Ela me contou a  história de uma vidente que nosso avô consultara, e que até marcara dia para o milagre: meu aniversário de nove anos.

Mas eu não podia comentar com  ninguém, muito menos com nosso avô, de quem ela ouvira a conversa em segredo.

Nessa promessa de milagre eu acreditei, e esperei por ele com uma ansiedade atroz.

Minha malévola prima, feliz por despertar em mim a inédita fé, exaltou o prometido milagre até a véspera do meu mais aguardado aniversário.

O milagre não veio, como de costume. Mas em vez de recriminar minha prima,  aprendi, como muitas pessoas com deficiência mundo afora, a não precisar mais dele.

Não por acaso, o pontapé inicial da copa me fez lembrar essa pouco singela história infantil.

Liderada pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, a equipe do projeto “andar de novo” alardeou, em tom milagreiro, que por meio de uma veste robótica controlada pela atividade cerebral (exoesqueleto), um “paciente paraplégico” [sic] iria “se levantar de uma cadeira de rodas, caminhar por cerca de 25 metros no campo e dar o primeiro chute da Copa”.

Assim como sua cobertura pela Globo, o primeiro pontapé da Copa foi tímido.

E ao contrário do prometido, o tal exoesqueleto não logrou fazer com que o rapaz paraplégico caminhasse um metro sequer no campo.

O projeto do cientista Nicolelis certamente tem seus méritos, mas ao se submeter ao famigerado “padrão Fifa”, perdeu a razão.

Afinal, uma abertura de copa do mundo, ainda mais quando submetida às irracionais regras do mercadinho da Fifa, não é lugar para experimentos científicos.

Por r$33 milhões de reais de ajuda do governo brasileiro e muita promessa de mídia internacional, Nicolelis experimentou e teve pífios resultados.

Seu experimento ganhou ares de milagre malogrado, e a ciência ficou reduzida a mais uma piegas pantomima em meio àquele espetáculo farsesco.

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